A quarta divisão do Campeonato Romeno costuma ser um cemitério de gigantes – ou quase isso. Vários clubes de peso estão ou passaram por lá durante as últimas temporadas. Os problemas financeiros são a principal motivação para a bancarrota, mas não apenas isso, considerando que muitos times “ressurgidos” por lá reivindicam a história de agremiações tradicionais que desapareceram ou que enfrentaram outros imbróglios. É um pouco do que aconteceu neste final de semana, com o clássico entre Rapid Bucareste e Steaua Bucareste – ao menos, entre as equipes que dizem herdar a grandeza dos velhos gigantes.

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O caso do Rapid Bucareste é um pouco menos intrincado. Pouco. O Rapid tradicional, três vezes campeão romeno, declarou sua bancarrota em 2016. A partir de então, dois times diferentes pleiteiam manter o nome. Um deles é a Academia Rapid Bucareste, fundada nesta temporada pelo prefeito de um dos seis setores administrativos da capital romena. Os grenás contam com apoio de antigos astros do velho Rapid e iniciaram sua jornada na quarta divisão. Foi onde encontraram o CSA Steaua Bucareste.

O entrave com o Steaua é um pouco mais complicado. O chamado CSA nada mais é que o “clube esportivo do exército”, que administrou as diferentes modalidades praticadas pelo Steaua desde sua instituição, em 1947, e estava no controle durante a histórica conquista da Copa dos Campeões em 1986. O marco para entender a atual cisão aconteceu em 1998, quando o departamento de futebol se separou do CSA, criando o “FC Steaua Bucareste”. Em 2003, o FC Steaua abriu suas ações no mercado, mas o processo rompeu o estatuto do clube e, 11 anos depois, a justiça romena determinou que o nome e o escudo fossem restaurados ao CSA. Embora o FC Steaua (agora chamado de oficialmente “Fotbal Club FCSB”) continue na elite do Campeonato Romeno, o departamento de futebol do clube esportivo do exército foi reativado nesta temporada e agora milita com os símbolos tradicionais na quarta divisão.

Academia Rapid e CSA Steaua têm mobilizado grandes massas de torcedores neste momento de reconstrução. O CSA Steaua reúne principalmente os opositores à administração do controverso empresário Gigi Becali no FCSB. Enquanto isso, embora o AFC Rapid (fundado por um grupo de torcedores) também dispute a quarta divisão, não há cisão ideológica com a Academia – na prática, são apenas duas instituições administrativas diferentes com o mesmo intuito de fazer renascer o velho Rapid. Tanto é que, quando os dois clubes se enfrentaram pela primeira vez, existiram até mesmo manifestações nas arquibancadas pela fusão.

Já neste sábado, prevaleceu a atmosfera insana no Estádio Giulesti, tradicional casa do Rapid. Mais de 10 mil torcedores lotaram as arquibancadas para o clássico (menor que Steaua x Dinamo, mas ainda assim importante no contexto futebolístico de Bucareste), com o direito de presenças ilustres de antigos ídolos. E o show ficou por conta das torcidas, incendiando o ambiente com sinalizadores. Enquanto os seguidores da Academia Rapid tremularam centenas de bandeiras brancas e grenás, os fiéis ao CSA Steaua estenderam um bandeirão criticando Gigi Becali. Quando a bola rolou, prevaleceu a igualdade, com o empate por 1 a 1. O Rapid lidera o grupo regional na quarta divisão, seguido de perto pelo Steaua, vice-líder com um ponto a menos e também um jogo a menos. Será uma luta intensa pelo acesso, com a tradição empunhada pelos torcedores.

Abaixo, vídeos das torcidas de Academia Rapid e CSA Steaua. Como complemento da leitura, vale ler um texto mais completo n’O Craiovano, produzido pelo amigo João Vítor Roberge – que também auxiliou este post com uma consultoria sobre o assunto.


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