Bayern de Munique e Lyon se enfrentam na semifinal da Champions League com um passado rico entre si. Foram quatro edições distintas do torneio continental em que os clubes se encontraram, de 2000/01 e de 2009/10. E os períodos são transformadores a ambos os lados, da reconquista europeia por parte dos alemães à onipotência dos franceses nos torneios domésticos que também transbordou além das fronteiras. A maior parte dos duelos aconteceu por fases de grupos, embora o maior momento dos Gones na Liga dos Campeões também coincida com os bávaros, na semifinal de 2009/10. Sem mais delongas, um pouco de história, com as oito partidas – deixando as mais novas primeiro na lista:

Semifinais de 2009/10

O encontro mais recente entre Bayern e Lyon também valia uma vaga na decisão da Champions, em 2009/10. Os bávaros viviam o seu primeiro ano sob as ordens de Louis van Gaal, após a desastrosa aposta em Jürgen Klinsmann, e tiravam diversas lições positivas ao que foi um trabalho de renovação na Allianz Arena. O Lyon, por outro lado, estava em seu canto do cisne. O heptacampeonato na Ligue 1 havia se encerrado pouco antes, mas nunca os Gones haviam causado tamanho impacto na Champions, desta vez treinados por Claude Puel e com cada vez menos remanescentes da hegemonia na Ligue 1.

O Lyon se impôs desde a fase de grupos daquela Champions. Ainda que tenha terminado dois pontos atrás da Fiorentina no Grupo E, sobrou em uma chave que terminou com a eliminação do Liverpool. O grande feito aconteceu nas oitavas de final, quando pegou o Real Madrid já com Cristiano Ronaldo e Kaká entre os reforços estelares. Com a vitória por 1 a 0 na França, os Gones impediram o sonho merengue de decidir a final em casa e infligiram a sexta eliminação consecutiva do clube nas oitavas. Já nas quartas, um duelo doméstico com gosto de revanche. Se o Bordeaux foi o responsável por botar um ponto final no hepta dentro da Ligue 1, tomou o troco com a classificação dos compatriotas às semifinais.

O Bayern também encerrou a fase de grupos na segunda colocação de sua chave, superado exatamente pelo Bordeaux. Mas seria uma classificação mais apertada, em que a renascida Juventus ficou pelo caminho. Nos mata-matas, porém, o time de Van Gaal cresceu de produção. Despachou a Fiorentina graças aos gols fora de casa, com vitória por 2 a 1 na Alemanha e derrota por 3 a 2 na Itália. O mesmo se repetiu nas quartas, diante do Manchester United. Ivica Olic anotou o gol do triunfo por 2 a 1 na Allianz Arena aos 47 do segundo tempo. Já em Old Trafford, após os Red Devils abrirem três gols de vantagem, Olic e Arjen Robben buscaram a classificação com a derrota por 3 a 2 – incluindo o famoso voleio do holandês de fora da área.

O Bayern contava com a espinha dorsal do time que conquistaria a Champions logo depois. Philipp Lahm e Bastian Schweinsteiger (já readaptado como volante) eram as lideranças, com Arjen Robben e Franck Ribéry ocupando as pontas. Apesar das presenças de Miroslav Klose e Mario Gómez no banco, Van Gaal dava preferência à boa fase de Ivica Olic e à ascensão de Thomas Müller, se firmando no time principal. Já a defesa ainda tinha a experiência de nomes como Hans-Jörg Butt e Daniel van Buyten. Não era a equipe bávara mais forte daquela virada de década, mas ganharia peso em pouco tempo.

O Lyon, por sua vez, via cada vez menos traços do time que dominou a Ligue 1. O capitão Cris e o lateral Anthony Réveillère eram os mais antigos entre os titulares, com a opção de Sidney Govou no banco. Mas não havia mais Juninho ou outros emblemas de Gerland, com o sueco Kim Källström ocupando a lacuna na armação. Apesar de ser uma geração mais jovem, bons valores estavam por ali. Hugo Lloris era o goleiro, Jérémy Toulalan completava a zaga, Miralem Pjanic despontava na ligação, Ederson vestia a camisa 10 e o comando do ataque ficava por conta de Lisandro López.

