“Depois de muitas discussões, deliberações e revisão crítica da questão toda, eu cheguei à conclusão que jogar a Copa do Mundo no calor do verão do Catar simplesmente não foi uma coisa responsável a fazer”. Foram as palavras do presidente da Fifa, Joseph Blatter, em entrevista à Inside World Football, falando sobre a escolha do país do Oriente Médio para sediar a Copa do Mundo de 2022. A discussão sobre mudar o período que tradicionalmente é disputada a Copa do Mundo é uma questão que vai além apenas de ajeitar o calendário. É uma enorme disputa política, que pode ter consequências importantes para os envolvidos.

Esse discurso político de Blatter não dá ênfase a um ponto importante: o Comitê Executivo já sabia do problema que seria sediar a Copa do Mundo no verão de um país do Oriente Médio, com temperaturas a mais de 40°C. Por que então o país foi escolhido para sediar o evento, previsto justamente para essa época do ano?

“Esse pode ter sido um erro naquele momento. Por outro lado, você tem que considerar as realidades política e geopolítica. A Copa do Mundo é o maior, se não o único, evento global da Fifa. Quem nós somos, os europeus, para exigir que esse evento tem que se adequar às necessidades de 800 milhões de europeus acima de tudo, quando há mais de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta e destes 6,2 bilhões não são europeus, mas que devem sempre sucumbir a essa vontade?”, disse o dirigente.

“Eu acho que está na hora da Europa começar a entender que nós não mandamos no mundo mais e que alguns antigos impérios europeus não fazem mais valer suas vontades sobre os outros lugares distantes e nós temos que aceitar que o futebol deixou de ser um esporte europeu ou sul-americano. Se tornou um esporte mundial que bilhões de torcedores estão acompanhando empolgados a cada semana, em qualquer lugar do mundo”, analisou o suíço.

Se não em junho e julho, quando?

Blatter defende a Copa no fim do ano, ao invés do meio, quando é inverno no Catar. Só que as implicações disso, especialmente na Europa, que tem o calendário agosto/maio, são enormes. Clubes já sinalizaram que podem aceitar, ainda que relutantes, mas as ligas querem ser ouvidas. Um discurso essencialmente político, mas pouco prático. Blatter não quer que a Fifa seja responsável por uma consequência negativa, seja ela mudar o período de realização da Copa, seja tirar o evento do Catar. Por isso esse discurso culpando a Europa e invertendo a culpa. Foi a Fifa e seus representantes que escolheram colocar a Copa do Mundo lá. Agora, a mudança do calendário para a realização de um torneio em outubro ou novembro seria para lá de complicada, mas é a única forma de ele ser jogado no Catar.

O presidente da Fifa irá consultar o Comitê Executivo na reunião dos dias 3 e 4 de outubro. Se o Comitê Executivo aceitar, a proposta da Copa do Mundo no inverno do Catar será feita às federações no Congresso da Fifa. “Os passos incluem olhar de perto o calendário internacional e estabelecer quais as consequências que teriam. E nós naturalmente precisaríamos falar e consultar todos os interessados na mudança”, explicou Blatter.

Há um problema adicional. Não se sabe bem quando isso poderia acontecer. Em janeiro, por exemplo, seria impossível jogar uma Copa porque é o período que é disputada a Olimpíada de inverno. Seria possível fazer a Copa em dezembro ou em fevereiro? Se falou também sobre jogar em outubro ou novembro. E, com isso, parar a temporada europeia por pouco mais de um mês. Em vez de acabar a temporada em maio de 2023, acabaria em junho.

O problema é que a Copa não exige só um mês, que é o tempo de realização do torneio. É preciso liberar os jogadores antes para a preparação, os amistosos, a ambientação. São quase dois meses. E escolher esse período é complicado.  Se a Copa for em novembro, por exemplo, em outubro os campeonatos teriam que ser parados. Depois, em dezembro, seria possível retomar os campeonatos nacionais e torneios continentais? O quanto isso implicaria em um calendário mais extenso?

Talvez fosse necessário ter mais jogos em menos tempo para acabar a temporada no fim de junho e dar férias aos jogadores em julho e retomar as atividades em agosto, já em cima do início da nova temporada. Em um calendário como o Brasileiro, que segue o ano solar, seria necessário acelerar o Brasileiro para ser definido no início de outubro para poder liberar os jogadores. Teria que fazer o mesmo com a Copa do Brasil.

O calendário teria que ser esmagado para caber. Uma ginástica no calendário que já precisa ser feita em anos de Copa do Mundo por aqui, ou, como o Brasil foi sede, esse ano na Copa das Confederações. É verdade que a CBF, por ser incompetente, e os clubes, por serem dependentes, não fazem nada para melhorar isso. No caso do calendário em outros lugares, especialmente na Europa, possivelmente a questão seria tratada um pouco mais racionalmente. E não porque os dirigentes lá são muito melhores, mas porque os clubes exercem o seu poder de veto com mais intensidade.

