As revanches esquecidas que reuniram os veteranos do Maracanazo 15 anos depois

Maracanã, 16 de julho de 1950. Uma data que marcou a história do futebol, com a decisão da Copa de 1950. E que cruzou para sempre o destino de 22 jogadores. Uruguaios e brasileiros estiveram de lados opostos em campo. Para muitos, também ficaram marcados de maneiras antagônicas, vilões e heróis. Mas, entre si, sempre foram companheiros. Mantiveram amizades que atravessaram décadas.

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Os reencontros, na maioria das vezes, evitavam falar da partida em 1950. Zizinho e Obdulio Varela, dois símbolos daquelas seleções, eram dos mais próximos – por mais que tenham protagonizado embates ferrenhos em campo. A ligação era tão forte que eles diziam se comunicar até mesmo por pensamento, entre Montevidéu e o Rio de Janeiro. E a união resultou em dois momentos de solidariedade, mais de uma década após o Maracanazo. Entre 1964 e 1965, os veteranos do Brasil e do Uruguai se reuniram em campo novamente, para duas partidas beneficentes no Estádio Centenário e no Maracanã, em prol de hospitais infantis. Uma história contada por Mestre Ziza a Geneton Moraes Neto, em trecho do livro Dossiê 50:

Obdulio Varela procurou Ademir e disse: “Um amigo meu lá no Uruguai tem um hospital para crianças que vai fechar. Uma tristeza, porque é uma obra maravilhosa”. “O que é que a gente poderia fazer para melhorar a situação do hospital?”, o Ademir perguntou. “Jogar uma partida contra os uruguaios”. Era o que Obdulio queria. Ademir, então, me chamou. A gente viu que nem todo mundo do nosso grupo tinha condições de comprar passagem. Obdulio disse que mandava avião, conseguia hospedagem. Depois, perguntou: “Quanto vocês querem para ir ao Uruguai?”. Eu disse: “Para com isso, não estamos aqui para ganhar dinheiro!”.

O amistoso em Montevidéu aconteceu em 1964, sob enorme expectativa dos uruguaios. A imprensa dava ênfase à revanche, assim como os torcedores recebiam os brasileiros com carinho. Obdulio ofereceu de tudo aos visitantes: passagens, hotel, homenagens. Até um placar arranjado. No hotel, o Jefe Negro perguntou a Ademir se a Seleção não aceitaria combinar o empate em 2 a 2, ao notar a forma física dos adversários. “Como estamos em melhores condições e como o objetivo não é competir, mas reviver um grande acontecimento do futebol, eu proponho que a gente combine o resultado. Assim, todo mundo fica satisfeito, o público vê quatro gols e vocês voltam para o Brasil com um empate”.

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Na reunião com os companheiros, no entanto, Ademir teve a ideia rechaçada. Para Zizinho, que trabalhava como treinador e se mantinha como peladeiro nas horas vagas, tudo era uma estratégia de Obdulio para evitar a derrota. “Esses gringos são muito vivos. Se eles falam assim, é porque estão piores que nós e com medo de uma enfiada. Nada de arreglo: o jogo vai ser pra cabeça, pode dizer ao Obdulio que nós queremos jogar pra cabeça. Cada um por si e Deus por todos”, disse o craque brasileiro.

Ademir pediu desculpas a Obdulio que fez o mesmo, afirmando que sua proposta tinha boas intenções, só queria que o jogo transcorresse em paz. E o Jefe Negro tinha razão. Ao final do primeiro tempo, o Uruguai já tinha marcado três gols. Contra uma seleção brasileira sem pernas, a Celeste botou os visitantes na roda. Ademir foi à desforra com Zizinho: “Aí, palhaço, você não disse que era no mano-a-mano? Agora corre atrás deles!”. Ao apito final, os uruguaios venceram por 4 a 1 e levaram ao delírio à torcida da casa. Segundo Obdulio contou ao Mestre Ziza, ele não via o Centenario tão cheio fazia tempos.

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O sucesso do amistoso provocou o reencontro dos veteranos em julho de 1965, no mesmo Maracanã onde o Brasil sucumbiu e o Uruguai se consagrou. Outra vez, a renda teve uma causa nobre: acabou revertida ao hospital Pró-Matre, do Rio de Janeiro. E a véspera teve uma grande confraternização dos jogadores, com feijoada à vontade. Segundo a edição da época do Jornal do Brasil, o técnico Juan López estava preocupado com a quantidade de batida de maracujá que os uruguaios bebiam. Tomou a resposta de Obdulio: “Calma, homem, não estamos mais em 1950!”. Dos 22 presentes em 16 de julho de 1950, 12 voltaram a campo. Ghiggia, que voltou ao Rio, não entrou em campo. Barbosa saiu com a meta invicta.

Na terceira tentativa, enfim, a revanche da seleção brasileira se concretizou. Jair deu um lançamento de 40 metros para Ademir, que venceu Gambetta na corrida e fuzilou o goleiro Maidana. Vitória por 2 a 0, para festa da torcida que compareceu em bom número Maracanã. “O público, que não esperava mesmo assistir a uma partida de alto nível técnico, deu-se por satisfeito com os passes de Jair, a categoria de Gambetta, os dribles de Dejair, a classe de Dequinha, os gritos de Obdulio, a forma de Nilton Santos e os piques de Ademir”, escreveu o Jornal do Brasil. “O amistoso teve êxito quase absoluto. E o público, como aconteceu há 15 anos, compreendeu muito bem o quanto vale o espírito do capitão Obdulio Varela, que deixou o campo sob palmas”.

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O destino daqueles jogadores, no entanto, já tinha sido definido 15 anos antes. Restou a ligação entre companheiros que, em vida, compartilhavam vivências e também algumas mágoas. Os brasileiros sofriam com a condenação perpétua, enquanto os uruguaios se ressentiam da falta de reconhecimento dentro do próprio futebol nacional. Heróis que permaneceram juntos na eternidade.

Este texto já estava sendo produzido quando tivemos a notícia da morte de Alcides Ghiggia, o autor do gol decisivo e último sobrevivente entre os 22. Fica, também, como parte das homenagens que faremos.


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