Arsenal e Chelsea encararão a final da Liga Europa como uma grande oportunidade. Aos Blues, é a chance de dar um pouco mais de moral ao elenco e retomar a imponência continental desta década, que contou com um título de Champions e outro de Liga Europa. Enquanto isso, os Gunners buscam um caminho à Champions League, ao mesmo tempo em que podem reconquistar um título continental pela primeira vez em 25 anos. O duelo, além do mais, é a chance de relembrar outras glórias europeias de ambos os times. E a década de 1990 foi especial, por garantir a conquista da Recopa para ambos. Títulos emblemáticos, com um personagem em comum que estará em Baku: o mágico Gianfranco Zola.

O Chelsea campeão da Recopa de 1998

Roman Abramovich ainda não havia injetado sua fortuna em Londres, mas o Chelsea possuía um elenco bastante globalizado desde a década de 1990. Ken Bates salvou o clube da bancarrota nos anos 1980 e aproveitou as possibilidades garantidas pela Lei Bosman para impulsionar os Blues. Não à toa, de um time que vivia na gangorra entre a primeira e a segunda divisão nas décadas anteriores, os londrinos passaram a pleitear as primeiras colocações na Premier League e brigaram pelos títulos nas copas nacionais. A conquista da FA Cup de 1996/97 marcava o fim de um jejum de 26 anos sem taças de primeira grandeza e também garantia a classificação à Recopa Europeia.

Naquele momento, o Chelsea aproveitou bastante a maré do futebol italiano para buscar seus reforços. Parte considerável de seus estrangeiros haviam passado pela Serie A em seus anos dourados. O grande responsável por essa abertura era Ruud Gullit, que chegou ao clube em 1995 e logo acumulou também o cargo de técnico. O craque serviu de atrativo a antigos adversários no Calcio. De lá vieram três ícones dos Blues durante a década de 1990: o dinâmico Roberto Di Matteo, o fantasista Gianfranco Zola e o letal Gianluca Vialli. Curiosamente, quando Gullit foi demitido durante aquela temporada de 1997/98 (por uma atitude intempestiva de Bates) e pendurou as chuteiras, seu substituto no comando foi Vialli. O veterano terminou de conduzir os londrinos à façanha continental.

Entre as outras nacionalidades, o Chelsea era forte por completo. No gol aparecia Ed de Goey, arqueiro da seleção holandesa na Copa de 1994 e que vinha do Feyenoord. A defesa tinha laterais de qualidade, com a presença de Graeme Le Saux e Steve Clark. Além disso, a sólida linha de zaga contava com a parceria entre o francês Frank Leboeuf e o jamaicano Frank Sinclair, com a alternativa constante do prata da casa Michael Duberry. No meio, muita experiência e combatividade com o quarteto composto por Dan Petrescu, Gus Poyet, Di Matteo e o capitão Dennis Wise, outro símbolo dos tempos pré-Abramovich. Já no ataque, Vialli não deixava de se escalar, sempre em boa companhia. Tinha também à disposição Tore Andre Flo, Gianfranco Zola e o veterano Mark Hughes.

O Chelsea fez uma campanha soberana naquela Recopa. Começou despachando o Slovan Bratislava com duas vitórias por 2 a 0. Depois, encarou o Tromso e não se deu bem na Noruega, com o triunfo dos anfitriões por 3 a 2, em um gramado tomado pela neve. Contudo, a revanche no Stamford Bridge seria impiedosa: goleada por 7 a 1, com direito a uma tripleta de Vialli. O Betis ofereceria um desafio maior nas quartas de final, semanas depois da demissão de Gullit. As dificuldades, porém, não passaram da teoria. A classificação começou a se delinear desde a Espanha, com os 2 a 1 estrelados por Flo. Em Londres, mais uma vitória dos ingleses, desta vez por 3 a 1.

Por fim, um surpreendente Vicenza seria o adversário nas semifinais. Os italianos pressionaram o Chelsea com o triunfo por 1 a 0 no Estádio Romeo Menti. Já na volta, Stamford Bridge viveria uma de suas grandes noites europeias. Sob chuva, a partida dramática em Londres começou com um gol de Pasquale Luiso. Naquele momento, os anfitriões precisavam de três tentos. E conseguiram o milagre. Poyet emendou de voleio um rebote do goleiro, empatando no primeiro tempo. Já na segunda etapa, enquanto Zola virou, Mark Hughes acertou um lindo chute cruzado para selar a histórica classificação. Seria a primeira final continental do clube desde a Recopa de 1971, que conquistaram em cima do Real Madrid.

