Cinco títulos mundiais não bastam para redimir o Maracanazo, assim como nem mesmo um 7×1 atenua o que aconteceu em 16 de julho de 1950. O Uruguai 2×1 Brasil deverá ser lembrado para sempre no futebol – e não é pelo gigantismo do Maracanã com 200 mil torcedores, pela glória dos visitantes indigestos ou pela derrota traumática dos anfitriões. Aquele dia precisa ficar na memória, sobretudo, por respeito aos vencidos.

Nenhum outro time na história do futebol acabou mais marcado pela decepção do que a Seleção de 1950. Isso significava pesadelos, dores e uma condenação pública que parecia ser perpétua àqueles 11 jogadores – mesmo com outras tantas glórias em suas carreiras, mesmo quase todos sendo craques. Resgatar o passado daquela decisão é compreender o lado humano do futebol e perceber que os acusados injustamente como vilões por 90 minutos foram muito mais heróis por aquilo que enfrentaram durante o resto de suas vidas. Cabe a nós transmitir o reconhecimento que sempre lhes foi negado – não foram campeões do mundo, mas eram maiores em tantos outros sentidos.

Nenhum outro documento presta melhor este serviço do que o livro ‘Dossiê 50’, do igualmente saudoso e magistral jornalista Geneton Moraes Neto. Reunindo depoimentos de todos os 11 jogadores titulares e do técnico Flávio Costa, a publicação é um verdadeiro tesouro da literatura brasileira sobre futebol – e obrigatória a qualquer um que ama o esporte no Brasil. Para recontar o Maracanazo, e resgatar essa memória, reproduzimos alguns trechos de ‘Dossiê 50’. Enfatizamos as entrevistas de Barbosa e Bigode, os que carregaram as maiores cruzes. Fica a sugestão para a leitura completa do livro, muito mais rico, com outras histórias sobre 1950.

Barbosa

“Sempre fui um jogador que os uruguaios respeitavam pra burro: a mim, a Zizinho, a Ademir. Toda vez que havia um evento no Uruguai, eles convidavam a mim, ao Ademir e ao Zizinho. Só nós três. Pagavam as passagens. Os outros eles deixavam. Por que? Porque tínhamos uma afinidade maior. Dentro de campo, contra o Uruguai, encaramos o jogo. Fora, no convívio social, valia a amizade. Deixava de existir a disputa. Não há disputa. De qualquer maneira, quando o jogo acabou, fui cumprimentar Schiaffino, Obdulio Varela e Máspoli – que agradeceram e foram festejar o título”.

“Quando o Uruguai fez o gol de empate, houve um resfriamento natural da parte do Brasil. O segundo gol foi ainda pior. Veio de um lance imprevisível. Todo mundo pensou que o Ghiggia fosse tocar a bola para trás, para outro jogador, como aconteceu no primeiro gol do Uruguai. Tenho minhas dúvidas se Ghiggia realmente queria chutar a gol. Não sei bem o que ele pretendia fazer. Nem ele talvez tenha realmente essa noção do que quis fazer. Eu esperava que ele cruzasse a bola para a área: era esta a lógica da jogada. Mas não me desesperei com o gol. Não adiantava eu me desesperar. O que aconteceu, não adiantava. Desespero foi o que aconteceu depois, mas aí o Brasil não conseguia chegar lá. Depois da Copa, cheguei a me encontrar com o Ghiggia, mas nunca tocamos no assunto: nem ele me perguntou nem eu perguntei a ele. Nunca. Jamais tocamos nesse assunto. Nunca tive curiosidade de perguntar a ele”.

“Não chorei, mas senti. Não vou dizer que não. Cada um tem uma maneira de reagir a uma adversidade. Eu senti, mas não extravasei. Tive que conter minha mulher e meu compadre, porque os dois é que choravam muito. Diziam, antes da final, que nós, jogadores, iríamos ser candidatos a vereador, a deputado. Tinha casa, tinha fazenda pra gente. Depois… Você sabe o que ganhamos? Acho que mil cruzeiros”.

