Antes que a Lei Bosman começasse a ditar o fluxo do mercado de transferências europeu, o Ajax fazia as suas incursões em ligas de outros países. Boa parte dos estrangeiros adicionados ao seu elenco nas décadas anteriores vinham dos países nórdicos – em especial, da Dinamarca, de íntima ligação com os Godenzonen. Porém, a Finlândia logo se tornou um território a se explorar. O primeiro jogador da nação a desembarcar no clube foi Petri Tiainen. O meio-campista permaneceu no plantel entre 1985 e 1988, mas disputou apenas 19 jogos e logo retornou à sua terra natal. A grande aposta dos Ajacieden aconteceu em 1992. Naquele ano, foram ao MYPA buscar um armador que despontava na liga local. E nunca se arrependeram do dinheiro investido em Jari Litmanen. O camisa 10 se tornou um dos símbolos do time, em anos fantásticos na Liga dos Campeões.

Filho de pai e mãe jogadores de futebol, Litmanen cresceu admirando Maradona e também o futebol da seleção brasileira. Absorveu o conhecimento adquirido à genética propensa ao esporte. Tinha 21 anos quando chegou a Amsterdã, já com uma reputação respeitável pela maneira como destruía as defesas no Campeonato Finlandês. Havia feito suas primeiras aparições nas competições europeias, defendia a seleção de seu país e outros clubes cresciam o olho sobre seu futebol – incluindo Barcelona, Leeds United e PSV. O Dinamo Bucareste quase se tornou seu destino, em negócio que ruiu nas últimas partes das tratativas. A sorte sorriu ao camisa 10, levando-o ao Ajax. Se a primeira temporada marcou sua adaptação, a segunda o colocaria como um dos protagonistas da equipe.

Litmanen, afinal, tinha sede por jogar futebol. Se para os torcedores ele era o “Kuningas”, o Rei, ou “Merlin”, em referência ao mago, aos companheiros o finlandês aparecia como o “Professor”. Com sua personalidade serena, mas firme, era interessado por tudo o que acontecia no futebol e conhecia bastante sobre a modalidade. Parecia o jovem perfeito para absorver tudo o que o Ajax poderia oferecer. E este “tudo” inclui principalmente o que os Godenzonen já começavam a construir em campo, sob as ordens de Louis van Gaal.

O camisa 10 se encaixaria no sistema não apenas como um meia de visão ímpar, capaz de quebrar as defesas com seus dribles e seus passes. Liti também foi um goleador nato, o cara que chamava a responsabilidade para si e decidia com a qualidade de seus chutes. Era uma sombra aos centroavantes, sempre aproveitando os espaços para atacar. Além do mais, desempenhava um papel tático importantíssimo, pressionando a saída de bola adversária e imprimindo o Futebol Total em seu estado mais puro. Intuitivo e confiante, era um dos melhores exemplos de “jogador completo” da época. Algo que se ampliava seu brilhantismo, expresso pela habilidade e pelas pinturas.

A aposta do Ajax em Litmanen foi enorme, mesmo depois de passar seus primeiros meses com o quadro reserva. Ele terminou escolhido por Louis van Gaal para ser o sucessor de Dennis Bergkamp e recebeu a camisa 10 do velho craque, vendido à Internazionale. Foi a deixa para que o finlandês começasse a voar. Em 1993/94, conduziu os Godenzonen ao título do Campeonato Holandês. Terminou eleito como o melhor jogador e também faturou a artilharia da competição, autor de 26 gols em 34 partidas. Os números do meia na Eredivisie, mesmo nunca repetindo aquela marca, se manteriam ótimos e em quatro das cinco temporadas seguintes ele superou os dois dígitos de tentos. Ainda assim, sua fama se erigiu a partir do que apresentou na Liga dos Campeões.

