Construir um estádio de futebol suntuoso naquele terreno espremido em La Boca era um verdadeiro desafio arquitetônico. O Boca Juniors pretendia erguer seu templo na década de 1930, mas o espaço de 21 mil metros quadrados não ajudava os projetos mais nababescos da época. A solução viria à mente de maneira casual, durante um encontro com a esposa. Arquiteto responsável por imaginar a nova cancha, Victor Sulcic teve a visão quando sua mulher ganhou de uma amiga uma caixa de bombons com diferentes andares. O estádio, então, poderia ter diferentes lances de arquibancadas sobrepostos. Assim foi concebida e batizada La Bombonera.

A ideia de construir um “novo estádio de cimento” ao Boca Juniors surgiu em 1931, quando o time atuava no chamado Estádio Brandsen y Del Crucero – no mesmo terreno e com tribunas de madeira. Três anos depois, Sulcic apresentou seu projeto, considerado revolucionário para a época. Segundo o engenheiro José Luis Delfini, parceiro do arquiteto esloveno no planejamento, o estádio ideal precisou ser moldado dentro da diminuta área disponível. Assim, as bandejas das arquibancadas superariam os próprios limites do terreno e invadiriam a rua pelo alto. Seria um novo tipo de estrutura a ser repetida por outros estádios.

As obras começaram em 1938. Já em 25 de maio de 1940, o Boca Juniors inaugurou sua nova casa, desde já chamada de Bombonera – diante da inspiração de Sulcic. Os xeneizes entraram em campo para enfrentar o San Lorenzo, em amistoso. Ricardo Alarcón anotou o primeiro gol, e seria também dele o primeiro tento em um jogo oficial. Na época, um dos setores tinha apenas um lance das arquibancadas, enquanto outros dois já contavam com duas bandejas – além do trecho “murado”, com palcos menores, em uma das laterais.

A Bombonera ganhou ares míticos em seus primeiros meses. O Boca Juniors emendou 13 vitórias consecutivas no estádio e, em dezembro de 1940, comemorou seu primeiro título do Campeonato Argentino na nova casa. A conclusão das obras levaria mais um tempo e seria finalizada apenas em 1953, com as três bandejas de arquibancadas. No mesmo período, os refletores foram adicionados. Dizia-se que nesta época, bem espremidos, até 86 mil torcedores poderiam caber na caixa de bombons gigante.

O Boca Juniors começou a construir sua história vitoriosa na Copa Libertadores dentro desta Bombonera. Num dia abarrotado, viu o Santos de Pelé triunfar na decisão em 1963. Daria a volta por cima em 1977 e 1978, com o bicampeonato diante de Cruzeiro e Deportivo Cali. Já em 1996, o estádio passou por uma reforma ampla. Surgiram os camarotes, que presenciariam a consagração dos timaços de Carlos Bianchi, que aplaudiriam Juan Román Riquelme e Martín Palermo, que veriam uma dinastia se erigir nos torneios continentais.

Difícil escolher outro estádio que represente melhor o espírito do futebol argentino (e sul-americano) que a Bombonera em uma noite pulsante de Libertadores. O imaginário prevalece sobre um estádio que não se cala, sobre uma torcida que faz as estruturas balançarem, sobre a avalanche que provoca tremores de terra a cada gol. Oitenta anos depois dos primeiros chutes, a mística se renova. E pensar que uma caixa de bombons motivaria tantos sonhos e tantos pesadelos ao longo destas últimas oito décadas.

Abaixo, três vídeos com imagens históricas, que recontam o passado e a evolução da Bombonera: