A polícia avançou contra os manifestantes. Uma reportagem da Four Four Two estima que mais de 800 oficiais foram mobilizados naquela tarde de dezembro, em 1935, para um jogo de alto risco. Não, como geralmente é o caso nesse tipo de operação de segurança, pela rivalidade entre os times de futebol envolvidos nele. Essa era irrelevante diante do conflito muito além dos campos que aquela partida representava. Houve discussões e negociações entre os governos, mas, no fim das contas, a Alemanha do governo nazista de Adolf Hitler enfrentou a Inglaterra em White Hart Lane.

O palco do jogo pode não ter sido escolhido com o propósito de ser uma provocação. Há relatos de que era apenas a vez do estádio do Tottenham na rotação de sedes de jogos da Inglaterra. Mas, na hipótese mais generosa, faltou sensibilidade – não pela primeira ou pela última vez para o governo britânico em relação aos nazistas naquela época, em todos os âmbitos – quando decidiram que o norte de Londres, onde milhares de refugiados judeus moravam, era o local ideal para abrigar um jogo contra um país que, nos últimos dois anos, quando Hitler ascendeu ao poder, intensificava a perseguição aos judeus, caçava seus direitos e era o motivo de muitos deles terem ido parar lá. Naquele mesmo ano de 1935, a Alemanha passou as Leis de Nuremberg, impedido judeus de casarem com não-judeus e os proibindo de ter propriedades.

Naquela época, boa parte da comunidade judaica na região era formada por filhos de imigrantes que fugiram da perseguição no Império Russo no final do século 19. Eles se estabeleceram, inicialmente, no leste de Londres e, com o tempo, deslocaram-se para o norte da capital inglesa. A Jewish Virtual Library coloca o número de judeus vivendo na Inglaterra às vésperas da Primeira Guerra Mundial em 250 mil pessoas. Ao longo da década de trinta, mais 90 mil judeus chegaram ao país de Alemanha, Áustria, Tchecoslováquia, Polônia e Itália fugindo da perseguição nazista.

A bandeira nazista em White Hart Lane (Foto: Getty Images)

E, quando eles descobriram que a Inglaterra receberia a Alemanha nazista normalmente para uma partida de futebol, houve reclamações. “Cartas de protesto foram enviadas à Federação Inglesa e ao Tottenham. Os judeus reclamam do tratamento dos nazistas aos seus compatriotas na Alemanha e exigem que o jogo seja cancelado”, escreveu um artigo do Tottenham Weekly Herald. Mas, ao longo do mesmo jornal, cartas de leitores tomaram o lado do antissemitismo, alegando que o número de torcedores judeus dos Spurs não era tão grande assim, que os judeus estavam tentando “ditar” o que os ingleses poderiam fazer e que eles eventualmente seriam os culpados por uma guerra entre Alemanha e Inglaterra. Que tinham que aceitar que eram meros convidados no país e não “deixar as coisas mais difíceis para eles próprios”.

Os manifestantes atacados pela polícia no dia do jogo carregavam cartazes, com dizeres como “Nosso objetivo: paz. O objetivo de Hitler: guerra” e “Mantenha o esporte limpo, enfrente o fascismo”. O governo inglês, segundo a matéria da Four Four Two, tentou convencer todo mundo que o futebol estaria separado da política naquela partida. A Alemanha prometeu que usaria um uniforme discreto e não exibiria suásticas, mas aparentemente não se pode confiar em nazistas. Aproximadamente 10 mil torcedores alemães foram acomodados na East Stand e, quando os times entraram em campo, apareceram bandeiras com suásticas. Os jogadores visitantes assumiram a posição de sentido e levantaram o braço para a famosa saudação nazista, gesto reproduzido em todos os setores do estádio.

Jogadores da Alemanha fazem a saudação nazista em 1935 (Foto: Getty Images)

O placar do jogo foi 3 a 0 para a Inglaterra, mas o craque do jogo não marcou nenhum gol. Seu nome era Ernie Wooley. Seu ofício, fabricar ferramentas. O torcedor do Tottenham de Shoreditch percebeu que a polícia estava prestando atenção aos torcedores e ignorava que uma bandeira nazista havia sido hasteada em cima da Main Stand. Deslocou-se até o fim da West Stand, subiu no telhado, tirou uma faca do bolso e cortou a bandeira. Foi preso assim que desceu, dizendo aos policiais que “a bandeira nazista é odiada neste país”. Mas, pelo jeito, não muito, porque logo em seguida a bandeira nazista foi novamente hasteada em White Hart Lane.

O Exército Yid

A bandeira de Israel na torcida do Tottenham durante as quartas de final da Champions contra o City (Foto: Getty Images)

O futebol é um instrumento de aculturação. Um traço cultural que pode ser compartilhado por pessoas de diferentes etnias e religiões, um palco onde todos podem desfrutar do mesmo lazer. No norte de Londres, imigrantes judeus tinham dois times para escolher. E embora a quantidade de judeus nas torcidas de Arsenal e Tottenham seja hoje em dia provavelmente similar, por volta de 5% do total, nem sempre foi assim.

