A seleção haitiana disputa, na Copa América, o seu torneio mais importante em 42 anos. Desde que participou da Copa do Mundo de 1974, o país não havia entrado em uma competição com tantos adversários notáveis. Classificou-se graças aos próprios méritos, batendo Trinidad e Tobago nos playoffs classificatórios. E, para uma nação de cicatrizes abertas, fazer uma grande campanha seria motivo de enorme orgulho para a população. Por isso mesmo, ao final da derrota por 1 a 0 sobre o Peru, a cena protagonizada pelo atacante Kervens Belfort representa tanto.

Por mais que o Peru tenha pressionado durante a maior parte do jogo, o Haiti segurou bravamente os favoritos. E poderia ter buscado o empate nos acréscimos do segundo tempo, na melhor chance criada pela equipe. Belfort, de frente para o gol peruano, acabou cabeceando para fora. Logo caiu em desespero, ao se dar conta do papel de herói que o erro lhe negou.

Na sequência do lance, Belfort já vai de encontro à trave e desaba no gramado. Seu rosto expressa a lamentação. O atacante ainda se levantaria, para os segundos finais da partida. Mas bastou o apito final para voltar a se jogar no chão, face por terra. Aí, não conseguiu mais segurar as lágrimas. Precisou ser consolado pelos companheiros, que tentavam aliviar a culpa que o camisa 9 punha sobre os próprios ombros.

Nascido na cidade de Petit-Goâve, pequeno vilarejo de 12 mil habitantes, Belfort viveu o terror com o terremoto que atingiu o Haiti em janeiro de 2010. “Eu estava treinando em meu clube, o Tempête, quando aconteceu. Do nada, tudo começou a tremer. Eu não sabia o que estava se passando. Só soube depois, através do rádio”, contou, em entrevista à France Football, em 2014. Seu vilarejo foi um dos mais afetados. Enquanto isso, na capital Porto Príncipe, a sede da Federação Haitiana de Futebol desabou e o Estádio Sylvio Cator, casa da seleção, virou abrigo para os desamparados. Mais de 100 mil pessoas morreram, incluindo amigos de Belfort.

Meses depois, Belfort teve a oportunidade de reconstruir sua vida na Europa. Foi levado pelo Le Mans, da França. Depois, ainda rodou por Suíça e Chipre, antes de chegar à Turquia, contratado pelo 1461 Trabzon, seu clube atual. Hoje, aos 24 anos, o atacante é uma das esperanças da seleção haitiana, recheada de jovens valores no futebol europeu. Antes de voos mais altos, porém, eles querem oferecer um motivo para o seu país sorrir, depois de tanto luto. Assim, as lágrimas de Belfort se fazem tão compreensíveis. Tão sentidas.