O Estádio Olímpico de Colombes, palco de alguns episódios históricos do esporte, recebeu um jogo emblemático naquele 5 de março de 1969. Uma passagem de bastão, nas quartas de final da Copa dos Campeões. O Benfica era reconhecidamente uma potência continental, protagonizado por Eusébio e Coluna. No entanto, os encarnados já começavam a perder força e acabariam sucumbindo diante de um adversário em ascensão. O Ajax de Rinus Michels e Johan Cruyff provava sua força. A classificação sobre os benfiquistas, em duelos parelhos, valeria o reconhecimento ao esquadrão. Depois de uma vitória para cada lado, os Godenzonen celebraram a classificação no jogo-desempate realizado em Paris. Daquele triunfo, caminhariam à sua primeira final continental, apesar da derrota sofrida para o Milan em Madri.

O jogo até parecia ter sido resolvido na ida, em Amsterdã. O Benfica visitou o Estádio Olímpico e não tomou conhecimento dos anfitriões, mesmo lidando com as dificuldades provocadas pelo rigoroso inverno europeu. Apesar da máxima de que os lusitanos não jogavam bem no gelo, desta vez triunfaram em um gramado coberto por uma densa camada de neve e com os termômetros batendo os sete graus negativos. Vitória contundente do timaço de Otto Glória por 3 a 1, com gols anotados por Jacinto, Torres e José Augusto.

Até parecia impossível reagir no reencontro em Lisboa, encarando 60 mil no Estádio da Luz. O Ajax, todavia, tinha uma equipe qualificadíssima. Depois que Inge Danielsson abriu o placar, Cruyff chamou o jogo para si. O camisa 14 havia ficado mordido por certa soberba notada entre os lusitanos. Endiabrado, o craque de 22 anos infernizou a defesa benfiquista e anotou mais dois gols logo na primeira meia hora da partida. Ia dando a classificação aos holandeses, mas, no fim, Torres descontou. Com os 3 a 1 revertidos no marcador, seria necessário realizar o jogo-extra, agendado para três semanas depois.

Cerca de 40 mil torcedores holandeses viajaram até a França, empolgados pelo momento. O resto do país também parou para ver o jogo, com escolas liberando os alunos mais cedo e empresas permitindo que os funcionários pausassem o trabalho. “Quando estávamos sentados no ônibus a caminho do estádio, passamos pela Champs Élysées e haviam dezenas de milhares de torcedores do Ajax por lá, Isso realmente nos deu um sentimento especial, que ressaltou a importância do jogo. Nós só poderíamos sair de Paris de uma maneira, e era vencendo”, declarou o atacante Klaas Nuninga, tempos depois. Cumpriram a intenção.

Até parecia que o equilíbrio iria prevalecer em Colombes, diante do gramado pesado. O placar zerado se manteve ao longo dos 90 minutos, levando o duelo à prorrogação. Foi quando o Ajax desencantou, sobrando fisicamente contra um adversário mais envelhecido. Cruyff abriu a contagem, enquanto Danielsson anotou mais dois nos instantes derradeiros da peleja. Ao apito final, uma invasão de campo massiva se desencadeou. Os heróis holandeses eram carregados nos braços pelos torcedores.

Com o triunfo por 3 a 0, os Godenzonen seguiram às semifinais, nas quais superaram o forte Spartak Trnava. A primeira mostra contundente do potencial do esquadrão, que ainda contava com lendas do porte de Wim Suurbier, Velibor Vasovic, Sjaak Swart e Piet Keizer. Na decisão, porém, a tripleta de Pierino Prati rendeu uma goleada incontestável ao Milan no Santiago Bernabéu. Os holandeses teriam que aguardar um pouco mais pela consagração, mas já reivindicavam o protagonismo.

O primeiro título continental do Ajax aconteceu em 1971. Já em 1972, os Godenzonen voltaram a encarar o Benfica nas semifinais. Swart anotou o gol da vitória por 1 a 0 em Amsterdã, que valeu a classificação depois do empate por 0 a 0 em Lisboa. Na decisão, os holandeses derrotaram a Internazionale para faturar o bicampeonato. E, 46 anos depois, o novo embate ocorre em momentos bastante distintos dos clubes, mas repletos de boas memórias.