O The Jewish Chronichle, jornal judeu fundado em Londres em 1841, afirmou categoricamente nos anos vinte que “todos os judeus que acompanhavam futebol torciam para o Tottenham”.  Na década seguinte, relatos apontavam para 10 mil nos jogos dos Spurs, um terço do total. “Era possível ficar na sinagoga até o fim do Mussaf (serviço religioso adicional celebrado no Shabat), passar em casa para um prato de lokshen (prato tradicional judaico) e pegar o trem de Aldgate para White Hart Lane”, relatou um correspondente do JC, em relação às partidas de sábado às 14h30 na Inglaterra.

Entre os anos sessenta e setenta, quando as arquibancadas da Inglaterra eram lotadas de violência e racismo, a ligação do Tottenham com a comunidade judaica foi utilizada para ofensas, entre as quais “o seu rabino sabe que você está aqui?” era a mais leve – as mais graves mencionavam Auschwitz e câmaras de gás. Em resposta, torcedores do Tottenham adotaram o termo “yid”, usado historicamente para se referir a judeus de forma pejorativa, e se tornaram o “Yid Army”. Bandeiras de Israel e Estrelas de Davi começaram a aparecer nas arquibancadas.

Embora a intenção inicial tenha sido neutralizar o xingamento, o uso do termo é controverso, entre outros motivos, porque muitos torcedores do Tottenham que se declaram “yids” não são judeus. O debate ficou quente, em 2013, quando a Federação Inglesa concluiu que o “uso de ‘yid’ pode ser considerado ofensivo por um observador razoável” e a Polícia Metropolitana anunciou que prenderia torcedores que proferissem o termo em White Hart Lane. Três foram de fato detidos em um jogo da Liga Europa, em 2014. Naquele mesmo ano, a polícia voltou atrás na diretriz.

No começo de 2019, depois de uma nova onda de ofensas antissemitas, especialmente da torcida do Chelsea, o debate voltou à tona, com o Congresso Mundial Judeu afirmando que o termo não deve ser utilizado em nenhum contexto. “Ao contrário dos protestos de muitos torcedores, não há área cinza quando o assunto é xingamentos contra grupos étnicos, raciais ou religiosos”, afirmou o vice-presidente e executivo-chefe do Congresso, Robert Singer. “A palavra ‘yid’ tem sido reapropriada da sua origem yiddish há muitos anos para carregar uma mensagem pejorativa e antissemita, e o seu uso por torcedores nas arquibancadas, como um apelido auto-designado ou um slogan contra rivais, não pode ser tolerado. Pedimos que o Tottenham tome uma posição contra o uso de ‘Yid Army’, ‘Yid’ e ‘Yiddos’ por seus torcedores. Uma ação como essa é importante para afastar o antissemitismo dos gramados e criar um ambiente acolhedor para todos”.

O Tottenham, cujo presidente Daniel Levy é judeu, assim como seu antecessor Alan Sugar (1991-2001), defendeu a sua torcida, dizendo que ela nunca usou o termo como uma ofensa e que “a reavaliação do seu uso pode acontecer efetivamente apenas no contexto de uma total repressão ao inaceitável antissemitismo”.

Os Super-Judeus

A estátua De Dokwerker vandalizada com as cores do ADO Den Haag

“Não tenho nada contra o seu povo. Quando digo que eu odeio judeus, eu quero dizer torcedores do Ajax”, afirmou um torcedor do Feyenoord à agência de notícias Jewish Telegraphic, em 2017, logo depois de chegar perto de completar o bingo do antissemitismo explicando que odeia judeus porque eles “têm o dinheiro, ocupam posições de poder em empresas e pensam que são melhores do que nós trabalhadores braçais”, deixando claro que o problema vai além do clube que se identifica com o judaísmo.

Parecido com o Tottenham, a associação do Ajax com a comunidade judaica tem muito a ver com a geografia. Por volta de 80 mil judeus moravam em Amsterdã às vésperas da Segunda Guerra Mundial e, quando os alemães invadiram a Holanda, em 1940, o total chegava a 140 mil em todo o país, ou 1,6% da população, segundo a Jewish Virtual Library. Ao fim do conflito, por volta de 75% da comunidade judaica holandesa havia sido assassinada, de acordo com o Yad Vashem, museu do Holocausto em Jerusalém. Atualmente, a comunidade judaica representa apenas 0,3% da população holandesa.