A decisão da Recopa de 1998 estava marcada para o mítico Estádio Rasunda, em Solna. E o Chelsea peitaria o Stuttgart, treinado pelo recém-aposentado Joachim Löw. Os suábios contavam com uma equipe forte, recheada por jogadores que disputariam a Copa de 1998. Thomas Berthold, Zvonimir Soldo, Krasimir Balakov e Fredi Bobic se apontavam como destaques. De qualquer forma, a motivação dos Blues era alta. Naquela mesma temporada, haviam conquistado a Copa da Liga Inglesa e encerrado a Premier League na quarta colocação, seu melhor posto desde 1970.

O Chelsea teve os seus problemas para a final. Sinclair e Le Saux estavam lesionados, substituídos por Michael Duberry e Danny Granville na defesa. Além disso, Zola também vinha de uma contusão recente e precisou começar no banco, suplantado por Flo. Ao menos a boa notícia era de que Gus Poyet retornava, após encarar um problema ligamentar no joelho. Nada que atrapalhasse a superioridade dos Blues, algo que se viu em campo.

Criando mais chances de gol, o Chelsea foi superior desde o primeiro tempo. Faltava apenas acertar as redes, o que aconteceu graças a uma substituição providencial de Vialli. Zola entrou em campo aos 26 minutos, no lugar de Flo. Pois o craque precisou de poucos segundos para balançar as redes, aproveitando o lançamento cirúrgico de Wise e pegando na veia. Seria já a chave para a vitória por 1 a 0. O fim do duelo ainda ficou marcado pelas expulsões. Em lances distintos, Dan Petrescu e Gerhard Poschner receberam o vermelho direto. Nada que atrapalhasse os Blues, reafirmando sua grandeza e iniciando um período de glórias que ganharia outra dimensão com Abramovich.

Na temporada seguinte, o Chelsea ainda conquistaria a Supercopa Europeia, ampliando a freguesia do Real Madrid. Bateu os merengues por 1 a 0, gol de Poyet. Além do mais, faturaria mais uma Copa da Inglaterra e se classificaria à Champions League, com a terceira colocação na Premier League, antes da virada do século. Hoje assistente de Maurizio Sarri, Zola representa justamente a aura que os Blues esperam se reproduzir em Baku.

O Arsenal campeão da Recopa de 1994

Quatro anos antes do Chelsea, era o Arsenal quem erguia a própria Recopa Europeia. Os Gunners conquistavam o segundo título continental de sua história, após a Copa das Cidades com Feiras de 1969/70 – uma taça esquecida, mas importante por antecipar a dobradinha nacional na temporada seguinte. Os londrinos tinham alcançado uma final da Recopa antes, em 1979/80, quando sucumbiram ao Valencia de Mario Kempes nos pênaltis. Em maio de 1994, porém, o time de George Graham não deixaria a oportunidade passar.

Observar aquele Arsenal é notar as diferenças provocadas pela Lei Bosman no futebol inglês, bem como a revolução que comandaria Arsène Wenger. Antigo ídolo do clube e campeão da Copa das Cidades com Feiras em 1970, George Graham chegara ao comando oito anos antes e conduziu um período importante em Highbury, com sete títulos nacionais até então. A Recopa serviria para romper as fronteiras, em tempos nos quais os Gunners não tinham sido tomados por jogadores estrangeiros. Exceção feita a um atleta, todo o restante do elenco havia nascido nas “ilhas” – Grã-Bretanha ou Irlanda. A escalação na final continental foi composta por dez ingleses, mais o norte irlandês Steve Morrow. Vale dizer, entretanto, que o dinamarquês John Jensen foi desfalque naquela partida, lesionado.

De qualquer forma, não é a ausência de jogadores estrangeiros que nega a força daquele Arsenal. E isso se expressa desde a defesa, recheada por figurinhas carimbadas em Highbury. David Seaman era o goleiro. Nas laterais, Lee Dixon e Nigel Winterburn, enquanto Tony Adams capitaneava a equipe ao lado de Steve Bould no miolo de zaga. Na faixa central, estavam à disposição ídolos como Paul Merson, Paul Davis, John Jensen e Ray Parlour. Já no ataque, sobrava explosão, com Ian Wright , Alan Smith e Kevin Cambpbell figurando como as opções principais de George Graham. Era um grupo que se conhecia por anos e possuía um enorme entrosamento, firme na defesa e perigoso em suas jogadas aéreas.

