Desde o último sábado, até a véspera da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Neste sábado, a oitava parte, sobre a Copa de 1994. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

Em 1994, mesmo que fossem o país-sede da Copa, havia muito para os Estados Unidos conhecerem sobre futebol – talvez, nem quisessem isso. De certa forma, as transmissões pensadas pela ABC (que comprou da Fifa os direitos por 75 milhões de dólares) também refletiam isso. Com o começo da Copa, nas escalações antes dos jogos, a ordem era numérica, não posicional, o que atrapalhou um pouco os narradores brasileiros.

No decorrer do torneio, as coisas foram melhorando. E o que atrapalhava passou a ajudar: além de terem as escalações facilitadas, quem cobriu a Copa pela televisão tinha acesso a aparições mais frequentes do tempo de jogo na tela – por obra e graça dos norte-americanos, totalmente acostumados a saberem o que o cronômetro dizia nas transmissões de NBA e NFL. Para terminar, pela primeira vez, as Copas tinham microcâmeras: colocadas proximamente aos gols, possibilitavam imagens mais próximas.

Além do mais, se a situação financeira brasileira não era rósea – estava em compasso de espera, com a URV (Unidade Real de Valor) fazendo a transição entre cruzeiro real e real -, estava bem melhor do que em 1990. Assim, as emissoras brasileiras puderam pagar mais e investir mais na Copa: cada uma pagou cerca de US$ 3 milhões à OTI, possuidora dos direitos televisivos das Copas até 1998. E o Mundial foi visto aqui em três canais.

Poderia ter sido em quatro, mas àquela altura, a TV Manchete já era afligida pela gravíssima crise econômica. Os investimentos haviam começado a rarear ainda sob o comando de Adolpho Bloch, entre 1990 e 1991 – e a mudança de dono, que visava tornar a administração da emissora carioca profissional, só piorou as coisas: sob Hamilton Lucas de Oliveira, dono da IBF Formulários, não só as dívidas antigas e salários atrasados seguiram, como outros débitos vieram. Com greve de funcionários e até interrupção do sinal, Adolpho Bloch voltou a comandar em 1993 o que nunca deixara de ser seu – até porque Hamilton Lucas sequer terminara de pagar a compra da emissora.

Em meio a esse caos, a Manchete ainda se segurava no esporte: graças à Sport Promotion, produtora que José Francisco Coelho Leal montara após desfazer a sociedade com Luciano do Valle, a cobertura do Campeonato Paulista fizera sucesso em 1992 e 1993, com Osmar Santos recebendo (e aproveitando bem) o destaque na narração e apresentação. De quebra, a equipe liderada por Osmar – contando com profissionais como o repórter Osvaldo Pascoal – ainda transmitiu as Eliminatórias da Copa de 1994. E em 1993, começavam as transmissões da Fórmula Indy, após vários anos de Bandeirantes. Mas faltou pagar uma única parcela dos direitos de transmissão da Copa à OTI, como este vídeo institucional informava. Por isso, e só por isso, a Manchete ficou fora da Copa de 1994.

Tristeza maior ainda porque Osmar Santos (que narrou a Copa na Rádio Globo paulista, para a qual voltara em 1991) não teria muito tempo mais na tevê. Um gravíssimo acidente automobilístico, na região da cidade paulista de Getulina, na noite chuvosa de 22 de dezembro de 1994, lhe causou o rompimento da artéria temporal e a perda de massa encefálica (justamente na Área de Broca, a região do cérebro responsável pela fala, atingida por uma haste da porta do BMW que guiava). Estava forçosamente encerrada a carreira de um dos grandes narradores da história do rádio brasileiro -mas não sua vida: felizmente, após a recuperação, mesmo com a fala prejudicada e o lado direito do corpo paralisado, Osmar se reabilitou a ponto de circular socialmente desenvolto, e de seguir como “patrono vitalício” da equipe de esportes da Rádio Globo paulista. Ficou o pensamento sobre o que poderia ter sido o desenvolvimento na televisão, com a evolução que Osmar vivenciava na Manchete.

E como já dito, ficaram três para contar a história do quarto título mundial brasileiro na televisão.


