A passagem de Luiz Felipe Scolari pelo Chelsea não guarda grandes lembranças. O brasileiro costuma ser menosprezado por seu curto trabalho em Stamford Bridge, no qual entrou em rota de colisão com alguns dos principais jogadores e sequer terminou a primeira temporada. “Big Phil” dirigiu os londrinos de julho de 2008 a fevereiro de 2009, conquistando 20 vitórias em 36 partidas, com aproveitamento de 55,6% nos resultados. Pois ainda assim, há quem o elogie. Em longa entrevista ao Monday Night Football, Ashley Cole apontou que o brasileiro extraiu o melhor futebol dos Blues, durante sua longa passagem pela lateral esquerda da equipe. O veterano ainda falou sobre outros assuntos interessantes.

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“Eu gostei de trabalhar com Scolari e Ancelotti – provavelmente são meus dois favoritos. Scolari chegou em um momento no qual eu provavelmente não estava jogando tão bem quanto poderia e os torcedores concordarão comigo que não era o Ashley Cole que viam no Arsenal. Scolari veio e trouxe vida nova ao clube. Era como se jogássemos pelo Brasil. Ele me fez avançar de um lado para o outro contra pessoas como Jamie Carragher e José Bosingwa. Não tínhamos regras, poderíamos ir e jogar como queríamos, os laterais subiam ao mesmo tempo, o que não se via, e estávamos exibindo um grande futebol. Em dezembro, isso se esgotou e depois disso ele foi demitido. Foi o melhor futebol que jogamos com a camisa do Chelsea, mas ele perdeu o emprego seis meses depois”, avaliou o veterano.

Apesar da fama dos ‘senadores’ do Chelsea nos vestiários, Cole garantiu que a influência não era tão grande assim, a ponto de derrubar treinadores: “Como jogador, você não se envolve com as mudanças no comando ou pensa muito sobre isso. Está lá para vencer, independentemente de quem seja o técnico, você precisa fazer seu trabalho em primeiro lugar. Quando você olha para isso, ganhamos no primeiro ano com muitos técnicos e depois caímos um pouco, mas consequentemente o treinador acabou demitido, o que é meio triste. Não acho que os jogadores estão envolvidos em grandes decisões como essa, são sempre do dono – e Roman, para mim, tem sido um dos maiores na história da Premier League. Ele sempre apoiou os técnicos com dinheiro para contratar, mas aí vêm as expectativas, você precisa ganhar. Nunca fui consultado, sempre fiz meu trabalho, estava lá para jogar futebol”.

“Você está no Chelsea para ganhar. Eu tive essa vibração quando cheguei ao clube. Mourinho estava lá e tinha feito um grande trabalho nos dois anos anteriores, mas seis meses depois ele foi demitido. Nós o transformamos talvez em um dos maiores treinadores de todos os tempos, mas três anos depois, ele estava sendo demitido. É implacável, mas como dono, você deseja ganhar. Roman achava que não conseguiriam os resultados ou não jogariam da maneira como desejava. O Chelsea sempre quer comprar novos jogadores e sempre estão dispostos a investir, mas isso vem com uma consequência: se você não vencer, está fora”, complementou.

Além disso, Ashley Cole falou sobre outras passagens de sua carreira. Refletiu especialmente sobre o momento em que deixou o Arsenal, onde arrebentava como um dos destaques dos Invincibles, para defender o Chelsea. O lateral fez a polêmica troca logo após o vice-campeonato na Liga dos Campeões de 2005/06 e foi tratado como um pária pela torcida dos Gunners. Mais experiente, diz que não se arrepende, mas poderia ter executado as coisas de maneira diferente:

“Eu era um jovem ingênuo, mas sentia que precisava fazer. A forma como agi foi um pouco teimosa na época. Talvez eu devesse ter sentado com mais algumas pessoas para esfriar a cabeça. Eu era um pouco esquentado e não sabia o que estava fazendo, mas não me arrependo. Quando olho para trás agora, penso que deveria ter acontecido. Ainda está lá a maneira como fui tratado. Isso me machuca porque não fui o único culpado. Não saí sem motivos. Não fui até o Wenger e disse que queria sair, foi mais do que isso. Vejo acontecer com outros jogadores, é a vida. Eu segui em frente e eles também, mas eu às vezes me sinto triste porque era meu clube de coração e eu jogava lá desde os nove anos, mas esse sentimento ruim dos torcedores ainda é duro às vezes”, apontou.

Sobre os tempos em Highbury, o defensor rasgou elogios a Robert Pirès, seu antigo companheiros pela esquerda: “Foi um grande parceiro. Eu tinha Henry que ia voar na ponta  e Robert passava por dentro. Então eu avançava, nós tínhamos esse tipo de conexão. Foi um prazer jogar com ele. Aproximar e ver o que acontece. Eles sempre poderiam te encontrar com ótimas bolas. Não treinávamos em padrões. Era como se fosse ‘jogue o que você vê’ e eu sempre gostei de fazer essa arrancada. Sempre aparecia sozinho na área e cruzava para que só completassem”.

Acima disso, a avaliação sobre o que fez na carreira é completamente positiva: “Acho que, sendo um menino do leste de Londres a jogar por meu clube de coração e ter a chance de ganhar a Premier League, isso é uma honra que eu aproveito. Provavelmente é a minha melhor medalha. Dei alguns bonés da Inglaterra [os ‘caps’ recebidos a cada convocação] a amigos e familiares, mas vir de onde eu vim e jogar uma partida pela seleção foi brilhante. Chegar a 107 é um sonho”.

Por fim, Cole comentou a motivação para seguir em frente no Derby County, ao qual chegou por empréstimo e declara ser o último clube de sua carreira: “Ainda amo o jogo. Fui eleito o melhor jogador do Galaxy na temporada passada e me sinto bem, em forma. A oportunidade surgiu quando pensei que tinha muito a contribuir e aqui estou. Conversei um pouco com Frank e ele sabe como eu sou, que eu queria voltar e jogar. Ele me mandou uma mensagem e eu abracei a chance de retornar a jogar na Inglaterra, especialmente por Lampard – ou eu deveria dizer chefe agora? Estou ansioso por voltar. Trabalhei nas duas últimas semanas sozinho, correndo e treinando. Esta semana vou me juntar à equipe, espero que possa estar na disputa essa semana”.