Foi uma final épica. Isso, caro leitor, já é algo amplamente divulgado e descrito. Caso ainda esteja por fora do que rolou na decisão mais emocionante da história do futebol mexicano. Uma final com todos os ingredientes: rivalidade, emoção, derrocada, ressurreição, glória, pênaltis, gol nos acréscimos, superação, garra, virada heroica e por aí vai. Se uma atuação magistral na primeira partida da decisão parecia indicar que o goleiro do Cruz Azul, Javir Orozco, seria o nome do título, o gol da virada nos acréscimos no duelo decisivo e a atuação nas penalidades deu ao veterano arqueiro do América, Moisés Muñoz, a consagração nacional.

Mas os desdobramentos da conquista têm mais de um personagem e razões. Ainda que a emoção tivesse papel preponderante, outros motivos podem ser apontados para o triunfo das águias. O futebol é um esporte no qual muitas vezes o termo “justiça” passa longe. Mas é difícil não concordar que o América teve um futebol mais exuberante, regular e merecedor da taça no torneio Clausura. Não em momentos específicos, mas ao longo de toda a competição.

Como a coluna já havia adiantado algumas semanas atrás, após inúmeras frustrações nas últimas temporadas, os Azulcremas corrigiram seu modelo gerencial de forma pontual. Não houve alterações no modelo econômico adotado: grandes (e caras) contratações continuaram a ser feitas, o melhor (e mais custoso) elenco continuou sendo visto no Azteca. Mas a direção dos canários apostou na continuidade. No planejamento. E colheu os frutos da opção.

A manutenção de Miguel Herrera no comando das águias mesmo sem alcançar a final nos últimos três torneios foi o primeiro passo. Com conhecimento das peças e domínio do vestiário, “El Piojo” chamou para si a responsabilidade, livrando os jogadores da pressão que constantemente minava o elenco do América nos momentos decisivos. Ainda que o dinheiro continuasse disponível, e tenha sido essencial para tirar dos rivais destaques como o paraguaio Osvaldo Martínez, contratar atletas experientes como o atacante Narciso Mina ou mesmo repatriar o zagueiro selecionável “Maza” Rodríguez, há tempos o entrosamento não era tão bem mantido como o foi para esse Clausura. Nada menos do que 10 dos 11 titulares que iniciaram a decisão no último domingo chagaram em Coapa há mais de um ano. Ou seja, tiveram tempo e continuidade para trabalhar sob o comando de Herrera.

Somando-se a isso outros fatores como a descoberta de boas opções para aliviar a responsabilidade pelos gols que em anos anteriores ficava somente a cargo de “Chucho” Benítez e o equilíbrio na transição entre defesa e ataque, antes um sonho distante no Azteca e hoje uma missão muito bem cumprida pelos incansáveis Medina, Molina, Sambueza, Layún e Martínez, a receita para o sucesso estava pronta.

Diferente do rival na decisão, o América não aplicou goleadas acachapantes, mas superou os times mais fortes do futebol azteca de forma contundente. Na primeira fase, venceu todos os clássicos (Chivas, Pumas e Cruz Azul, este último com um sonoro 3 a 0), além de superar o então campeão nacional (Tijuana) e o tricampeão continental (Monterrey). Sem preocupar-se com a liderança, os canários estiveram durante as 17 rodadas entre os três primeiros colocados, garantindo com tranquilidade a vaga na Liguilla. No mata-mata, foram duas vitórias sobre a rival UNAM e uma classificação relativamente tranquila, e soberana, sobre o forte Monterrey. A final foi, sem dúvidas, o maior desafio dos Cremas. Nada mais justo, visto que do outro lado estavam um de seus maiores rivais, na fila há 16 anos, derrotado em 8 das 9 últimos finais nacionais disputadas.

A importância do duelo decisivo também pôde ser constatada pelos números. Os 41 pontos de rating tornaram a partida a mais vista da história do campeonato mexicano, ficando atrás de somente dois jogos da seleção nacional Tricolor como evento esportivo mais assistido da história esportiva azteca. Recordes que também podem ser creditados, além da esperada final que reuniu dois dos clubes mais populares do país, à sensibilidade do departamento de marketing das águias, que capitaliza em torno do forte sentimento antiamericanista dos adversários, vestindo os atletas campeões com camisetas onde se liam os dizeres “Ódiame más” logo após o apito final.

É difícil eleger um nome que monopolize os holofotes da conquista do América. A afirmação do jovem Jiménez no ataque, a segurança e a liderança de Mosquera na defesa, a consagração e o brilhantismo de “Chucho” Benítez ou mesmo a primeira conquista de Herrera em sua terceira final de campeonato são boas histórias de personagens que finalmente chegam à consagração com a conquista Milloneta.

Diferente de outras conquistas com as quais um dos maiores vencedores aztecas está acostumado a lidar, contudo, essa pode ser creditada ao conjunto. Um conjunto que mostrou que força econômica aliada a planejamento e continuidade ainda é, a longo prazo, a melhor receita para trilhar o caminho dos títulos. E um gigante do futebol mexicano parece ter aprendido bem a lição.

Curtas

Costa Rica

– Com dois gols do veterano atacante (e artilheiro) Víctor Núñez, o Herediano reverteu o placar da primeira partida da decisão contra o Cartaginés e, após empate na prorrogação, conquistou nos pênaltis o Campeonato de Verano, seu 23º título da Primera División. De quebra ainda ampliaram o longo jejum de 73 anos sem conquistas nacionais dos Brumosos;

El Salvador

– De forma contundente, o Luis Ángel Firpo bateu o FAS por 3 a 0 e conquistou o título do Clausura da Liga Mayor, o 10º da história do clube. Vice-líder da primeira fase, os Toros ainda fizeram o goleador da competição, o veterano atacante panamenho Anel Canales, autor de 10 tentos;

Guatemala

– Um triunfo mínimo fora de casa sobre o Marquense garantiu ao Comunicaciones a liderança do Clausura da Liga Nacional, com 43 pontos em 21 partidas. Malacateco (37), Heredia (36), e Marquense (32) também já garantiram o passe para a fase final, enquanto Suchitepéquez (30), Halcones (30) e Xelajú (30) estão praticamente classificados e Mictlán (29) e Universidad SC (27) brigam pela última vaga, restando apenas uma rodada;

Honduras

– Com o encerramento da temporada na Liga Nacional, as especulações monopolizam o noticiário hondurenho. De certeza, a mais importante delas foi a renovação de contrato por mais dois anos do experiente arqueiro Noel Valladares, tetracampeão nacional com o Olímpia;

Panamá

– Com as atenções voltadas para a Liga Nacional de Ascenso, o Club Atlético Independiente venceu o Millenium Universidad de Panamá (campeão do Apertura) nos pênaltis e conquistou o título do Clausura. Na briga pelo acesso, ambos voltam a se enfrentar nessa sexta-feira, em busca da única vaga na elite.