Vinheta de abertura das transmissões do SBT na Copa de 1994

SBT

Narração: Luiz Alfredo, Osmar de Oliveira e Carlos Valadares
Comentários: Telê Santana, Orlando Duarte e Carlos Alberto Torres
Reportagens: Luiz Ceará, Antônio Petrin, Arnaldo Duran e José Eduardo Savóia
Apresentações: Sérgio Ewerton

Tudo mudara no esporte do SBT – para tudo permanecer igual na Copa de 1994. Após o “empréstimo” para as Eliminatórias e a Copa de 1990, Luiz Alfredo retornara à TV Globo ainda em 1990. Reestreara na “Vênus Platinada” no mesmo ano, com a Corrida de São Silvestre. Em 1992, com a ausência de Galvão Bueno, Luiz teve grande destaque: narrou a maior parte da temporada da Fórmula 1, a medalha de ouro da Seleção de Vôlei Masculino nos Jogos Olímpicos de Barcelona, e os títulos paulista e mundial do São Paulo no futebol. Só que Galvão voltou em 1993. Com Oliveira Andrade e Cléber Machado também narrando, Luiz Alfredo ficou sem muito espaço, embora ainda narrasse alguns eventos esportivos na Globo (foi dele a voz da final da Liga dos Campeões, entre Olympique de Marselha e Milan). Então, no início de 1994, novamente convidado pelos Luciano Callegari – pai e filho – que dirigiam o SBT, o filho de Geraldo José de Almeida voltou ao canal paulistano, no qual narraria as principais partidas da Copa.

A mesma coisa aconteceu com Orlando Duarte, comentarista das partidas principais pelo SBT em 1990: após seguir atuando independentemente, sendo até convidado pela TV Globo nas transmissões de lutas de boxe, entre 1992 e 1993, e nas finais das copas europeias (apenas em 1993), o veterano jornalista também retornou ao SBT, já para as Eliminatórias – e para mais uma Copa comentando ao lado de Luiz Alfredo. A mesma coisa aconteceria com Telê Santana, que também estaria pelo canal nos jogos mais importantes e nas partidas da Seleção Brasileira, como havia quatro anos. Mas numa situação diferente: se em 1990 Telê comentou apenas a fase de grupos in loco para depois se alternar entre os treinos no Palmeiras e os comentários dos estúdios em São Paulo, em 1994 o treinador mineiro já estava com o nome bem marcado na história do São Paulo – e faria toda a Copa ao lado de Luiz Alfredo e Orlando Duarte nos Estados Unidos. Empolgado, o SBT produziu marcante música para incentivar a Seleção. E chegou a exibir amistosos altamente alternativos antes da Copa, como Grécia 0x0 Bolívia e Colômbia 2×1 Milan.

Da esquerda para a direita, Telê Santana, Osmar de Oliveira e Luiz Alfredo numa edição do “Resumo da Copa” do SBT (Reprodução)

Enquanto o trio Luiz-Orlando-Telê acompanhava a Seleção Brasileira, junto dos repórteres Luiz Ceará e José Eduardo Savóia (e do cinegrafista Javier Malavasi – o SBT tinha câmeras exclusivas nos jogos brasileiros), cabia a Osmar de Oliveira, diretor de esportes da emissora e narrador das partidas da Seleção nas Eliminatórias durante 1993, narrar as outras partidas, tendo a seu lado Carlos Alberto Torres. O “Capita” também seria o comentarista dos jogos que tivessem a locução de Carlos Valladares. Arnaldo Duran seguia as outras seleções nas reportagens – até apareceu indiretamente em “Todos os corações do mundo”, filme oficial daquela Copa, tentando ouvir Diego Maradona após sua exclusão da Copa. Finalmente, caberia a Osmar de Oliveira mediar o “Resumo da Copa”, dos estúdios do SBT no centro internacional de imprensa em Dallas, com Carlos Alberto Torres junto a ele – e Luiz Alfredo, Orlando Duarte e Telê onde o Brasil estivesse. A mesa redonda noturna tinha quadros como notas, dadas aos jogadores da Seleção pela equipe de transmissão, e o “Fala, Parreira”, com declarações do técnico nas entrevistas coletivas.


Trecho do “Resumo da Copa” de 16 de julho de 1994, na véspera da final da Copa

Se os personagens principais da cobertura do SBT para 1990 haviam voltado em 1994, era óbvio que o “Amarelinho” voltaria. E a carismática mascote da emissora, já presente nos jogos das Eliminatórias, também esteve em 1994. “Comportava-se” do mesmo jeito durante as partidas do Brasil: suspirando em gols perdidos, chorando com os gols sofridos, balançando bandeiras nos gols marcados, interagindo com Luiz Alfredo. O “Amarelinho” já era um chamariz do SBT, de certa forma. A ponto da emissora organizar um sorteio, nos intervalos apresentados por Sérgio Ewerton ou Marcelo Guimarães, do Brasil e na sequência da programação: era o “Amarelinho na Copa”. O telespectador tinha de anotar quantas vezes a mascote aparecera na transmissão da Seleção, enviá-la ao SBT, e esperar para ser sorteado – caso o fosse, ganhava prêmios dos patrocinadores da cobertura.