“Talvez tenha existido racismo no fato de culparem a mim e a Bigode. Mas não acredito que tenha existido: se existisse racismo, eu não teria voltado à seleção brasileira, como titular, como voltei, no Sul-Americano de 53. Só não fui à Copa do Mundo de 1954 porque estava com a perna quebrada. É como João Saldanha dizia: se não existe crioulo na Seleção, não vai. Se não existe crioulo no samba, não existe samba. A única coisa que me magoou foi o sujeito não respeitar meu título de vice-campeão do mundo. É o que me magoa. […] Aliás, eu gostaria de saber a razão por que jogam a culpa na gente – em mim e em Bigode”.

“Hoje, depois de tudo, me sinto feliz por ter participado da Copa de 50, porque, ali, o Brasil apareceu para o mundo como potência do futebol. […] Se eu fosse campeão do mundo, fim de papo. Teria atingido o ápice. Mas me considero um sujeito feliz, porque sou vice-campeão do mundo. Em todo caso, a derrota pesou porque o título de campeão do mundo pela seleção brasileira é o único que não consegui na minha carreira. Ver o Brasil campeão em outras Copas já foi um alívio grande. A maior lição que um homem pode tirar de uma derrota é usar os ensinamentos que ela traz, como a necessidade de ser humilde e a capacidade de reagir para procurar uma vitória maior. O futebol brasileiro conseguiu”.

“Cheguei a uma conclusão depois daquela Copa: a humildade é uma das coisas mais sublimes. Minha vida mudou depois de 50. Eu me julgava um sujeito prepotente. Depois, cheguei à realidade, vi que nós somos o que somos – nada mais! Ninguém é mais nem menos do que ninguém. A derrota mexeu com o Brasil todo. Eu senti a derrota no aspecto esportivo. Mas sempre achei que nós, brasileiros, subestimamos aquilo que somos. Nunca acreditamos no que somos. O Brasil será um grande país no dia em que acreditarmos naquilo que somos. Mas até hoje duvidamos daquilo que somos. Há quem queira que o país continue subdesenvolvido, não cresça perante o mundo: querem ver o Brasil espezinhado, massacrado, pisado. A gente tem que aturar, mas ainda acredito que nós, o Brasil, vamos vencer”.

“A vida tem dessas coisas: o atacante perde dez, vinte gols, mas se faz o gol numa vitória por 1×0, é considerado herói. Já o goleiro, coitado, faz defesas durante 89 minutos, mas, se leva um gol no último minuto, é tido como o carrasco. É assim a vida da gente. […] Ghiggia diz que só ele, o Papa e Frank Sinatra calaram o Maracanã. Eu também fiz o Brasil calar, fiz o Brasil chorar: não é só ele quem tem esse privilégio não. A tristeza foi geral. A gente encontrou as ruas desertas, o povo todo recolhido. Aquele não foi o Dia V, não. Para nós, foi o Dia D – mas de derrota. Muita gente não entrou para a história. Eu jamais sairei da história do futebol brasileiro por causa daquele jogo, em 16 de julho de 1950”.

Augusto

“Várias vezes sonhei com aquele jogo com o Uruguai. O placar era sempre diferente no sonho. A gente ganhava, eu levantava a taça. Quantas vezes eu sonhei… Os sonhos começaram a acontecer dias depois do jogo. Anos depois ainda fico pensando: ‘A gente podia ter vencido aquele jogo’. Era o único título que faltava na minha carreira, o de campeão mundial. A minha frustração talvez tenha sido maior porque, como capitão do Brasil, eu seria o primeiro jogador brasileiro a levantar a taça. Mas os outros jogadores têm uma frustração grande também, porque, para eles, aquela Copa foi a última”.

“Eu, por exemplo, estava com 30 anos. A maioria dos jogadores tinha, mais ou menos, essa idade. Um ou outro era mais novo. A Copa de 50 era a última chance que teríamos. Tive a frustração, mas não me desesperei a ponto de ficar louco da vida. Como jogador, sempre aceitei muito as derrotas e as vitórias. Não ficava, é claro, satisfeito com uma derrota, mas aceitava. O que é que eu ia fazer? Sempre tive mais glórias do que frustrações”.

