O Barcelona anunciou a contratação de Ernesto Valverde nesta segunda-feira. O anúncio foi feito pelo presidente do clube, Josep Maria Bartomeu, em entrevista coletiva. Confirmou os rumores que o treinador, que deixou o Athletic Bilbao na semana passada, iria acertar com o clube. A sua contratação marca uma mudança de estilo no treinador do Barcelona. Desde pelo menos Frank Rijkaard, contratado em 2003, o treinador do Barcelona era marcado por um estilo ofensivo, além de muita posse de bola. Valverde tem como qualidade ter times equilibrados. Este será o seu grande desafio no Camp Nou. Mas a sua contratação tem vários aspectos. Alguns são técnicos, mas outros são políticos.

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“O novo treinador do Barcelona será Ernesto Valverde. Por muitas razões. Virá acompanhado de Jon Aspiazu (auxiliar técnico) e José Antonio Pozanco (preparador físico)”, afirmou o presidente do Barcelona. “Não era o único nome, desde o momento que Luis Enrique os comunicou que não seguiria, Robert [Fernández, diretor esportivo do Barcelona] começou uma busca e estudou muitos perfis. O nome que ele propôs, sim, foi um único nome. Falamos com a comissão técnica e estávamos todos de acordo”.

“Ernesto está muito feliz. Muito animado. Ele sabe que o Barcelona o havia chamado e é uma oportunidade profissional. Está muito contente. Chegará quarta-feira à tarde. Assinará um contrato de dois anos, com opção de mais um”, explicou o dirigente. O dirigente também deu suas palavras sobre as razões para a escolha de Valverde.

“Robert buscava um treinador que tivesse o perfil Barcelona, com um conceito de jogo que temos, mas também que goste do futebol das categorias de base e esteja disposto a trabalhar com elas. É um grande trabalhador. Tem critério, experiência e uma filosofia muito parecida com a do Barça. Trabalha muito. Nos interessou especialmente o tema da tecnologia, o clube utiliza muito e Ernesto também”, explicou Bartomeu.

Há algumas razões para a escolha de Valverde. Uma delas é a escolha de alguém com passagem pelo clube. Só que o período que Valverde atuou pelo Barcelona foi curto, de 1988 a 1990, sem conseguir se firmar como um jogador importante. O que mais importa da sua passagem por lá é quem foi o seu técnico: Johan Cruyff. O Barcelona considera Cruyff como o mentor intelectual do que é a filosofia do clube e, por isso, alguém que foi treinado por ele pode trazer um pouco das suas ideias – ainda que a sua trajetória como técnico traga outras características. Cruyff certa vez o considerou “um dos mais promissores técnicos da Espanha”, há mais de 10 anos. Estes, porém, são motivos mais superficiais para a sua contratação.

Entre as principais características de Valverde, a que mais tem a ver com o Barcelona é sua proximidade com categorias de base. No Athletic Bilbao esse é um aspecto fundamental. Afinal, o clube basco só contrata jogadores bascos ou de origem basca e isso restringe muito a montagem da equipe. Usar as categorias de base é uma questão de sobrevivência para o clube do País Basco. Este é, provavelmente, o principal aspecto que pesou na sua contratação. E mais do que filosofia, esta é também uma questão política.

O presidente do Barcelona, Bartomeu, se vê pressionado na política do Barcelona por sua proximidade com Sandro Rosell –recentemente preso por escândalos anteriores à sua presidência no clube catalão. Bartomeu era o vice-presidente da gestão de Rosell, que renunciou em janeiro de 2014 após o escândalo da compra de Neymar emergir. Bartomeu, então, se elegeu para sucedê-lo. A sombra do agora ex-dirigente, porém, ainda é usada pela oposição, ainda mais com a prisão do ex-presidente.

