Nos últimos quatro confrontos, quatro vitórias. Depois desta quarta-feira, é esse o retrospecto recente do Borussia Dortmund contra o Bayern Munique, e poucos clubes no mundo – provavelmente nenhum – podem se orgulhar disso. O efeito da vitória por 1 a 0 desta quarta-feira é imenso em termos morais e poderá ser também em termos práticos, pois a vantagem agora é de seis pontos e restam apenas quatro jogos. Mas, mesmo que o título não venha, já fica na memória dos torcedores o feito. Neste momento, é provável que alguns bêbados pela cidade ainda cantem algo como “Um, dois, três, o Bayern é freguês”, em alto e bom alemão e com uma talentosa caneca de cerveja por perto.

O jogo em si foi muito mais tenso do que emocionante, se você considerar que tensão e emoção são coisas distintas. Sem mais delongas pseudo-intelectuais, a parada foi a seguinte: o Bayern Munique tem o time mais talentoso, mais ofensivo, mais vertical, mais letal e mais forte da Bundesliga. E quis se valer disso para ganhar o jogo, como sempre faz de maneira legítima, quase sempre colocando os adversários que aparecem na roda, vencendo ou goleando. Foi assim nos últimos cinco jogos antes desta quarta-feira. Contra o Dortmund, não.

Os aurinegros não são mais fortes individualmente, mas têm mais talento do que qualquer outro adversário do Bayern na Alemanha. E a intensidade de jogo dos comandados de Jürgen Klopp impressiona. É o time que mais corre e mais desarma na Bundesliga, e com isso manda um recado claro aos oponentes, em tom desafiador: “Você pode até me vencer, mas terá que sofrer um bocado para que isso aconteça”. Há 24 rodadas, ninguém topa o desafio. São 19 vitórias e cinco empates nesse período, o que mostra a eficiência do jogo, aliada à beleza que a objetividade das jogadas criadas proporciona. São sempre contra-ataques bem feitos, triangulações insinuantes em altíssima velocidade.

Querem números? Aí vão eles: de acordo com o site “Whoscored.com”, o Borussia Dortmund já é o time que mais desarma na Bundesliga, com 27 de média por jogo. Nesta quarta-feira, tomou a bola do Bayern Munique em impressionantes 35 oportunidades, contra apenas 18 do adversário, que tem média de 19 por partida.. Lukasz Piszczek foi o campeão no fundamento com sete, seguido de Jakub Blaszczykowski, com sés. Juntos, eles anularam Frank Ribéry. Marcel Schmelzer tomou a bola de Arjen Robben apenas três vezes, mas o marcou com brilhantismo, se antecipando em sete bolas, E Kevin Grosskreutz desarmou cinco vezes.

Outros números importantes? Aí vão eles. A posse de bola do Bayern Munique foi superior – 58%  -, mas o número de finalizações não – no total, 13 a 7 para o Dortmund -. Em boa parte delas, Manuel Neuer trabalhou com brilhantismo para evitar o gol, e em outras a trave salvou, como numa cabeçada de Robert Lewandowski na trave ainda no primeiro tempo. A soma entre marcação pesada, contra-ataque afiado e sorte (isso, sorte, porque o Bayern poderia ter vencido ou empatado o jogo aproveitando as chances que criou) costuma dar mais resultado do que um jogo com posse de bola e pouca pegada. E foi isso o que vimos mais uma vez.

Individualmente, os destaques em lances capitais acabaram sendo Robert Lewandowski, autor do golaço de letra e muito eficiente na proteção de bolas no ataque para que os companheiros pudessem chegar, e Roman Weidenfeller, que pegou o pênalti de Robben. Mas a vitória não foi só deles. Foi de uma equipe inteira que é capaz de mudar sua concepção de jogo para enfrentar um adversário mais forte, incomodar esse adversário a ponto de vencê-lo quatro vezes nas quatro últimas partidas.

Ao Bayern, resta lamentar a falta de sorte em alguns momentos, mas a sorte não explica tudo. O time, por mais talentoso que seja, precisa também ser mais solidário, porque, entre os quatro semifinalistas, é o que mais espaços concede defensivamente. Robben e Ribéry precisam pelo menos compor um pouco mais o meio para que o time não fique tão exposto em alguns momentos. E na Bundesliga o jeito agora é vencer os jogos que restam e esperar por um milagre que provavelmente não virá. As duas equipes se enfrentam novamente em maio, na final da Copa da Alemanha, e aí sim é a chance da revanche. Até lá, a saída é se resignar e lutar pela Liga dos Campeões.