A primeira campanha completa de Litmanen na Champions com o Ajax aconteceu em 1994/95. Você provavelmente sabe o que aconteceu no final. Mas é importante ressaltar como o camisa 10 contribuiu para aquela conquista inesquecível. Atravessava os seus momentos mais inspirados e, na primeira fase, apareceu para destruir o Milan em duas oportunidades. Os rossoneri de Fabio Capello vinham do título continental, ao esculachar o Barcelona na decisão em Atenas. Perderam as duas contra os Godenzonen, ambos os jogos com gols do Kuningas. Apesar disso, os milanistas também avançariam aos mata-matas da competição.

Nas fases decisivas, a melhor atuação do Ajax aconteceu nas semifinais. Os holandeses encaravam o Bayern de Munique, treinado por Giovanni Trapattoni e recheado de jogadores da seleção alemã. Os Ajacieden não passaram de um empate no Estádio Olímpico de Munique, mas resolveram a volta em Amsterdã com goleada. Imponentes 5 a 2, que referendaram a magia ao redor daquele time e garantiram a passagem à final. Litmanen estava particularmente iluminado naquela ocasião. Anotou o gol que abriu a vitória e também assinalou o quarto, o mais bonito, deixando o marcador no chão logo no domínio, antes de fuzilar Oliver Kahn. O caminho para se consagrar com uma legião de outros craques na decisão, novamente contra o Milan, em jogo desta vez resolvido pelo imberbe Patrick Kluivert. Ao final do ano, além de conquistar o Mundial Interclubes, Liti também se tornou o principal concorrente ajacieden à Bola de Ouro. Terminou a votação em terceiro, atrás de George Weah e Jürgen Klinsmann.

A fama do Ajax, concomitante com a Lei Bosman, causou a sangria daquele elenco. Não demorou para vários jogadores importantes saírem. Apesar das propostas, Litmanen preferiu seguir em frente e ampliou sua idolatria na recém-inaugurada Amsterdam Arena. A melhor campanha do Merlin na Champions aconteceu na temporada seguinte, em 1995/96. Foram nove gols em dez partidas, liderando os Godenzonen a uma nova decisão. Durante a fase de grupos, promoveu a destruição do Real Madrid no Bernabéu – naquela que talvez tenha sido a atuação mais impressionante da equipe de Van Gaal. Nas semifinais, contra o Panathinaikos, o finlandês evitou o pesadelo ao seu time. Após a derrota na Holanda, ele comandou a reviravolta com dois gols em Atenas. Já na final contra a Juventus, o empate por 1 a 1 foi garantido pelo tento do craque no final do primeiro tempo. Todavia, mesmo convertendo seu pênalti, ele precisou experimentar o outro lado da moeda, com a decepção da derrota vivida no Estádio Olímpico de Roma.

Litmanen permaneceu no Ajax até 1999. Seria outra vez desbancado pela Juventus na Champions, nas semifinais de 1996/97. Deixou a Amsterdam Arena em tempos nos quais as seguidas lesões minavam sua carreira, para passagens pouco felizes no Barcelona e no Liverpool. Entretanto, retornou para ser a referência em outra campanha memorável dos Godenzonen pela Europa. Em 2002/03, já veterano, ajudou a equipe a alcançar as quartas de final. Anotou um gol fundamental na vitória sobre a Roma, na segunda fase de grupos. E também faria o Milan suar, no duelo que quase derrubou os futuros campeões. Ao final, apesar do esforço dos Ajacieden em Milão, os rossoneri avançaram às semifinais. Mas a idolatria ao Kuningas estava renovada. Ele ainda permanece como maior artilheiro do clube em competições europeias, somando 26 gols.

A segunda passagem de Litmanen pelo Ajax durou até 2004. A partir de então, o veterano iniciaria uma carreira peregrina por clubes de menor projeção na Europa, sobretudo na Escandinávia. E a veneração dedicada pelo Ajax ao finlandês permanece. Liti possui um lugar de honra no museu do clube. Mais do que isso, também segue com espaço privilegiado no coração e na memória dos torcedores. Pelo legado que construiu e pela bola que jogou, é considerado por muitos o maior camisa 10 que os Godenzonen já tiveram. Um camisa 10 que, com seu talento, ilustra a magia daquelas noites europeias ocorridas durante a década de 1990.