Mais do que isso, há uma crítica comum à gestão de Bartomeu: a perda de uma característica do clube, que era a de lançar jogadores formados em casa. Desde 2014, são poucos os jogadores das categorias de base que conseguiram se tornar destaques do time. Aliás, ao contrário: o que se viu foram promessas não conseguindo dar certo. Martín Montoya, por exemplo, era visto como substituto de Daniel Alves. Nunca se firmou em clube nenhum e atualmente é reserva do Valencia. E este é apenas um exemplo. Aquela história de 11 jogadores formados no clube escalados em algumas partidas, algo que acontecia no tempo de Pep Guardiola no comando do clube, ficou para trás.

Com Valverde tendo o uso de categorias de base entre suas melhores qualidades, a sua escolha também responde a esse grupo opositor que o pressiona. Mostra que isso é mais importante do que entrar no mundo dos super técnicos e buscar uma estrela para o banco de reservas, como o time poderia partir, se quisesse, pelo poderio financeiro que tem. Isso somado ao fato de Valverde ser um técnico experiente, de 53 anos, ajuda que a escolha seja segura. Não é uma aposta, como seria com, por exemplo, Jorge Sampaoli, que é recente na Europa e não tem histórico no clube.

O principal desafio de Valverde no Barcelona
Ernesto Valverde ficou quatro anos no Athletic Bilbao, de 2013 a 2017 (Photo by David Ramos/Getty Images)
Ernesto Valverde ficou quatro anos no Athletic Bilbao, de 2013 a 2017 (Photo by David Ramos/Getty Images)

No Espanyol, onde Valverde ficou de 2006 a 2008, Ernesto Valverde finalista da Copa da Uefa com um time que é considerado de bom futebol. Só perdeu o título nos pênaltis para o Sevilla. É o seu trabalho mais lembrado no aspecto ofensivo. A passagem pelo Olympiqcos foi marcante pelos seus cinco títulos, três deles da liga grega, em um time dominante no seu cenário nacional. Passou pelo Villarreal e pelo Valencia, com bons trabalhos, mas nada marcante.

É mesmo o Athletic seu grande trabalho. Depois das duas temporadas iniciais que o lançaram como treinador, de 2003 a 2005, ele voltou em 2013 com uma missão difícil: reorganizar o time depois da saída de Marcelo Bielsa. O técnico argentino é conhecido por sua genialidade e também um pouco da sua loucura, que é, talvez, o motivo da genialidade. Reorganizar o time a partir dali era uma missão dura. Bielsa levou os bascos à final da Liga Europa em 2012. Esta é uma das especialidades de Valverde: organizar. Esta é uma das marcas do Athletic comandado por ele nos últimos anos. Esta é uma das razões que fizeram o clube basco ter confrontos mais equilibrados com times mais fortes.

Por isso, sua contratação no Barcelona tem sentido. Luis Enrique sofreu com o time nesta temporada, justamente pela falta de equilíbrio. Um time com ataque genial e com um sistema coletivo que pouco funcionava. Não era só uma questão de ter um ataque bom e uma defesa ruim. O problema foi mais profundo, de organização do time. Por vezes a equipe dependeu de talento individual. Por isso, também, sofreu contra times com melhor funcionamento coletivo, sendo a Juventus, na Champions League, o maior exemplo. Isso sem falar no baixo número de jogadores da base usados por Luis Enrique.

Valverde conseguiu manter o Athletic Bilbao entre os sete primeiros colocados do Campeonato Espanhol nas últimas quatro temporadas. Na primeira delas, levou o time basco ao quarto lugar. Sempre classificou o time à competições europeias. Foi também quem conseguiu chegar à final da Copa do Rei em 2015, perdendo do próprio Barcelona de Luis Enrique. No começo da temporada seguinte, 2015/16, venceu o Barcelona na disputa da Supercopa da Espanha, conquistando o primeiro título do Athletic em 31 anos.

Com Valverde no banco, a diretoria do clube então espera que estes dois problemas sejam amenizados: a organização da equipe, coletivamente, e o uso das categorias de base. Dois pontos que o ex-treinador do Athletic Bilbao tem experiência de sobra para conseguir fazer.