“Se fosse possível esquecer o que aconteceu naquele dia, seria bom. Mas não se esquece. Não pude esquecer. Eu, capitão do time, naquela idade, estava diante de minha última chance de conquistar o título de campeão do mundo. Eu sabia que não teria outra chance depois”.

Juvenal

“Eu senti uma influência negativa do silêncio que se fez no Maracanã. Quando veio aquele silêncio, me senti derrotado. Quando o Uruguai fez o segundo gol, peguei a bola no fundo da rede. Perguntei aos fotógrafos e cronistas esportivos que estavam atrás quantos minutos faltavam para o fim do jogo. Disseram que faltavam 13. Eu pensei: ‘Dá tempo com o Brasil atacando’. Mas, com o silêncio, o jogo esfriou”.

“Ao jogar pela Seleção, eu sentia assim: se você é soldado, tem que honrar o nome da pátria. Você vai para honrar. Depois, se alguém quiser dar um prêmio pela vitória na guerra, tudo bem. Mas não se deve exigir nada antes da disputa, como aconteceu, depois, em outras seleções. Eu me sentia um soldado defendendo o país. Não é só numa guerra que se defende o país: é nas disputas esportivas também. Então, perder aquele jogo para o Uruguai foi como perder uma guerra. A gente não falava em dinheiro. Os jogadores não pediram prêmio, nada, nada, nada. Nós, ali, éramos como militares. Ninguém sabia de nada. Quanto ia ganhar, quanto ia deixar de ganhar. Quem vai para a seleção brasileira tem que defender a pátria. Defender já é um orgulho”

“Eu ficava ouvindo a Rádio Nacional. As notícias diziam assim: querem bater em Barbosa, Ademir suicidou-se, aquela onda toda. Naquele domingo, não dormi. Fiquei ouvindo os comentários. Depois, consegui dormir direito, porque não tinha culpa nenhuma. Tinha tristeza no coração. Mas não chorei. Depois de uns 15 dias, a CBD mandou nos chamar, para receber um prêmio. Era até um bom dinheiro, na época. A CBD só deu esse prêmio em dinheiro. Não deu uma medalha, não deu um relógio, um título, não deu nada. Só nos recompensou financeiramente porque ela, na época, ganhou”.

Bauer

“Naquele tempo, era assim: cada um cuidava de si. Então, comprei a minha passagem de trem para depois do jogo contra o Uruguai. Um repórter [da revista O Cruzeiro] me obrigou a devolver a passagem, para ter certeza de que eu ficaria no Rio depois do jogo [para uma comemoração aos campeões]. Fui até a Central do Brasil. Eu até já conhecia o homem do guichê, seu Paixão. Recebi o dinheiro da passagem de volta. Mas domingo, quando a tragédia calou o Maracanã, a comemoração virou pesadelo”.

“Não tinha revista, não tinha repórter, não tinha ninguém ao meu lado. E eu estava sem passagem. Naquele domingo à noite, o Rio de Janeiro morreu. Então, em companhia do falecido Geraldo José de Almeida e de um amigo, fui até a estação. A gente embarcou no trem. Aquele fiscal que vê as passagens queria parar o trem, porque eu não tinha passagem. Queria que eu descesse. Conseguimos convencer o homem. A cabine era de dois. Comigo, três. Pedi um cobertor. Fui dormindo no chão. A verdade é essa”.

“Terminei me transformando no único jogador da final de 50 que disputaria a Copa de 54. Fez-se muita injustiça com os jogadores de 50, principalmente com o mestre Zizinho, com Ademir de Menezes, com Jair Rosa Pinto, com Danilo, com muita gente. Todos eles poderiam ter jogado em 1954, porque estavam na plenitude da forma. Só não jogaram por terem perdido a Copa de 50. Devem ter dito: ‘Vamos sacar essa gente, como castigo’. Depois da Copa de 54, resolveram chamar Zizinho de novo para a Seleção. O Brasil meteu 4×1 na Tchecoslováquia – numa grande partida de Zizinho”.