Na capital, a maioria dos judeus morava na região leste, onde ficava o antigo estádio do Ajax, o De Meer. “Quando o Ajax enfrentava equipes de regiões mais provincianas, os torcedores visitantes pegavam o bonde da principal estação de trem e passavam pelo bairro judeu. Foi assim que muitas pessoas viram judeus pela primeira vez na vida”, contou o jornalista judeu e porta-voz de uma fundação contra o antissemitismo no futebol holandês, Hans Knoop, à revista alemã Der Spiegel.

Presidentes e jogadores importantes do Ajax durante os anos sessenta e setenta eram judeus e, por volta dessa época, a torcida do time de Amsterdã passou a enfrentar, também em processo parecido ao do Tottenham, os insultos antissemitas dos adversários assumindo a identidade judaica. Eles se auto proclamaram os “Super Judeus” e passaram a cantar que “quem não pula não é judeu”. Entoavam a música hebraica Hava Nagila, cantada em comemorações judaicas, e bandeiras de Israel e Estrelas de Davi também se tornaram comuns nas arquibancadas.

“Por volta de 90% dos torcedores do Ajax não sabem nem onde fica Israel. Quando gritam ‘judeus, judeus’ ou ‘super-judeus’, querem motivar o time e nada mais. Os adversários não são necessariamente antissemitas, mas são contra o Ajax. E se o Ajax é os Judeus, eles têm que ser contra os Judeus”, continuou Knoop. E isso também é fonte de controvérsias.

Ao se apropriar de símbolos judaicos, a torcida do Ajax, cuja maioria não é judaica, acaba atraindo ofensas antissemitas que ofendem não apenas os seus integrantes, mas também judeus que nada têm a ver com o clube ou com o futebol. Como exemplo, no final de fevereiro a estátua De Dokwerker, que comemora o dia em que Amsterdã se uniu para protestar leis contra judeus impostas pelos alemães em 1941, foi vandalizada supostamente por torcedores do ADO Den Haag, com tinta amarela e verde, cores do clube de Haia. Suásticas foram desenhadas nas paredes de ruas nos arredores.

“Eu não gosto”, afirmou o judeu e ex-diretor do Ajax entre 1997 e 2013, David Endt, à CNN. “Fornece ao outro lado um álibi para gritar coisas erradas sobre isso, para machucar pessoas que nada têm a ver com o futebol. Não deveriam fazer isso. Não é certo. Eu posso entender os torcedores um pouco porque eles gostam de andar atrás de uma bandeira e de ter um símbolo. Mas é o símbolo errado, sabe? Acho que o clube deveria fazer mais. Ensinar os jovens, ensinar o significado da bandeira judaica, que não tem nada a ver com o Ajax. É apenas um símbolo escolhido por algumas pessoas em certo momento, mas não tem nada a ver com o Ajax”.

Essa cultura da torcida do Ajax pegou Nirit Peled de surpresa. Ela chegou de Tel Aviv a Amsterdã com 20 anos e ouviu do pai que precisava esconder o seu colar com a Estrela de Davi na blusa porque “nem todo mundo gosta de judeu na Europa”. Uma semana depois, estava no trem com torcedores do clube e contou o que viu no trailer do seu documentário “Super Jews (2013)”, em que tenta aprofundar essa complicada relação entre o gigante holandês e a comunidade judaica. “Eles tinham bandeiras de Israel, tatuagens da Estrela de Davi nos braços. O que estão fazendo com minha bandeira? Isso é sobre mim? Fiquei com medo e desci do trem”, narrou.

“Quando eu fiz esse filme, uma das questões que as pessoas me perguntavam, como israelense e judia, era: ‘os torcedores do Ajax são antissemitas?’. Eu não acho que tenha nada a ver com religião para eles”, afirmou Peled, à CNN. “Eu acho que é algo tirado do contexto. Eles estão definitivamente assumindo um lado e outros assumem o outro lado. Eu posso dizer com certeza que os torcedores de Roterdã (casa do Feyenoord, com amplo histórico de insultos antissemitas) não se identificam com a causa palestina”.

“É uma fricção que foi criada, novamente, meio com base em identidades. As crianças não entendem a ligação. Uma anedota é que jovens em Amsterdã vão a uma joalheria e pedem a ‘estrela do Ajax’.  Eles nem sabem que na verdade é a Estrela de Davi. Hoje, é a estrela do Ajax. O que é engraçado nessa discussão toda sobre esse fenômeno é que nós não nos perguntamos por que a palavra ‘judeu’ ainda é um xingamento”, encerrou.

Essas discussões são especialmente relevantes depois de um ano em que o antissemitismo cresceu. O relatório anual do Ministério da Diáspora de Israel identificou que 13 judeus foram assassinados em três ataques antissemitas em 2018, maior número desde os atentados da Argentina, na década de noventa. Segundo as autoridades britânicas, foram 1.652 casos de antissemitismo, registro recorde no país. Na Holanda, foram 135, um aumento de 19% em relação ao ano anterior.