As primeiras tarefas

A primeira missão de Valverde será montar um elenco mais equilibrado no Barcelona. Na última temporada, o clube gastou mais de € 120 milhões para contratar jogadores para melhorar o elenco e o banco de reservas. A maioria deles teve pouco resultado e o time continuou tendo um plantel desequilibrado quando tinha desfalques. O elenco não precisa de uma reformulação completa, até por ser jovem em sua média. Mas precisa de algumas mudanças para tornar-se mais equilibrado e o time poder usar mais e melhor o banco.

André Gomes chegou do Valencia por € 35 milhões, mas não se firmou no meio e não é visto como uma solução quando Andrés Iniesta não pode jogar, o que acontece com mais frequência pelo jogador ser um veterano. Paco Alcácer foi outro contratado junto ao Valencia por uma quantia alta, € 30 milhões, e não correspondeu quando acionado no lugar de um dos três atacantes. Não que se esperasse que ele fosse um Luis Suárez, mas seu rendimento foi muito abaixo do esperado.

Lucas Digne, que chegou por € 16,5 milhões, foi um lateral que pouco atuou. Aliás, o baixo rendimento na posição fez o técnico Luis Enrique terminar a temporada com dois laterais esquerdos no banco, ele e o antigo titular, Jordi Alba. É uma posição que o técnico tem opções, só precisará saber equilibrar o time para voltar a usá-las. Muito embora Digne, por exemplo, seja especulado em outros clubes, como a Internazionale. A falta de equilíbrio fez o time jogar com três zagueiros e, algumas vezes, sem laterais. Das contratações, a que deu mais certo foi Samuel Umtiti, de 22 anos, e que custou € 25 milhões. Virou titular ao lado de Gerard Piqué e, por ser jovem, é visto como um titular para jogar por muitos anos.

Denis Suárez foi outro a ser apenas um reserva que não conseguiu se destacar nas chances que teve, embora a pressão neste caso seja menor, já que custou pouco – apenas € 3,25 milhões. Jasper Cillessen chegou para cumprir sua função no banco e não comprometeu quando foi a campo. Denis Suárez ainda tem futuro incerto, mas se ficar, pode ser um coadjuvante útil em um time organizado – algo que era muito mais complicado no time de Luis Enrique desta última temporada.

Um dos desafios de Valverde será qualificar o elenco, mas principalmente equilibrá-lo. A busca de um lateral direito é prioridade, já que o time sequer tem um titular na posição. Um zagueiro para o centro da defesa, ao menos para disputar posição, também deve ser outra das buscas do clube. Ainda não se sabe o futuro de Javier Mascherano, 32 anos, e é quase erto de Jérémy Mathieu, 33 anos, deixe o clube.

Antes de começar a equilibrar o Barcelona em campo, taticamente, Valverde precisará fazer isso com o elenco. Suas movimentações no mercado de trabalho devem dar uma demonstração de como ele pretende montar o Barcelona na próxima temporada. Se espera que o time tenha opções melhores no banco, mas especialmente que tenha opções para todas as posições.

Ter que improvisar em momentos decisivos foi um ponto vulnerável do Barça neste último ano. Um exemplo claro é Sergi Roberto, um meio-campista que acabou fixado na lateral direita, antes de pedir para não jogar mais ali depois de falhas. Aleix Vidal, que vinha melhorando, se machucou durante o ano e pouco pode ajudar. Ainda não é visto como um lateral direito de fato capaz de ser o titular indiscutível do time. Este é um ponto crucial, portanto: encontrar um jogador ali. Seja contratando, seja na base.

O time de Luis Enrique tinha muitos problemas no funcionamento coletivo. O de Valverde deve ter muito menos problemas nesse sentido, considerando o seu histórico. Os seus times não tiveram características tão ofensivas, exceto pelo Espanyol, mas é de se imaginar que um treinador com a sua experiência e com o conhecimento de clube que ele tenha – ainda que distante – não caia na armadilha de usar armas que funcionavam no Athletic Bilbao no elenco do Barcelona. É justamente o trabalho no Espanyol, com um time mais leve e ofensivo, que dá esperança aos torcedores blaugranas.