Danilo

“Eu, já um homem feito, não pude conter as lágrimas. Já antes, quando o Uruguai fez 2×1, eu olhava para cima e aquela multidão inteira estava abatida. Porque o carnaval estava pronto. A torcida foi ver o Brasil ser campeão: não foi ver um jogo de futebol. Depois de tudo, quando consegui chegar em casa, foi um problema descer do carro. Quando saltei, parecia que tinha chegado o presidente da república. Vaias. Era eu. Tive que sair do Rio. Fui para Miguel Pereira”.

“Quando estávamos ganhando de 1×0, o negócio parecia liquidado. O Uruguai continuava se defendendo, para não ser goleado. E nós atacando, para golear, como nas outras partidas. Ouvi várias vezes as ordens do Flávio Costa para que a gente voltasse um pouco e não se excedesse. Mas não havia ordem que nos segurasse ali. Era a gente jogando e os gols acontecendo. Daquela vez, não aconteceu […] Continuamos partindo pra frente, enquanto o Uruguai se defendia para não ser goleado. A maior tristeza vem daí. O Brasil ganhando de 1×0, o adversário se defendendo para não ser goleado – e a gente perde um jogo desses, em dois contra-ataques”.

“Não existe um só culpado, mas vários. Somos nós. Não soubemos jogar quando deveríamos ter sabido. Não quero atingir nosso treinador ou nossos dirigentes, mas talvez tenha faltado uma ordem de fora – que talvez até fosse difícil de aceitar naquele momento em que o Uruguai fez 2×1. Talvez uma orientação para restaurar o ânimo. Porque nós nos perdemos. Nesse momento, deveríamos ter nos juntado para botar a cabeça no lugar. Passamos a revidar, a segurar os uruguaios, como eles nos seguravam. Não poderíamos ter feito aquilo. Chico me contou que pensou em dar uma entrada em Obdulio Varela, para tirá-lo de campo. Depois que se perde um jogo, aceita-se tudo o que a gente acha que deveria ter sido feito. Não resta dúvida: a tática de Chico poderia ter dado certo também”.

Bigode

“Não houve agressão nenhuma de Obdulio Varela. A injustiça maior foi essa, contra mim. Eu sinto até hoje. É uma covardia o que fizeram. Uns dizem que Obdulio Varela cuspiu. Outros que foi um tapa e que não reagi. É uma calúnia. Não houve reação porque não houve agressão. Obdulio Varela deu um tapinha em mim pelas costas, para pedir calma. Eu tinha dado uma pancada em Júlio Pérez, um jogador que tinha uma habilidade desgraçada. Para dizer a verdade, a máquina do Uruguai era Júlio Pérez, não era Obdulio Varela. Dei uma entrada violenta. Se minha entrada pegasse o tornozelo, se Júlio Pérez saísse de campo, a gente ganharia o jogo fácil. Porque o Uruguai se desarticularia totalmente. Neste momento, quando dei a entrada, Obdulio Varela veio me dizer: ‘Muchacho, calma!’. Fiquei olhando para o juiz com medo da expulsão”.

“Não fui driblado, a bola foi lançada. Já não era minha mais. Ainda assim, dei combate ao Ghiggia, e ele, no desespero, chutou de qualquer maneira. Chutou grama, chutou sem ângulo. O gol da vitória do Uruguai foi um acidente. Ghiggia me ganhou na corrida mas chutou apavorado, porque eu já estava atrás. […] Não houve, na saída, discussão minha com Juvenal. Mas ele dirigiu para mim a vaia que o público deu. Disse, ainda dentro do campo, que aquela vaia era para mim. Eu lamentei muito. O vestiário estava assim: gente chorando, torcedores loucos para quebrar aquilo e nos agredir através das janelas. Ficamos no Maracanã até umas nove da noite, porque ainda tínhamos de ir até a concentração, em São Januário, para buscar a bagagem antes de voltar para casa”.