Quem apostava em uma surpresa do Lyon, entretanto, viu o Bayern avançar com mais tranquilidade que nas duas outras fases. A equipe de Van Gaal ganhou logo a ida por 1 a 0, num duelo marcado pelas expulsões. Os bávaros foram mais perigosos no primeiro tempo dentro da Allianz Arena, mas também tomaram seus sustos e a situação parecia se complicar quando Ribéry recebeu o vermelho direto por uma solada. Mas veio o segundo tempo e o segundo amarelo de Toulalan igualou as coisas cedo. O gol dos alemães parecia maduro e saiu aos 24 minutos: Robben arriscou de fora da área, a bola deu uma casquinha na cabeça de Müller e tirou Lloris da jogada. No fim, o goleiro francês ainda evitaria um placar pior.

“A preparação ao jogo foi ótima, muito divertida. Olhando para o que foi a partida, poderíamos facilmente ter vencido por uma margem maior, mas se você tivesse nos oferecido o triunfo por 1 a 0 de antemão, todos nós teríamos aceitado. Preciso agradecer o gol a uma ida perdida ao cabeleireiro. A final está a um jogo agora. Teremos que ver como as coisas se darão em Lyon, mas acho que estamos prontos e sigo muito otimista”, comentou um jovem Thomas Müller, que aos 20 anos vivia a sua primeira semifinal de Champions.

E a esperança de uma virada em Gerland desapareceu rapidamente. Puel veio com diversas mudanças, incluindo Jean-Alain Boumsong, Jean Makoun e Michel Bastos entre os titulares. O Bayern também tinha a volta do capitão Mark van Bommel, bem como a entrada de Hamit Altintop no lugar de Ribéry. O show nos 3 a 0 acabou por conta de Olic, que balançou as redes nas três oportunidades. Foi o primeiro hat-trick em uma semifinal de Champions após 12 anos, repetindo o feito de Alessandro Del Piero contra o Monaco em 1997/98.

O Bayern começou o primeiro tempo protegendo sua vantagem e, com chances esporádicas, abriu o placar aos 26 minutos. Depois de uma ótima jogada de Müller, Olic girou na área para anotar seu primeiro. Neste momento, os franceses precisariam de mais três tentos. Era uma partida aberta, mas a situação do Lyon se tornaria pior no início do segundo tempo, quando Cris recebeu dois amarelos consecutivos (o segundo por aplaudir o árbitro Massimo Busacca) e foi expulso. A saída do capitão desmontou o esquema dos franceses e os bávaros aproveitaram melhor os espaços, especialmente com Robben infernizando pela direita. Olic ampliou aos 22, num lindo passe de Altintop que o deixou na cara do gol, e fechou a conta ao cabecear o cruzamento de Lahm, aos 33. Foi uma classificação incontestável dos alemães.

“Parece que estou na melhor fase da minha carreira, mas o time também está em sua melhor forma. Um atacante apenas precisa fazer sua parte e marcar gols. O primeiro gol foi psicologicamente o mais importante. Depois disso, eles precisavam fazer três para avançar e não é fácil. Então fiz mais dois. Estou muito feliz por ter marcado um hat-trick na semifinal. Foi um sonho, mas o time todo jogou um bom futebol. Fomos muito compactos e os outros setores jogaram bem. Criamos chances de trás e então ficou fácil para mim no ataque”, comentou o herói Olic, na época.

A decisão, porém, mostrou como aquele Bayern não estava totalmente preparado para reconquistar a Champions. A partida no Bernabéu foi frustrante, com a noite dominada pela Internazionale de José Mourinho e o poder de decisão de Diego Milito. Seriam três anos de espera, incluindo a dor ainda maior contra o Chelsea em 2012, para que a Orelhuda retornasse a Munique. Já o Lyon veria algumas de suas apostas vingarem, mas não necessariamente no clube. Não repetiria uma campanha tão longa na Champions até o reencontro com o Bayern nesta quarta-feira.

Fase de grupos 2008/09

Bayern de Munique e Lyon se conheciam razoavelmente quando se encararam na semifinal de 2009/10. Afinal, as duas equipes haviam medido forças na temporada anterior, ainda na fase de grupos. Numa chave que também contava com Fiorentina e Steaua Bucareste, alemães e franceses avançaram aos mata-matas. De qualquer maneira, uma vitória e um empate no confronto direto auxiliaram os bávaros a terminarem na liderança do Grupo F.