O sorteio do “Amarelinho na Copa”, no 17 de julho de 1994 da final da Copa, mediado por Sérgio Ewerton. Postado por Fábio Marckezini

Mas a equipe de 80 pessoas enviada pelo SBT aos Estados Unidos tinha duas frentes. Se as 51 pessoas coordenadas por Luciano Callegari Jr. se dedicavam à cobertura propriamente dita da Copa (37 jogos ao vivo, 15 em VTs noturnos), outras 29, chefiadas por Willem van Weerelt, produziam outro chamariz de audiência do canal de Silvio Santos. O “Jô Soares Onze e Meia” vivia um dos melhores momentos dos 11 anos em que esteve no SBT. Com suporte publicitário da Brahma Chopp, Jô Soares pôde ir aos Estados Unidos, para o “Jô na Copa”. Dirigido pelo velho conhecido Willem, o artista carioca fazia as típicas entrevistas e as típicas brincadeiras, de um estúdio no Hollywood Center Studios, em Los Angeles. Num dos dias, Jô organizava um debate, com convidados e um grupo fixo de jornalistas que também acompanhavam a Copa: Roberto Benevides (de “O Estado de S. Paulo”), Sérgio Noronha (do “Jornal do Brasil”), Matinas Suzuki Jr. (da “Folha de S. Paulo”) e Fernando Calazans (d'”O Globo”).


Trecho do debate do “Jô na Copa”, com os jornalistas citados, mais os convidados Nelson Motta, Jairzinho e Alberto Helena Jr.

Assim, seguiu a transmissão do SBT até a final. O sagaz lema das campanhas publicitárias do canal mostrava a falta de pretensão em perturbar a líder Globo: “Veja o Brasil ser campeão no vice”. As críticas previsíveis a Parreira eram ouvidas nos programas – e estendidas à comissão técnica: no vídeo acima do “Resumo da Copa”, Luiz Alfredo chegava a bater três vezes na mesa, para “isolar” a Seleção da hipótese (depois confirmada) de Zagallo suceder o treinador da Copa.

Porém, todos ficaram nervosos na final no Rose Bowl – após o 0 a 0 dos 120 minutos, Orlando Duarte repetiu sua costumeira oposição às decisões por pênaltis. Mas bastou Roberto Baggio perder a cobrança decisiva, para a festa empolgar o SBT. Até mesmo Telê Santana, bastião de ofensividade, se rendeu: “Se fizemos algumas críticas, é porque não andava bem o conjunto. Mas sempre disse que o Brasil era melhor, e não merecia perder nos pênaltis. (…) Merecidamente, ganhamos mais um título mundial”. E enquanto o Amarelinho levantava a Taça Fifa para comemorar, Luiz Alfredo pôde enfim fazer bonita homenagem pública em família, lembrando o pai que narrara o título de 1970 no pool para homenagear a mãe, Consuelo Viegas: “Minha velha, o ‘Gera’ narrou o tri e eu narrei o tetra, minha gente! Homenagem a você, minha velha!”. Começava muito bem a fase de maior investimento do SBT em esportes, entre 1994 e 1998.


Aparições de Amarelinho, num compacto da final da Copa de 1994, no SBT. Postado no YouTube por Fábio Marckezini

Anúncio de jornal da TV Bandeirantes para a Copa de 1994 (Reprodução/Thiago Uberreich)

Bandeirantes

Narração: Luciano do Valle, Sílvio Luiz, Jota Júnior e Marco Antônio Mattos
Comentários: Rivellino, Tostão, Juarez Soares, Gérson, Júlio Mazzei, Mário Sérgio e Armando Nogueira
Reportagens: Eli Coimbra, Gilson Ribeiro, Octávio Muniz, José Luiz Datena, Silvia Vinhas, Maria do Carmo Fúlfaro e Luciano Júnior
Apresentações: Elia Júnior, Simone Mello, Cléo Brandão e Alessandra do Valle

Pelo menos naquela primeira metade da década de 1990, a Bandeirantes seguiu imperturbável como “o canal do esporte”. Tinha em Luciano do Valle o seu chefe – e um dos narradores principais. Tinha em Silvio Luiz um chamariz de audiência tão forte quanto Luciano. Tinha comentaristas respeitados: Juarez Soares, Rivellino, Mário Sérgio (que se licenciara em 1993 para os seis meses treinando o Corinthians), Gérson (contratado em 1991 para a transmissão exclusiva do Campeonato Carioca, marcava com bordões como “é brincadeira”). Seguia com horas e mais horas de programação: o “Show do Esporte”, o “Esporte Total” e a “Faixa Nobre do Esporte”, duas horas noturnas para exibição de transmissões. Nas apresentações, a dupla Elia Júnior e Simone Mello marcava época – foi por volta de 1992, por exemplo, que surgiu o “é pá e bola” com que Elia anunciava o intervalo. E na Copa de 1994, voltaria com outro programa marcante de quatro anos antes: o “Apito Final” – sem Toquinho, mas ainda com Zico, participando do Rio de Janeiro, e Júlio Mazzei, nos Estados Unidos.