“A essa hora, os cartolas somem. Nem me lembro do que me disseram. Um dia depois, um amigo meu passou na minha casa, em Laranjeiras, porque pensou que eu deveria estar arrasado. Resolvemos sair. Passamos por um restaurante na Cinelândia, para jantar. Uma madame, sentada ao lado, gente de São Paulo, disse: ‘Eu nunca tinha entrado num campo de futebol. Fui pela primeira vez. O culpado pela derrota foi Bigode’. A madame não tinha me visto, nem me conhecia. Mas aquilo me tirou o apetite”.

“Depois de tudo o que disseram, se eu não fosse um sujeito forte, estaria na sarjeta. O que mais me doeu foram as mentiras. Mais me doeu – principalmente – o fato de terem me chamado de covarde. Dias depois, eu estava comendo um sanduíche e tomando um guaraná num bar em Laranjeiras, antes de ir para casa dormir, quando um cidadão me diz: ‘Você é covarde! Apanhou na cara!’ Eu me levantei: ‘Quer me fazer um favor? Não quero que o senhor me bata, não. Quero que o senhor encoste só o dedo no meu rosto. Porque vou massacrar você aqui'”.

“As histórias que circularam prejudicaram – e muito – a minha carreira. Eu poderia ter jogado mais. Fiquei desanimado, sem prestígio para reformar contrato. Era difícil. Eu estive com Obdulio Varela 35 anos depois da Copa. O homem toma uma cana violenta. Eu estive com ele durante um almoço, na casa de Zizinho. Se realmente tivesse acontecido algo no Maracanã, eu teria coragem de me encontrar com ele? Jamais! O trauma de 1950, pelo menos para mim, não foi totalmente superado. Ainda escuto na rua sobre o que aconteceu. Quando sou apresentado a alguém na rua, dizem: ‘É Bigode, um dos que perderam a Copa do Mundo de 1950…’ Ninguém diz que fomos campeões sul-americanos pouco antes da Copa. Ninguém diz que fui campeão pelo Fluminense, bicampeão pelo Atlético, campeão brasileiro de seleções. Já esqueceram de tudo. Só veem a Copa de 50”.

Friaça

“Só me lembro de que a gente subiu para o dormitório. Eram umas 11 da noite. Troquei de roupa e me deitei. Não me lembro de nada do que aconteceu depois. Quando dei por mim, por incrível que pareça, eu estava em Teresópolis, no meu carro. Passei pela barreira, fui para um hotel. Quando me perguntaram: ‘Friaça, o que é que você quer?’, eu simplesmente não sabia onde estava. Só sabia que estava debaixo de uma jaqueira, no terreno do hotel. Não sei como é que saí com meu carro da concentração. Não sei como é que fui bater em Teresópolis. Um médico que era prefeito de Teresópolis é que me deu uma injeção. Comecei a saber onde é que estava uns dois dias depois. A minha família, em Porciúncula, estava atrás de mim sem saber onde é que eu estava. O pior é que eu também não sabia. De 64 quilos eu passei para 59”.

“O que aconteceu no gol é que Bigode foi batido numa jogada, porque Ghiggia era um jogador de alta velocidade. Se Bigode foi batido pela alta velocidade de Ghiggia, então teria de contar com a cobertura de outro jogador. Não posso ficar falando. Não é o caso de a gente crucificar A, B ou C. Mas não houve cobertura. Como não houve cobertura, veio aquele impacto. Schiaffino, no lance do primeiro gol do Uruguai, foi muito feliz, como Ghiggia”.