Ainda eram tempos de Klinsmann no Bayern e o time seria razoavelmente diferente ao que se viu com Van Gaal. O ataque, por exemplo, reunia Miroslav Klose e Luca Toni. Arjen Robben não havia chegado, com Schweinsteiger na ponta ao lado de Ribéry. Também apareciam nomes como Zé Roberto e Lúcio, que deixariam o clube ao final da temporada. O Lyon já estava sob as ordens de Claude Puel. E a principal diferença se via no ataque: Karim Benzema fazia sua última temporada no Gerland, enquanto Fred era uma opção ao setor ofensivo. Por fim, a braçadeira de capitão seguia com o ídolo Juninho Pernambucano, também em seu último ano com os Gones.

A primeira partida aconteceu pela segunda rodada, com empate por 1 a 1 na Allianz Arena. O Lyon abriu o placar aos 25 minutos, em cobrança de falta de Juninho do meio-campo, que Martín Demichelis deu um desvio contra as próprias redes. O Bayern arrancou a igualdade no início do segundo tempo, em cruzamento de Klose para a cabeçada de Zé Roberto. Mas, apesar da pressão bávara, a virada não aconteceu. E o andamento do grupo tirou o peso do reencontro na última rodada, com as duas equipes classificadas, valendo apenas a primeira colocação.

O primeiro tempo arrasador do Bayern abriu o caminho ao triunfo por 3 a 2. Os três primeiros gols saíram antes do intervalo. Depois de uma bobeira tremenda da zaga, Ribéry ajeitou para Klose fuzilar. O francês marcaria o segundo, recebendo a assistência após ótimo pivô de Toni. Por fim, um cruzamento de Ribéry valeu mais um tento de Klose. O Lyon só reagiu na etapa final. Sidney Govou marcou num rebote do goleiro Michael Rensing. E ainda teria um tento de Benzema, que driblou o goleiro antes de fechar a contagem.

O destino de Lyon e Bayern seria parecido nos mata-matas. Os franceses pegaram logo de cara o Barcelona de Pep Guardiola e sucumbiram com uma goleada por 5 a 2 no Camp Nou. O Bayern atropelou o Sporting nas oitavas, com um 5 a 0 em Lisboa e um 7 a 1 em Munique. Entretanto, também seria desancado pelo Barça, com um 4 a 0 no Camp Nou, antes do empate por 1 a 1 na Alemanha. Outros tempos aos blaugranas.

Fase de grupos 2003/04

O Lyon vivia o seu auge em 2003/04, conquistando naquele momento o tricampeonato francês. A equipe de Paul Le Guen dava a plena impressão de que poderia registrar campanhas históricas na Champions. Já o Bayern atravessava a última temporada sob as ordens de Ottmar Hitzfeld, com sinais de desgaste diante do processo de renovação que precisava ser empreendido na Baviera. E os duelos no Grupo A, que também contava com Celtic e Anderlecht, indicavam como os franceses estavam um passo à frente naquele momento.

O Lyon contava com a base que mudou o time de patamar. Estavam presentes Grégory Coupet, Edmílson, Patrick Müller, Mahamadou Diarra, Sidney Govou, e o craque Juninho. Os jovens Michael Essien e Florent Malouda eram apostas recentes. E, curiosamente, o reforço de maior impacto daquela temporada foi Élber, que deixou uma história irreparável em Munique para ajudar a força ascendente. Sem o velho artilheiro, o Bayern contava com Roy Makaay estrelando o ataque, além de jovens como Claudio Pizarro e Roque Santa Cruz. Michael Ballack era o líder no meio-campo, com a companhia de Zé Roberto e Hasan Salihamidzic. Já a defesa tinha a capitania de Oliver Kahn, com Samuel Kuffour e Bixent Lizarazu entre os mais rodados.

O primeiro jogo, em Gerland, terminou com o empate por 1 a 1. Uma boa troca de passes permitiu que Makaay abrisse a contagem aos visitantes com 25 minutos. Ballack deu um presentaço ao companheiro, que bateu de primeira dentro da área. O Lyon precisou persistir até os 43 do segundo tempo para garantir seu pontinho. O tento nasceu a partir de um escanteio cobrado por Juninho. A zaga rechaçou a primeira tentativa, mas a bola seguiu viva, até Malouda cruzar para Péguy Luyindula completar de cabeça.

Duas semanas depois, o reencontro ocorreu no Estádio Olímpico de Munique. E a Lei do Ex se tornaria implacável no local onde Élber era adorado. A vitória por 2 a 1 começou aos seis minutos, com um golaço de Juninho cobrando falta. O Reizinho mandou a bola na gaveta, resvalando a trave, sem qualquer chance para Kahn. O Bayern buscou o empate oito minutos depois. Numa boa trama, Zé Roberto invadiu a bola pela esquerda e cruzou para Makaay escorar. Mas, no início do segundo tempo, os Gones celebraram o triunfo. Malouda disputou a bola e tocou para Élber. O centroavante passou pela marcação e bateu cruzado diante de Kahn, colocando o Lyon na liderança do grupo.

