Cruzeiro e Palmeiras se reencontram pela Copa do Brasil nesta quarta-feira. Há pouco mais de um ano, em dois empates intensos, a Raposa eliminou os palestrinos e encaminhou sua presença nas semifinais do torneio, terminando a campanha com a taça. Os episódios mais emblemáticos entre os clubes na competição, entretanto, aconteceram há mais de 20 anos. Foram duas finais decididas por cruzeirenses e palmeirenses, entre 1996 e 1998. Ambos os títulos serviram de prefácio a histórias mais gloriosas nas temporadas seguintes, com as duas equipes usando a Copa do Brasil como trampolim para faturar a Libertadores. Mas que, além disso, marcam certa rixa entre celestes e alviverdes naquele período.

O começo dessa história acontece na decisão da Copa do Brasil de 1996. Sob as ordens de Vanderlei Luxemburgo, o Palmeiras seguia vivendo os anos abastados com o dinheiro da Parmalat e tinha um elenco estrelado – protagonizado por Rivaldo, Djalminha, Cafu e Luizão naquelas finais. A campanha empolgava, após superarem Sergipe, Atlético Mineiro, Paraná e Grêmio. Já o time do Cruzeiro, se não possuía tanta badalação, ao menos contava com seus ídolos e demonstraria em várias oportunidades o seu espírito copeiro. Palhinha, Ricardinho, Marcelo Ramos e Cleison estavam entre os jogadores da equipe de Levir Culpi. O grande diferencial naqueles embates, entretanto, vestia a camisa 1: Dida, grande nome das conquistas cruzeirenses no período. Nas etapas anteriores, os mineiros haviam passado por Juventus-AC, Vasco, Corinthians e Flamengo.

O primeiro jogo aconteceu no Mineirão, diante de quase 70 mil torcedores. O Palmeiras precisava lidar com os desfalques de Cafu, Flávio Conceição e Djalminha, além de Muller, que tinha sido vendido ao São Paulo dias antes. Só que a força máxima do Cruzeiro não garantiu a vitória. Regidos por Rivaldo, os alviverdes dominaram o primeiro tempo. Cláudio abriu o placar em bela cobrança de falta aos 11 minutos, enquanto Dida acumulava grandes defesas. A falta de atitude dos anfitriões irritava a torcida cruzeirense, que passou a cobrar mais “raça” – o que se viu a partir da etapa complementar. A entrada de Roberto Gaúcho ajudou o time e seria ele um dos responsáveis pelo empate, acertando cruzamento na cabeça de Marcelo Ramos, aos 16 minutos. Na reta final, uma boa chance para cada lado, com Palhinha errando o alvo aos mineiros e Dida crescendo diante de Reinaldo.

O empate por 1 a 1 criou certo oba-oba para o jogo de volta. Na Folha de S. Paulo do dia seguinte, o Palmeiras até começa a mirar os reforços pensando na Libertadores de 1997, como se o reencontro com o Cruzeiro fosse protocolar. De fato, Luxemburgo pôde escalar uma equipe bem mais forte em São Paulo, com os retornos de Cafu e Djalminha – mas Rivaldo indo para o sacrifício, ao sentir dores na virilha durante as vésperas da partida. O Cruzeiro, de qualquer forma, não se amedrontava. A nova aposta de Levir Culpi era o próprio Roberto Gaúcho, que compôs o trio de ataque titular ao lado de Cleison e Marcelo Ramos, depois que Uéslei se contundiu às vésperas da finalíssima.

Quase 30 mil encheram as arquibancadas do Parque Antárctica para assistir a uma virada histórica – do Cruzeiro. O Palmeiras começou a partida pressionando e abriu o placar com um golaço, graças à genialidade de Djalminha. Após lançamento de Júnior, o craque deu um tapa de primeira no alto, com o calcanhar, aproveitando a passagem de Rivaldo na ponta esquerda. Então, veio o cruzamento na medida para Luizão mandar para dentro, logo aos cinco minutos. Já ouviam-se os primeiros gritos precoces de “é campeão”. No entanto, a Raposa reagiu bem ao gol. Passou a dominar e chegaria ao empate aos 25 minutos. Após cobrança de escanteio, Amaral e Palhinha se enroscaram na linha de fundo com a bola, que sobrou limpa para Roberto Gaúcho chutar no canto de Velloso. Antes do intervalo, os palmeirenses ainda ficaram mais próximos do segundo tento. Dida espalmou falta cobrada de Djalminha e, na sequência de uma saída errada do goleiro, Célio Lúcio salvou em cima da linha.

Na volta para o segundo tempo, Luxemburgo reforçou o ataque do Palmeiras com a entrada de Reinaldo. E o que se viu foi um bombardeio palestrino no Parque Antárctica. Fabinho salvou mais um lance em cima da linha, enquanto Dida operou três milagres inacreditáveis antes dos 20 minutos. Enquanto isso, Velloso também trabalhou, com grande defesa em chute por cobertura de Palhinha. O domínio era alviverde, embora os celestes conseguissem se segurar como podiam. Até que, aos 36 minutos, o lance decisivo aconteceu. Roberto Gaúcho avançou pela esquerda e cruzou em direção à pequena área. Velloso deixou a bola escapar e, com a meta escancarada, Marcelo Ramos não perdoou a falha. Ao final, coube aos mineiros administrarem a vantagem, diante dos últimos suspiros palmeirenses. Vitória épica por 2 a 1. Era o segundo título do clube na Copa do Brasil e o bilhete premiado para conquistarem a Libertadores em 1997, com novas atuações fabulosas de Dida.

