Em pouco mais de um ano, dois títulos que marcam a história do Athletico Paranaense. O sucesso aconteceu muito rápido para Tiago Nunes. Sim, o gaúcho de Santa Maria já possui um currículo extenso para quem ainda não completou 40 anos, que inclui clubes de nove estados diferentes e trabalhos em categorias de base. No entanto, justamente por não ter completado ainda 40 anos, o sucesso parece ter acontecido muito rapidamente. De uma temporada em que deveria apenas treinar o sub-23 do Furacão, Tiago assumiu o time principal e não só cumpriu sua missão, ao evitar o rebaixamento no Brasileirão, como também conquistou o primeiro título internacional dos rubro-negros. Agora, uma Copa do Brasil que, além de consagrar o clube, marca definitivamente a carreira de seu comandante.

Este grupo do Athletico, afinal, é bastante homogêneo. Por mais que possua os seus incontornáveis destaques individuais, há uma consistência que se nota em diferentes setores. E como não atribuir isso ao grande protagonista do trabalho, o técnico? Tiago Nunes foi capaz de, em poucos meses, construir uma das equipes mais competitivas do Brasil. O Furacão mantém uma continuidade, mas também sabe se virar muito bem com trocas pontuais de suas peças. As saídas de Pablo ou Renan Lodi não provocaram problemas tão graves assim. Os jogadores estão muito mais em função do coletivo do que o coletivo é dependente de certos jogadores. E o resultado disso se percebe em campo.

A Copa do Brasil serviu muito bem para sublinhar as forças do Athletico Paranaense. Que a participação na Libertadores tenha encurtado o caminho dos rubro-negros no torneio nacional, o Furacão conseguiu devastar uma sequência de adversários duros. Superou Fortaleza, Flamengo, Grêmio e Internacional – um quarteto com resultados dos mais notáveis no país ao longo dos últimos meses. Não foi um futebol perfeito ou avassalador o dos atleticanos, ainda com certas dificuldades nas partidas fora de casa. Em compensação, se fez extremamente funcional. E o técnico possui seus méritos nisso.

Contra o Internacional, o roteiro teve contornos parecidos com o que se viu diante do Flamengo. O Athletico atuou de maneira destemida dentro de seus domínios e tentou buscar o resultado dentro da Arena da Baixada, ao partir para cima dos visitantes. Fora de casa, resguardou-se um pouco mais para maltratar o adversário nos contra-ataques. E se a estratégia ficou no fio da navalha contra os cariocas, dependendo dos pênaltis, ela frustrou os gaúchos dentro do Beira-Rio. Com empenho defensivo e uma velocidade alucinante para contragolpear, o Furacão desbravou os caminhos rumo à taça.

Roteiro invertido, mas não menos importante, já tinha se dado nas semifinais contra o Grêmio. A verdade é que o Athletico não jogou bem na Arena, em sua pior partida na campanha, e poderia ter retornado com um saldo pior para casa. No entanto, a desvantagem de dois gols e a gana por reverter a situação valeram a melhor atuação do Furacão nesta Copa do Brasil. A mais inesquecível. Amassar um oponente como o Tricolor, da forma como ocorreu na Baixada, é daquelas partidas que dão certeza sobre a grandiosidade do projeto. A classificação veio nos pênaltis, mas já tinha sido ganha antes disso, no moral dos rubro-negros.

Tiago Nunes tem parte em tudo isso. Impressiona a maneira como a linha de zaga, mesmo botando alguns garotos na fogueira, continua segura. Léo Pereira já tinha sido um “achado” e o mesmo pode se dizer de Robson Bambu, depois dessa campanha. No meio-campo, a fluidez de quem consegue aplicar uma objetividade rara em seus melhores momentos, conduzida por Bruno Guimarães. E, mais à frente, jogadores tão funcionais quanto perigosos, encabeçados por Marco Ruben. O Athletico possui um equilíbrio poucas vezes registrado dentro do futebol brasileiro, entre defesa agressiva e ataque direto. Além disso, sabe se portar de diferentes maneiras. Colhe os frutos.

Os curtos meses de Tiago Nunes em alto nível também são longos, se considerarmos a falta de paciência que geralmente impera com os treinadores no Brasil. E a Terra nem precisou dar uma volta completa ao redor do Sol para o gaúcho demonstrar que sua primeira grande conquista não foi obra do acaso. Ele sabe conduzir o grupo. Ele sabe lapidar bons jogadores. Ele sabe encaixar as peças que tem à disposição. Ele sabe ler as partidas. Tiago reúne uma série de virtudes fundamentais para ser considerado o técnico mais promissor do país, e já é realidade. O futebol vitorioso e também com suas atratividades é o seu carimbo.

Durante os últimos meses, Tiago Nunes perdeu a mão em algumas entrevistas, com declarações que a muitos soaram como arrogantes. Talvez seja o único porém num desabrochar de carreira que, por seus resultados, não possui contestações. E, afinal, os títulos enchem o peito de Tiago, num sentimento que lembra (com menos ironia nas palavras) aquele José Mourinho do começo da carreira. Se o treinador fala e também faz, fica mais difícil de rebater.

Mais importante que o comportamento diante da imprensa, entretanto, é o que Tiago Nunes constrói no Athletico Parananense. Quanto a isso, não há muitas dúvidas sobre sua excelência. O rapaz formado em Educação Física não precisa de um tom professoral para ascender. Além do conhecimento tático, Tiago prima pelo trato humano que tem na Baixada e pela maneira como consegue gerir esse elenco de jovens com alguns medalhões. Possui certa sensibilidade ao tomar as rédeas do grupo, além de um olhar aprimorado nas estratégias. Une duas grandes qualidades sem apelar a um passado boleiro. Talvez o ambiente singular dos rubro-negros garanta uma liberdade maior ao seu jeito. Fato é que, até o momento, parece um casamento perfeito.

O futuro ainda promete muito a Tiago Nunes. Em tempos de desesperança ao redor dos treinadores brasileiros, o comandante atleticano indica os passos que podem ser diferentes. Será interessante seguir acompanhando o desenvolvimento de sua carreira. Nos últimos dias, o técnico até indicou que poderá dar uma pausa em sua trajetória, para tomar fôlego a outros desafios. Competência não parece faltar para continuar progredindo.