Asamoah Gyan parecia determinado a encerrar sua imponente trajetória com a seleção de Gana. Na última segunda-feira, chateado pelos rumores de que perderia a braçadeira de capitão, o centroavante utilizou suas redes sociais para anunciar que não defenderia mais os Estrelas Negras. Agradecia aos 15 anos vividos com a equipe nacional, mas garantia que seu tempo chegara ao fim. Porém, bastaram dois dias para que o veterano voltasse atrás em sua posição. Nesta quarta, o artilheiro de 33 anos garantiu o seu “fico”, disponibilizando-se para a Copa Africana de Nações. E a mudança de ideia contou com a intervenção direta do presidente ganês, Nana Akufo-Addo, pedindo para que o ídolo seguisse em frente.

Aos 33 anos, Asamoah Gyan é um dos jogadores mais importantes da história da seleção de Gana. São 106 partidas disputadas e 51 gols anotados, recordista em ambos os quesitos. Além disso, esteve presente em três Copas do Mundo (maior artilheiro africano do torneio) e em seis Copas Africanas de Nações. No entanto, sem defender os Estrelas Negras desde 2017 e sofrendo para se firmar entre os titulares do Kayserispor, seria natural que seu nome perdesse força rumo à CAN 2019. Pois o veterano não gostou de saber, antes do torneio, que perderia a braçadeira de capitão. O técnico James Kwesi Appiah deverá entregar a faixa para André Ayew.

Diante da notícia, Gyan preferiu nem ser cogitado à CAN. Antecipou-se aos acontecimentos e se despediu da seleção na última segunda. Relembrou a maneira como apoiou James Kwesi Appiah em outras épocas difíceis e até declarou que deu dinheiro aos companheiros em meio às costumeiras crises pelo pagamento de bônus. “Depois de consultar minha família e o time, se a decisão do técnico é dar a braçadeira a outro jogador enquanto eu for convocado, desejo recusar meu chamado. Também pretendo me aposentar da seleção, sem alimentar o suposto enfraquecimento que o time encarou sob minha liderança. Quero continuar contribuindo com o país em outros esforços, como empresário em vários investimentos”, escreveu.

O telefone de Gyan não demorou a tocar, todavia. Presidente eleito em 2017, Nana Akufo-Addo havia sido citado entre os agradecimentos da carta de despedida. Então, o político resolveu acalmar os ânimos do atacante. Conversou com o ídolo e garantiu que ele voltasse atrás. Não se sabe ainda quais os reflexos da atitude intempestiva do veterano em seu adeus. Mas é difícil imaginar que, depois da interferência presidencial, o treinador Kwesi Appiah não convocará o artilheiro. Deverá ao menos ficar no banco de reservas, em sua sétima CAN.

“Um pedido presidencial não pode ser ignorado. Tive a oportunidade de falar com o presidente, que, embora respeitasse meus desejos, pediu para que eu rescindisse minha decisão de deixar permanentemente os Estrelas Negras. Aceitei o conselho de bom grado e volto a me disponibilizar à convocação do técnico James Kwesi Appiah. Meu desejo de ajudar Gana a encerrar sua longa espera para conquistar a CAN continua grande e eu sigo comprometido em defender esta grande nação, bem como o povo de Gana”, retratou-se Gyan.

O episódio envolvendo Asamoah Gyan e o presidente de Gana relembra outra história famosa ocorrida no futebol africano. Em 1988, Roger Milla se despediu da seleção camaronesa e disputou até mesmo uma partida comemorativa. Após deixar o Montpellier em 1989, defendia o pequeno Saint-Pierroise das Ilhas Reunião. Contudo, diante da classificação dos Leões Indomáveis para a Copa de 1990, o ditador Paul Biya solicitou que o veterano de 38 anos participasse da competição na Itália. Milla liderou Camarões às quartas de final e ainda estaria na Copa de 1994, para se tornar o mais velho a balançar as redes em um Mundial.

Não dá para saber se Asamoah Gyan terá tamanho sucesso com Gana, mas a Copa Africana de Nações continua como uma dívida ao atacante. O país não ergue a taça desde 1982, tempos em que Abedi Pelé era um jovem reserva de 18 anos. Desde sua estreia no torneio, em 2008, Gyan sempre levou os Estrelas Negras às semifinais e disputou duas decisões, mas nunca foi campeão. Na final mais recente, contra a Costa do Marfim em 2015, o camisa 3 foi substituído aos 120 minutos para não participar da disputa por pênaltis. Após perder a fatídica cobrança contra o Uruguai em 2010 e outra contra Zâmbia na semifinal continental de 2012, ele prometeu à sua mãe que nunca mais iria à marca da cal – e isso poucos meses antes da progenitora falecer. Depois de tantas frustrações, a mudança de ideia influenciada pelo presidente pode providenciar uma nova chance ao medalhão.