O desastre de Heysel teve o seu impacto sobre o Arsenal naqueles anos. Por conta da punição aos clubes ingleses, a equipe perdeu a chance de disputar duas edições dos torneios continentais. O retorno aconteceu na Champions de 1991/92, mas os londrinos sucumbiram diante do Benfica na segunda fase. Assim, a Recopa abria novamente a porta. Apesar da campanha morna na Premier League anterior, a dobradinha na Copa da Inglaterra e na Copa da Liga Inglesa de 1992/93 serviria de bom presságio ao que aconteceria no torneio da Uefa.

O Arsenal apresentou uma grande regularidade naquela campanha, sem perder um jogo sequer e se valendo da solidez defensiva nos compromissos mais duros. Começou passando pelo Odense, com uma vitória na Dinamarca e um empate fora. Na etapa seguinte, o grande show aconteceu diante do Standard de Liège. Depois dos 3 a 0 em Highbury, os Gunners chegaram a enfiar impressionantes 7 a 0 na visita à Bélgica. Kevin Campbell orquestrou o massacre, anotando dois gols. Já nas quartas de final, o Torino prometia mais problemas, com um time estrelado por Andrea Silenzi e Enzo Francescoli. Após o empate sem gols em Turim, Paul Davis definiu o 1 a 0 da classificação em Londres.

Por fim, nas semifinais, o Arsenal duelou com o Paris Saint-Germain. Os parisienses poderiam ser considerados favoritos no confronto, impulsionados pelo dinheiro do Canal+ e nadando de braçada na Ligue 1. Tinham um elenco completo e muito forte, com o destaque para a trinca brasileira formada por Raí, Valdo e Ricardo Gomes, além de David Ginola e George Weah na linha de frente. Apesar dos temores, Ian Wright assinalou o empate na visita ao Parc des Princes, 1 a 1. A festa ficaria guardada para o Highbury. Uma cabeçada certeira de Kevin Campbell definiu novo triunfo por 1 a 0.

A decisão também não prometia tranquilidade ao Arsenal. Do outro lado aparecia o Parma, campeão da própria Recopa no ano anterior. Os gialloblù, vejam só, tinham como grande estrela Gianfranco Zola. Enquanto isso, sobrava qualidade nas demais posições, com Roberto Sensini, Tomas Brolin, Faustino Asprilla, Antonio Benarrivo, Luigi Apolloni e outros jogadores de seleção. O time de Nevio Scala apresentava um futebol bem mais ofensivo, em tempos pragmáticos dos Gunners. E os ingleses precisariam se agarrar a isso, especialmente diante da suspensão de Ian Wright, a grande referência do ataque.

Dentro do Estádio Parken, o Arsenal tomou calor durante os primeiros minutos. Tomas Brolin carimbou a trave duas vezes, mas os Gunners abriram o placar aos 20 minutos. O capitão Lorenzo Minotti errou um corte de bicicleta e entregou a Alan Smith. O substituto de Wright matou no peito e emendou bonito, batendo no cantinho. Depois disso, os ingleses se contentaram em fechar a retranca. Todavia, a falta de espaços não permitiu ao Parma se criar, com Zola enclausurado pela marcação londrina. Na melhor chance do camisa 10, Seaman fez uma defesaça. Ao final, bastou afastar os cruzamentos e comemorar a conquista, rompendo uma espera de 24 anos no cenário continental.

O Arsenal ainda disputaria mais dois títulos europeus na temporada seguinte. Os Gunners não resistiram ao timaço do Milan na Supercopa, em duelos mornos, marcados pelo luto diante do assassinato do torcedor genovês Vicenzo Spagnolo dias antes. Já na Recopa, os Gunners se aproximaram do bicampeonato. Chegaram a eliminar Auxerre e Sampdoria, antes de encarar o Zaragoza na decisão. Porém, o milagroso gol de Nayim, no último minuto da prorrogação, deixou o troféu com os espanhóis. Seria um ano conturbado, com a demissão de George Graham em fevereiro, após a revelação de que o treinador recebeu dinheiro de empresários durante a contratação de John Jensen. De certa maneira, o vice serviu de último capítulo antes da transformação providenciada por Wenger.