O Campeonato Brasileiro possui uma média de público muito aquém de seu potencial. Em tempos de privilégios aos “clientes”, não aos torcedores, aplaudir a renda se tornou mais importante que ver a casa lotada. No entanto, há clubes que percebem como é possível equilibrar os ganhos ao oferecer preços mais acessíveis aos seus torcedores de baixa renda. Nesta semana, às vésperas da abertura da Série A, Cruzeiro e Bahia dão o exemplo. Enquanto os mineiros criarão um setor a R$10 no Mineirão, os baianos oferecem um novo plano de sócios a valores reduzidos na Fonte Nova.

O anúncio do Cruzeiro foi realizado nesta quinta-feira. O clube garantiu a criação de um setor popular no Mineirão para todos os jogos do Brasileirão. Ao todo, são 6.850 lugares na Laranja Inferior – um setor que muitas vezes permanecia fechado, pela baixa procura de ingressos no local. As entradas custarão R$10. Os celestes optaram por comercializar 4 mil entradas nas bilheterias físicas, enquanto outros 2.850 serão postos a venda aos sócios, de acordo com as prioridades, e na venda online.

O Cruzeiro chegou a enviar uma carta à CBF, pedindo autorização para praticar o preço – conforme escrito, “considerando o cenário econômico do país em crise”. Segundo o regulamento específico do Brasileirão, o preço mínimo da inteira é R$40. E a confederação concedeu a permissão, algo que poderia ser feito a outros clubes. A iniciativa também beneficia diretamente os cadeirantes. A legislação prevê que eles devem pagar metade do ingresso mais barato disponível. Assim, poderão apoiar a Raposa no Mineirão por módicos R$5.

“O torcedor é o nosso maior patrimônio. Sem ele, o Cruzeiro não seria gigante como é. Queremos ver o cruzeirense sempre junto do clube, cantando em todos os jogos e fazendo a festa bonita no estádio que só o cruzeirense sabe fazer. Criamos um setor com preços baixos, atendendo a um próprio pedido da torcida, e contamos com a presença da apaixonada Nação Azul em todas as nossas partidas”, declarou o presidente Wagner Pires de Sá.

O Bahia, por sua vez, lançou no início da semana um novo plano de sócios para a sua torcida. O chamado “Bahia da Massa” garante preços populares aos que se comprometerem. Os torcedores pagarão R$60 por mês e poderão assistir a todos os jogos em casa do Tricolor, com direito a uma cadeira no setor Leste Superior. Serão disponibilizados 3 mil lugares. A iniciativa acontece depois que o plano Cadeira, a R$90 mensais, atingiu a capacidade máxima do setor oferecido.

O novo plano do Bahia oferece outros direitos comuns aos sócios do clube – como participar das eleições presidenciais, ganhar cupons de desconto e entrar em promoções. Além disso, os  demais associados podem migrar ao “Bahia da Massa”. O clube ainda abriu um novo lote do “Bermuda e Camiseta”, que custa R$45 e também garante assento no terceiro anel da Fonte Nova a todos os jogos. Os torcedores ligados a este plano, porém, precisam comprovar uma renda inferior a R$1,5 mil mensais – limitação que não acontece no “Bahia da Massa”.

De diferentes maneiras, os tricolores buscam trazer a sua turma às tribunas. A conta é óbvia: dá para fazer mais renda com mais gente, equilibrando os preços. Uma lógica que alguns clubes relutam a perceber. E, mais importante ainda, também é possível levar os torcedores de baixa renda aos estádios, algo cada vez mais raro nesta era de Padrões Fifa.

Por fim, vale ressaltar que, enquanto o novo plano do Bahia ganha menção especial por ser uma novidade às vésperas do Brasileirão, outros clubes de diferentes divisões também possuem propostas louváveis em relação aos seus sócios. O Botafogo, por exemplo, possui um plano de R$14,90 mensais, mais R$240 fixos no ano ao setor norte. No Nordeste, enquanto o Ceará tem um plano de R$30 mensais a torcedores com renda abaixo de R$900, o Fortaleza oferece pacotes a R$54,90. E, da mesma maneira, seria possível citar ainda outros. Maneira exemplar de abrir os portões e exaltar a veia popular do futebol.