Sabe-se que a temporada de futebol não acaba na Holanda com a 34ª e última rodada do Campeonato Holandês. Já nesta semana, estão acontecendo as duas repescagens. Uma em cima: pela vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa, a última à disposição do país nas competições continentais, entre o quinto e o oitavo colocados da Eredivisie – a rigor, entre o quarto e o sétimo colocados, mas o Feyenoord, ocupante da quarta posição, já tinha seu lugar, campeão da Copa da Holanda que é. A outra é mais dramática, na qual Roda JC (antepenúltimo colocado) e Sparta Rotterdam (penúltimo) jogam a salvação contra outros seis times, vindos da segunda divisão. Pois bem: as duas começaram de modo surpreendente. Para muitos, até mais do que a temporada toda.

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Buscando o lugar na Liga Europa, estão Utrecht, Vitesse, ADO Den Haag e Heerenveen. E as partidas que fizeram, na quarta recente, já esquentaram inesperadamente o clima que parecia morno. Vitesse e ADO Den Haag abriram a disputa, com o jogo de ida, em Haia. Mesmo terminando uma posição abaixo (7º lugar), o Den Haag parecia num crescimento mais promissor: com o atacante Bjorn Johnsen marcando muitos gols – foram dois do norueguês de ascendência americana nos 3 a 2 contra o Roda JC, na última rodada, ficando como vice-goleador da temporada –, Nasser El Khayati chamando a responsabilidade na criação das jogadas e uma zaga extremamente esforçada e fisicamente forte, o favoritismo leve pendia para os auriverdes, contra um Vitesse meio irregular, tentando se refazer em meio à reta final, até com troca de técnico (já com demissão anunciada, Henk Fräser deixou o time, e o auxiliar Edward Sturing assumiu).

Só que, mesmo numa montanha-russa de desempenho em campo, o Vitesse possui bons jogadores, também. O defeito no gol, com as falhas do veterano Remko Pasveer, foi atenuado: o reserva Jeroen Houwen substituiu Pasveer nas oito rodadas finais e não decepcionou. No ataque, os gols são tarefa cumprida tanto por Tim Matavz quanto por Bryan Linssen. Finalmente, do meio-campo do time de Arnhem saiu o homem que definiu o jogo de ida. Emprestado pelo Chelsea, como se espera: Mason Mount. O armador inglês de 19 anos fez três gols, Matavz e Linssen ajudaram com um tento cada, o Vitesse abriu 4 a 0 já no primeiro tempo… e o 5 a 2 deixa o time aurinegro em excelentes condições para a volta, neste sábado, em seu GelreDome.

Se o primeiro jogo para definir o finalista do play-off “de cima” surpreendeu pela facilidade, o segundo surpreendeu duplamente. Afinal, o Utrecht não é considerado só franco favorito contra o Heerenveen, mas também à própria vaga na Liga Europa (quando nada, porque decidiu a repescagem nas duas últimas temporadas – e ganhou a vaga, na passada). Pois bem: no primeiro tempo da ida, mais eficiente e sortudo, o Heerenveen fez 2 a 0, com um gol de falta contando com desvio (Yuki Kobayashi) e outro com erro dos Utregs na saída de bola (Reza “Gucci” Ghoochannejhad). Mais do que isso: fez 3 a 0 no início do segundo tempo (Daniel Hoegh).

Utrecht batido? Nada disso: o time visitante diminuiu para 3 a 1 logo após sofrer o terceiro gol, com Zakaria Labyad. Veio um revés até pior: a expulsão de Yassin Ayoub, exatamente um minuto depois do gol da esperança, de modo tolo (Ayoub fez falta, levou o primeiro amarelo, aplaudiu ironicamente o juiz Ed Janssen, e levou o segundo amarelo). Mas os Utregs cresceram… e empataram, com dez jogadores: Labyad fez de falta, e um arremate de Urby Emanuelson com desvio na zaga rendeu o 3 a 3. Aí, tentando manter um resultado que seria até admirável, o quinto colocado da temporada se fechou na defesa. Mas não adiantou: o Heerenveen fez 4 a 3 no final do jogo, com Denzel Dumfries. Seja como for, a partida de volta, neste sábado, em Utrecht, para definir o outro “finalista” pelo lugar na Liga Europa é altamente promissora.

Se um mata-mata mais “normal” como o da parte superior da tabela já rendeu duas partidas empolgantes, o da definição de promovidos/mantidos/rebaixados tem fornecido momentos dignos das melhores finais de campeonato – como é comum na repescagem para tal fim, diga-se de passagem. Tome-se por exemplo a primeira fase, na qual Cambuur e Dordrecht fizeram uma das partidas. Na ida, fora de casa, o Cambuur pareceu encaminhar sua classificação à segunda fase, goleando os mandantes por 4 a 1.

Como se não bastasse, no primeiro tempo da partida de volta, sábado passado, a equipe de Leeuwarden abriu o placar. O que aconteceu? Isso mesmo: o Dordrecht protagonizou uma emocionante reação. No segundo tempo, em 25 minutos, os “Cabeças de Cabra” viraram exatamente para 4 a 1, causando a necessidade de prorrogação, de disputa por pênaltis… e nela fizeram o impressionante: 5 a 3 nas cobranças, e classificação merecidamente comemorada.

As dificuldades do Dordrecht seguem na segunda fase: afinal, o time pega o Sparta Rotterdam, vindo da Eredivisie. E mesmo em casa, a equipe era superada até com facilidade pelo adversário de Roterdã, que fazia 1 a 0 e controlava o jogo… até o “golaço contra” de Stijn Spierings, dando o 1 a 1 de graça aos mandantes em Dordrecht. Pelo menos, o Sparta consertou as coisas, com o 2 a 1 que lhe devolveu vantagem para a volta, no que pode ser o jogo final da carreira do técnico Dick Advocaat, em caso de rebaixamento dos “Spartanen” (pelo menos, é o que o próprio promete).

Também mereceu destaque a alta movimentação das coisas em Telstar x De Graafschap. Há 40 anos sem jogar a Eredivisie, o Telstar fez 2 a 0 no primeiro tempo – e ainda ficou com um homem a mais. Novamente, outro jogo que parecia definido tomou o caminho inverso: em dois minutos da etapa final, entre os 27 e os 29 minutos, os visitantes da cidade de Doetinchem empataram. O Telstar ainda fez 3 a 2, mas já se anseia pelo que poderá vir do estádio De Vijverberg, no próximo domingo.

Assim como certamente será cercado de tensão o Roda JC x Almere City da volta, com o empate sem gols que se viu na cidade de Almere. E até mesmo o FC Emmen, que nunca jogou na elite, e viu o sonho de disputar uma das vagas aumentar com a goleada sobre o experiente NEC (4 a 0 num time que jogou a Eredivisie em 2016/17!), deve manter cautela. É o que também recomendou Edward Sturing para a repescagem pela Liga Europa, ao Vitesse que comanda: “O Cambuur também pensava que estava tudo definido”. Razões para essas precauções, não têm faltado.

E é por isso, até, que a “Nacompetitie” (nome que os holandeses dão às repescagens) tem empolgado. A ponto de haver quem brinque, mídias sociais afora, que ela está sendo melhor do que a própria Eredivisie. Ou quem sugira a adoção do mata-mata…


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