A revanche do Palmeiras aconteceu em 1998. Muita coisa havia mudado neste intervalo, aliás. As principais estrelas do esquadrão de 1996 deixaram o Parque Antárctica, embora a Parmalat não tenha deixado de investir pesado no elenco, treinado por Felipão. Velloso, Clébão, Júnior e Galeano eram os remanescentes, enquanto os alviverdes ganharam nomes como Arce, Oséas, Paulo Nunes, Zinho e Alex. No caminho até a final, superaram Ceará, Botafogo, Sport e Santos. O Cruzeiro, por sua vez, contava com o retorno de Levir Culpi, após Paulo Autori dirigir o time no título da Libertadores. Mantinha parte da base que conquistou os dois mata-matas nas temporadas anteriores, com Marcelo Ramos e Ricardinho liderando o grupo. A defesa contava com a tarimbada dupla formada por Wilson Gottardo e Marcelo Dijan, e Fábio Júnior despontava no ataque. Equipe competitiva que despachou times fortes de Vasco e Corinthians nas fases prévias, além de Amapá e Vitória.

Só havia um grande porém para aquelas finais da Copa do Brasil. As partidas aconteceram no final de maio, quando a seleção brasileira já tinha iniciado sua preparação à Copa do Mundo de 1998. O Palmeiras não teve atletas chamados por Zagallo. Problema maior ao Cruzeiro: o ausente era justamente Dida, que elevou muito seu moral com as atuações espetaculares pelo clube e era um dos reservas de Taffarel no Mundial da França. Assim, sem o craque de luvas, os cruzeirenses tiveram que se virar com o experiente Paulo César em sua meta. Faria toda a diferença – pelo lado negativo da coisa.

Dentro do Mineirão em ebulição, ocupado por 64 mil torcedores, o Cruzeiro conseguiu se impor no jogo de ida e largou em vantagem graças à vitória por 1 a 0. O primeiro tempo foi dominado pela Raposa. Fábio Júnior anotou o gol decisivo aos 25 minutos, completando de cabeça o cruzamento de Marcelo Ramos. O jovem atacante sequer seria escalado, virando uma boa cartada de Levir Culpi dez minutos antes da partida. Além disso, Velloso se tornava outro personagem importante. Completando 400 jogos pelo clube, fez três boas defesas para evitar uma diferença maior. O Palmeiras, que tinha se fechado na defesa durante os 45 minutos iniciais, passou a sair ao ataque. Alex entrou no lugar de Darci e ajudou na organização. Faltou ao time criar chances de gol mais claras para concretizar o empate.

O jogo de volta aconteceu quatro dias depois, no sábado, dentro do Morumbi. O Cruzeiro não contava com Fábio Júnior, suspenso, dando lugar a Elivélton. Já o Palmeiras tinha a volta de Roque Júnior para a zaga, mas perdia Arce, outro que se juntava à sua seleção para a disputa da Copa de 1998. Alex, por sua vez, se tornava titular no meio-campo. Acreditando na reação, mais de 45 mil torcedores palmeirenses lotaram as arquibancadas e terminaram o final de semana comemorando uma reação apoteótica do time de Felipão, em seu primeiro título à frente do clube.

O Palmeiras abriu o placar logo aos 12 minutos. Roque Júnior lançou Oséas na ponta direita. O centroavante ganhou de Gottardo na corrida e cruzou na medida para Paulo Nunes desviar dentro da área. Já era uma vantagem importante para tranquilizar os alviverdes, diante do que ocorrera no Mineirão. Oséas, aliás, protagonizava o domínio do Palmeiras durante o primeiro tempo. O baiano era a principal referência do time e ia criando chances de gol, embora sem o mesmo sucesso nas conclusões.

Já no segundo tempo, o Cruzeiro reagiu e teve algumas boas oportunidades para empatar, que não aproveitou. A decisão parecia se encaminhar aos pênaltis quando, a um minuto do fim do tempo regulamentar, aconteceu o gol que decretou a vitória por 2 a 0. Zinho cobrou falta de muito longe, com força, mas sem muita direção. Paulo César deveria apenas encaixar a bola, num movimento simples, e deixou a redonda escapar. Mesmo sem ângulo, o oportunista Oséas apareceu para aproveitar o rebote e soltou um foguete, que estufou a parte superior da rede. Bela redenção ao artilheiro, vilanizado pelo gol contra diante do Corinthians no Paulistão, e que acabaria se tornando herói nas conquistas posteriores dos palmeirenses. A taça da Copa do Brasil já era uma excelente recompensa ao matador.

Curiosamente, Palmeiras e Cruzeiro compartilharam outras grandes histórias até o final de 1998. Em reformulação após o vice-campeonato, a Raposa ganhou Muller, Valdo e Djair ao seu meio-campo, eliminando os alviverdes nas quartas de final do Brasileirão. Já em dezembro, um gol de Arce valeu aos palmeirenses a conquista da Copa Mercosul, em decisão contra os celestes. Apenas uma prévia do grande troféu continental do time de Felipão: a Libertadores em 1999.


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