“Gravei bem o lance do meu gol contra o Uruguai, porque este é o tipo de coisa que a gente guarda. Eu tinha potência na perna direita, graças a Deus. Quando vi, Máspoli, o goleiro do Uruguai, tinha saído. Bati forte na entrada da área – do lado direito para o esquerdo. A bola entrou. O lance tinha nascido de uma combinação minha com o Bauer. Assim: Bauer tocou para mim, eu toquei para o Zizinho – que tocou, na frente, para mim. Antes de entrar na área, bati na bola. Tive a felicidade de marcar! Eu só tinha um pensamento: ‘Fiz o gol’. A única coisa que eu vi foi o César de Alencar me abraçando. Caímos dentro da área. Passei uns trinta minutos fora de mim. Eu não acreditava: nós tínhamos craques como Zizinho, Ademir e Jair. Mas eu é que tinha feito o gol!”

Zizinho

“Não gostam quando eu digo, mas houve falhas táticas fora do campo! O jogo tinha pouca importância nos dias que antecederam a partida! A concentração da seleção brasileira, em São Januário, virou cenário da política nacional. […] Flávio Costa não tem culpa porque era um homem só. Hoje, quando se forma uma seleção, forma-se um grupo de dirigentes. Naquela época, os dirigentes ficavam na CBD. Flávio é que tinha que tomar conta de tudo. Então, eu digo: houve uma desconcentração justamente no dia do jogo contra o Uruguai, o que prejudicou bastante o descanso dos jogadores. Dentro do campo, não houve desconcentração: ficamos surpresos, tomamos um susto com o que aconteceu”.

“Ainda joguei por oito anos depois da Copa de 50. Mas tive um choque ali. Tive vontade de abandonar o futebol. Só não abandonei porque, quatro meses antes, tinha assinado um contrato com o Bangu. […] Passei quase uma semana sem dormir direito. Tinha pesadelo pensando que o jogo não tinha começado. O sonho era assim: a gente ainda ia jogar contra o Uruguai, aquilo tudo que aconteceu era mentira, um pesadelo que tinha passado, o jogo ainda iria começar. Nesse momento, eu me apresentei ao Bangu. Disse ao diretor: ‘Seu Nascimento, preciso jogar. Senão, vou ficar maluco!’. Quando comecei a jogar, terminou aquela história toda. Copa do Mundo que se dane! Já perdi. O que é que vou fazer? Mas até hoje não me acostumo com a ideia de que perdemos”.

“Ademir uma vez esteve na casa de Obdulio Varela. A mulher de Obdulio é que disse: ‘Há um jogador no Brasil em que Obdulio pensa todo dia: Zizinho’. Eu sei sempre como é que vai Obdulio. E ele sabe sempre como é que estou. A gente não precisa falar para saber. Só sei que raramente se passa uma semana sem que eu pense: como é que vai aquele sacana? O incrível é que ele tem um sentimento idêntico. O próprio Obdulio é que confessou o fenômeno a Ademir e Barbosa lá no Uruguai, anos e anos depois da Copa. E eu sinto a mesma coisa também. Eu sou espírita. E ele também é. Penso sempre na saúde de Obdulio. […] Dentro de campo, sempre brigamos. Nunca jogamos uma partida sem trocar desaforos. Mas, na final de 50, não trocamos uma palavra em campo. Não sei como nasceu esse tipo de contato, não compreendo, mas sei que não se passa uma semana sem que a gente se comunique”.

Ademir

“Um fato que me marcou na Copa de 50 é completamente fora do futebol. Fui feliz logo nos primeiros jogos, porque comecei a marcar gols. O Brasil saiu dando goleadas. Depois do jogo contra a Espanha, eu estava na concentração, quando apareceu um senhor num automóvel. Ninguém poderia entrar, mas entrou, meio agitado, me procurando, depois de buzinar no portão. O pessoal ficou preocupado: deve ser alguma bomba, algum problema. Começaram a me esconder. Quando finalmente conseguiu entrar, o homem foi direto ao nosso técnico, Flávio Costa. ‘Eu estou com um filho de 14 anos na mesa de operação. E ele me fez um pedido que vou ter de atender. Quer que Ademir vá ao hospital'”.

“Flávio Costa me chamou num canto: ‘Você vá lá com o médico da Seleção, num carro da CBD. Veja a situação e volte’. Depois de sair da concentração, fui pensando dentro do carro: ‘Pode ser algum conhecido, pode ser algum pernambucano’. Quando cheguei ao hospital, vi que era um garoto meu admirador, que gostava de futebol de botão. O menino veio, me beijou e disse: ‘Doutor, pode me operar’. De volta à concentração, não consegui dormir. Passei a noite em claro. Fiquei pensando: ‘O que sou? Um santo? Eu sou Deus?’. Aquilo me impressionou. Para dizer a verdade, eu nem poderia ter saído da concentração, mas deram autorização para que eu saísse”.

“Vinte anos depois, em 1970, eu estava trabalhando no rádio como comentarista. Fui a uma agência do Citybank aqui no Rio para trocar cruzeiro por dólar, porque iria viajar ao México para assistir à Copa do Mundo. De repente, quando eu estava na fila, um rapaz de uns 30 anos de idade me pergunta: ‘Você se lembra de um senhor em 50 que foi buscar você lá na concentração do Brasil para ver um menino na Casa de Saúde Santa Lúcia, em Botafogo? [As lágrimas molham o rosto de Ademir nesse momento da entrevista] Eu disse que me lembrava. O menino era ele. São passagens assim que marcam a gente no futebol”.

Jair

“A cada vez que entro no Maracanã eu volto no tempo. Vejo aquele lance de novo. A bola passou por mim. Eu e o goleiro do Uruguai saltamos. Mas sou baixo. Tenho certeza: se Baltazar estivesse ali no meu lugar, a bola teria entrado. O meu drama é esse. Fiz de tudo para alcançar. A bola passou raspando meu cabelo. Pensei em Baltazar, um emérito cabeceador. Se aquela bola entrasse, se o papai do céu tivesse me ajudado, o Maracanã ia cair. Eu seria o salvador da pátria, o melhor jogador do mundo. Mas só me lembro de todo mundo chorando. É a única desgraça que levo. Porque fui campeão de tudo. Só faltou uma Copa do Mundo. Sempre, antes de dormir, eu pensava no gol que não fiz, aos 45 do segundo tempo. Eu sonhava assim: o Brasil com um time daqueles não ganhou a Copa do Mundo? A derrota é que tinha sido um sonho. Acordava espantado. Olhava ao redor – e o Maracanã estava ali, na minha frente”.

“O Uruguai tinha um bom time: o trio atacante do Uruguai não ficava devendo nada ao trio atacante brasileiro – Zizinho, Ademir e Jair. Os uruguaios tinham Júlio Pérez, Míguez e Schiaffino – craques. Posso dizer que eu fazia parte de um famoso trio de atacantes, considerado um dos melhores do mundo. Máspoli não ficava atrás do grande goleiro que era Barbosa. Além de raça, o Uruguai tinha um time bom. O que é que aconteceu com o time do Brasil? O que o Brasil fez contra a Iugoslávia, México e Espanha não fez contra o Uruguai. Faltou alguma coisa. O trio atacante uruguaio era uma coisa séria”.

“Terminada a partida, a gente não sabe se chora ou se dá risada. Porque chora e ri ao mesmo tempo. Eu chorei. Não choro para debochar do adversário. É chorar porque eu poderia ser campeão do mundo pelo Brasil. Depois, fui para casa, em Madureira. De lá, segui com meus pais para Barra Mansa, onde meus irmãos me confortaram muito. Só fui me esquecer da derrota na Copa de 1954, quando vi a Hungria, favorita, perder. Vi, então, que o futebol tem os seus segredos assim: nem sempre o melhor ganha. Passei a aceitar o que tinha acontecido. […] Depois que perdi a Copa, fiquei pensando assim: ‘Posso disputar outra Copa do Mundo. Posso ganhar. Vou para a Copa de 54. Eu me preparei’. Mas fui esquecido. Do time de 50, o único chamado foi Bauer. Viajou machucado, sem poder jogar. Barbosa, que estava jogando muito, não foi. Zizinho, que estava jogando muito, não foi. Danilo, que estava jogando muito, não foi. Nós não fomos chamados nem para treinar. O Brasil não suporta ser vice-campeão”.