A posição dos clubes e ligas será fundamental

Quando Blatter fala em consultar todos os lados, ele não está falando apenas das confederações continentais, mas também dos clubes e das ligas. Esse é um ponto fundamental para uma ideia de Copa do Mundo em outra época do ano vingar. Sem os clubes e sem as ligas, será impossível fazer a mudança acontecer – e falamos especialmente dos clubes e ligas europeias, que possuem mais força política e financeira e onde a maioria dos melhores jogadores do mundo está. Na verdade, vai além disso: cerca de 70% dos jogadores que estiveram na Copa do Mundo de 2010 jogavam na Europa, segundo levantamento do blog Dirty Tackle.

Um dos argumentos de Blatter é que os documentos assinados pelos países que se candidataram a receber a Copa diz que o torneio será realizado em junho e julho “em princípio”. Que isso implica que não é obrigatória a realização do evento nesses meses. Só que a mudança exige um processo de muitas decisões com todos os envolvidos. E, ao que parece, as dificuldades serão enormes. Clubes e ligas nacionais europeias se manifestaram e deixaram isso bem claro.

“É provavelmente melhor jogar no inverno. Nós não temos pressa, ainda faltam nove anos”, disse o presidente da Associação Europeia de Clubes (ECA), Karl-Heinz Rummenigge. Vale lembrar que a ECA representa os clubes europeus, o que significa muito.

Para Rummenigge, que também é dirigente do Bayern Munique, escolher o Catar como sede não foi um erro. “Ter uma Copa do Mundo no Catar não é um erro. Depois de visitar o Catar na nossa última assembleia geral, nós tivemos uma boa sensação sobre a organização da Copa lá”, afirmou ainda o dirigente. Só que o presidente da Premier League, Greg Dyke, já disse que mudar o calendário para que a Copa de 2022 seja realizada no inverno europeu, no fim do ano, “é impossível”.

A associação das ligas profissionais da Europa, EPFL, mostrou uma posição reticente em relação à mudança da Copa para o inverno. A EPFL reúne as ligas nacionais europeias e, claro, essas seriam as mais prejudicadas caso a mudança do período da Copa acontecesse e fez questão de ressaltar que a questão é complexa e muito séria.

“A EPFL é uma força construtiva sem preconceitos com as decisões que sejam do melhores interesse de todos os envolvidos (Fifa, Uefa, associações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores) e do futebol em geral”, diz o comunicado emitido pela associação. “Nesse contexto, a EPFL gentilmente requisita que a Fifa e os membros do Comitê Executivo que antes de qualquer decisão ser tomada em relação ao calendário internacional, incluindo como uma das questões a possível remarcação da Copa do Mundo de 2022, seja realizada uma avaliação minuciosa e um processo de consulta adequado seja promovido com todos os envolvidos, incluindo a EPFL”, informa ainda a entidade.

O risco que corre Platini

A questão da Copa de 2022 pode ainda gerar um grande problema político para todos os envolvidos. Michel Platini é um dos que tem mais a perder com essa confusão. Isso porque o francês deu todo apoio à candidatura do Catar e, ao mesmo tempo, é presidente da Uefa, provavelmente a entidade mais contrária à decisão de mudar a Copa do Mundo para o inverno e quebrar o calendário no meio. Considerando o cenário atual, a Copa só ficará no Catar se for jogada no inverno.

Resumindo em miúdos: se Platini defender que a Copa tem que ser realizada no Catar e no inverno, entrará em conflito com os interesses das entidades que ele mesmo representa. No mínimo, terá muito trabalho para convencer as associações filiadas que essa é uma boa ideia, tanto do ponto de vista técnico quanto econômico. Se, por outro lado, ele não agir para defender a candidatura do país do Oriente Médio, irá criar um problema com os catarianos, que, por sua vez, possuem apoio de muita gente na Ásia – algo ruim para quem pensa em concorrer a presidente da Fifa em 2015. Isso sem nem falar da possibilidade de revelações de escândalos – Platini tem um envolvimento para lá de suspeito com o Catar.

Para Blatter, o prejuízo não será grande, porque ele está trabalhando para que a culpa do que vier a acontecer não seja dele ou do Comitê Executivo, mas de outras entidades. Se a Copa for realizada no Catar no inverno, mostrará uma força política e de articulação que fará com que ele, ou quem ele apoiar na eleição de 2015, tenha grandes chances de vencer. Por outro lado, se a situação ficar insustentável e a Copa tiver que ser retirada do Catar, ele irá mostrar que tentou fazer tudo para impedir.

O cenário só se complica para o suíço caso um escândalo de compra de votos volte a surgir. Nesse caso, a imagem de Blatter pode se arranhar de forma irreparável, mesmo que ele, diretamente, não esteja ligado ao esquema.

De qualquer forma, a Copa de 2022 pode estar a nove anos de distância, mas já começou nos bastidores.