As duas equipes avançaram aos mata-matas, apesar da disputa apertada com Celtic e Anderlecht. Já na hora da verdade, o Bayern ficou pelas oitavas. Encarou o Real Madrid e sucumbiu com um tento de Zinedine Zidane no Bernabéu. O Lyon passou pela Real Sociedad, com duas vitórias por 1 a 0, mas o sonho acabaria contra o Porto nas quartas. Futuro campeão, o time de Mourinho venceu por 2 a 0 no Estádio do Dragão e segurou o empate por 2 a 2 em Gerland, com Maniche se transformando em salvador. Aquele time dos Gones, em particular, tinha potencial para fazer ainda mais.

Segunda fase de grupos 2000/01

O primeiro Bayern x Lyon aconteceu em uma temporada histórica a ambos os clubes, mas de maneiras bastante distintas. Pela primeira vez, os Gones chegavam à etapa principal da Champions e antecipavam a década inesquecível que viveriam. Os bávaros, enquanto isso, estavam prestes a encerrar o jejum de 25 anos sem conquistar o título continental. Naquela época, a Champions tinha duas fases de grupos. O Lyon passou em sua primeira chave encarando Valencia, Olympiacos e Heerenveen – na segunda colocação, atrás dos espanhóis. O Bayern liderou o grupo que também contava com PSG, Rosenborg e Helsingborg. Na segunda fase, compartilhavam o quadrangular com Arsenal e Spartak Moscou.

No ápice do trabalho de Ottmar Hitzfeld, o Bayern contava com um dos grandes times de sua história. Kahn era o goleiro; Samuel Kuffour e Patrik Andersson lideravam a zaga; o meio contava com a batuta de Stefan Effenberg, além do trabalho de Owen Hargreaves e Jens Jeremies; a ligação ficava por conta de Mehmet Scholl, Hasan Salihamidzic e Paulo Sérgio; já na frente, Élber era o matador. O Lyon era dirigido pelo tarimbado Jacques Santini e montava uma equipe forte. Contava com Coupet no gol, bem como a parceira de Edmílson e Patrick Müller na zaga, além de Cláudio Caçapa como reserva; Marc-Vivien Foé dava equilíbrio na cabeça de área; Vikash Dhorasoo vestia a camisa 10; Sidney Govou despontava como opção a Steve Marlet no ataque; e um dos protagonistas da ascensão era Sonny Anderson – craque, artilheiro e capitão dos Gones naqueles tempos.

O primeiro jogo entre as equipes aconteceu na abertura da segunda fase, no vazio Estádio Olímpico – que recebeu somente 18 mil torcedores. A vitória do Bayern por 1 a 0 se consumou aos dez minutos, a partir de um escanteio cobrado por Effenberg. Jeremies saltou no meio da área e acertou uma potente cabeçada, que ainda acabou desviada antes de entrar e tirou totalmente Coupet. Um resultado que não surpreendia.

Já o reencontro se deu pela quinta rodada, quando o Bayern liderava e estava a um passo da classificação aos mata-matas. Por isso mesmo, o choque em Gerland serviu para os bávaros acordarem: perderam por 3 a 0. O pesadelo atendeu pelo nome de Sidney Govou, com dois gols nos primeiros 21 minutos. O jovem acertou um chute potente para vencer Kahn no primeiro e depois anotou um golaço de fora da área no segundo, mandando a bola na gaveta. Já na segunda etapa, uma jogadaça de Govou mal afastada pela defesa permitiu que Pierre Laigle determinasse um triunfo histórico aos Gones, de quem tinha muitas ambições.

Não foi esta derrota que eliminou o Bayern, com a vitória sobre o Arsenal na última rodada. E o Lyon ficou pelo caminho, após empatar com o Spartak Moscou na Rússia, superado na tabela pelos Gunners somente por causa do confronto direto. Já na reta final, o Bayern provou seu valor: ganhou as duas partidas nas quartas de final contra o Manchester United e também as duas contra o Real Madrid nas semifinais. Após o empate por 1 a 1 nos 120 minutos contra o Valencia, o título seria garantido nos pênaltis por Oliver Kahn. O Lyon, ao menos, ficou com a honra de infligir a maior derrota sobre os futuros campeões continentais.