Chico

“Quando o Brasil estava ganhando por 1×0, tive um pressentimento: o Uruguai iria ganhar o jogo. Lá dentro do campo, pedi o apoio de Ademir e Zizinho porque eu ia tirar o Obdulio Varela de campo. Todos nós sabíamos que Obdulio Varela era a chave do time do Uruguai. Um jogador que exercia comando, o líder absoluto. Eu conhecia bem o gênio daqueles uruguaios. Bastava que eu desse uma entrada desleal no Obdulio e pronto. Tenho certeza que ele não resistiria. Mas aí meus companheiros perguntaram se eu tinha esquecido a ordem da disciplina dentro do campo. Eu sabia que, se o Brasil depois ganhasse, eu seria herói. Se o Brasil perdesse, com a minha expulsão junto com Obdulio Varela, eu teria de dar uma satisfação à torcida; eu não iria poder nem sair de casa”.

“Nós estávamos concentrados na estrada Niemeyer. O contato com os jogadores era difícil. A condução era dificílima. Naquela época, pouca gente tinha automóvel. Não sei por que a concentração foi mudada para o Vasco em São Januário. É aí que entra o dedo da direção, nesse erro. Passou a existir uma frequência diária de visitantes na concentração. Tínhamos de fugir porque já estávamos cansados de tanto dar autógrafos. Atender os torcedores era um prazer, uma alegria, porque a gente sabia que essa gente tinha vindo de longe. Tínhamos de atender, mas aquilo estava nos prejudicando. Sem dúvida, a movimentação na concentração era maior do que deveria. Evidente. Houve reuniões e apresentações de políticos na concentração”.

“Quando o jogo terminou, não chorei, mas tive uma emoção tão grande que não sei explicar até hoje. Fui para casa, não saí. Ver Danilo chorar me traumatizou. Fiquei traumatizado nos dias seguintes. Comecei, então, a ter os sonhos em que o jogo ainda não tinha começado. Ainda íamos jogar contra o Uruguai. Eu dormia mal. Ficava acordado de noite. Mas nunca sonhei com o Brasil ganhando”.

Flávio Costa

“Nem o general Solano López teve de explicar tanto a derrota paraguaia para o Brasil na Guerra do Paraguai. A verdade é que o Brasil nunca foi inferior ao Uruguai em lance nenhum. O Brasil apresentou um futebol rápido, alegre, ligeiro. Deu ao mundo uma demonstração de que era um povo civilizado, capaz de cultivar o futebol com um carinho enorme. Além de tudo, construir o Maracanã naquela época foi uma demonstração de arrojo. O problema é que a vitória estava consignada antes do jogo. Veio, então, a decepção. Ora, jogos são ganhos dentro do campo. Não há outra solução. Houve um silêncio enorme no Maracanã nos gols uruguaios. O público se decepcionou – e transmitiu a decepção aos jogadores. A Seleção sentiu o choque. Traumatizados, os jogadores não ficaram habilitados a reagir diante do Uruguai”.

“Uns dizem que a derrota aconteceu por causa da mudança da concentração. Outros dizem que foi por causa do discurso longo do prefeito Mendes de Morais. Outros falam dos políticos que foram à concentração com a promessa de dar uma casa para cada jogador. Há ainda os que dizem que foi por causa de Bigode – que jogou devagar. O problema não é nenhum desses. A partida foi vencida e perdida dentro do campo! Os políticos oferecem casas desde 1500”.

“Eu, pessoalmente, não perdi nada. Só perdi a possibilidade de não ser incomodado o resto da vida por causa da Copa de 50. Eis a coisa mais importante que perdi. Se alguém perguntar a Zizinho ou a Ademir o que é que eles iriam ganhar, é possível que eles tivessem pensado em ganhar até o Pão de Açúcar. […] Não ganhamos nada. Não ganhei nem carta de agradecimento da CBD. Eu trabalhava com o ordenado que ganhava no meu clube”.