Vinheta de abertura das transmissões da TV Bandeirantes para a Copa de 1994

Como se não bastasse tal tradição, a emissora paulista chegou para o Mundial trazendo duas novidades notáveis. Uma delas voltava à televisão: após a turbulenta saída da direção de jornalismo da TV Globo em 1990, Armando Nogueira era reabilitado por Luciano do Valle, para participar das transmissões dos jogos do Brasil e dos debates do “Apito Final”. A outra praticamente voltava às aparições públicas, mais de 20 anos após ser forçado a encerrar a carreira de jogador. Desde 1973, então, Eduardo Gonçalves de Andrade se focara na formação em Medicina, atuando em hospitais de Belo Horizonte e deixando o futebol como assunto secundário em sua vida – não o odiava, como chegou a se falar, mas não se envolvia com ele. Entrevistado pela revista “Placar” em 1984, foi cogitado pela Manchete para comentar a Copa de 1986, mas a conversa não avançou. Só que a volta ao futebol já o rondava. Em 1990, ele acompanhou um grupo de turistas nos jogos da Seleção na Itália. Finalmente, em 1994, Luciano do Valle o convidou, e ele aceitou: Tostão voltava a circular definitivamente no futebol como a grande novidade da Bandeirantes, nos comentários de jogos e também no “Apito Final”.


Trecho do “Apito Final” em 1994

De resto, a cobertura da Bandeirantes seguiu o costume daqueles tempos sob Luciano do Valle: esbanjava recursos. Foram 82 pessoas se alternando entre Dallas, Los Angeles e San Francisco, numa cobertura que começava com o “Esporte Total”, às 12h, antes do primeiro jogo do dia, e seguia até o encerramento do “Apito Final” diário, à meia-noite de Brasília. Com Luciano e Silvio Luiz nas partidas principais, Jota Júnior e Marco Antônio cuidavam dos jogos secundários. Como única emissora a mostrar todos os 52 jogos da Copa – 46 ao vivo, seis em VTs posteriores -, a Band (que começou naquela cobertura a se intitular assim) se ligou ao torneio até mesmo em dias sem jogo, quando os programas exibiam compactos das partidas ocorridas antes. Quando as partidas eram da Seleção Brasileira, então, repórteres como José Luiz Datena (que também seguiu com seu bem humorado “Repórter Surpresa” no “Apito Final”) e Eli Coimbra – este, de volta desde 1991, após ficar de fora em 1990 e ter rápida passagem pela Manchete – acompanhavam o ônibus da delegação brasileira desde a saída do hotel.


Os gols da Seleção Brasileira na fase de grupos da Copa de 1994, na transmissão da TV Bandeirantes

Se não fosse assim, talvez até aumentasse a forte impressão que a cobertura da Bandeirantes deixou naquela Copa: a de constante oposição ao nível técnico das atuações da Seleção Brasileira, como uma “torcida contra”. Para que se tivesse uma ideia do teor das críticas: no Brasil 1×1 Suécia da fase de grupos, quando Paulo Sérgio substituiu Raí, Luciano do Valle disse na narração que “a substituição foi tão esdrúxula que dá o direito de pensar que o treinador tenha participação na venda do jogador”. Nos comentários, Juarez Soares também não poupava, como nesta vez: “O Parreira é robotizado e fez dos nossos jogadores 11 robôs. Ele tirou dos jogadores o que o ser humano tem de mais precioso: a liberdade de criar”. O choque era tamanho que a delegação brasileira chegou a proibir o acesso dos repórteres da Band à concentração, em Los Gatos, na Califórnia. As animosidades eram tamanhas que boatos infundados davam conta até de que Juarez teria se irritado com o gol de Bebeto, no 1 a 0 sobre os Estados Unidos, nas oitavas de final.


Gols do Brasil nas oitavas de final, quartas de final e semifinais da Copa de 1994, na transmissão da TV Bandeirantes, com narração de Luciano do Valle

Bem ou mal, a Bandeirantes chegou à final daquela Copa. E Luciano do Valle, após as frustrações de 1978, 1982, 1986 e 1990, enfim pôde narrar um título brasileiro. Seu sóbrio e emocionado “Vamos ver o Baggio… Pra fora! Brasil tetracampeão do mundo!” simbolizou, de certa forma, o fim daquela fase áurea do esporte na emissora. Em dezembro de 1994, pressionado pela direção por causa das críticas que fazia a Ricardo Teixeira (o que dificultava a compra de direitos de transmissão), Juarez Soares optou por não renovar contrato e ir para o SBT, rompendo os 25 anos de parceria profissional com Luciano do Valle (mas seguindo com a amizade). Para o SBT também iria Silvio Luiz, em janeiro de 1996. E de 1994 em diante, nada seria como antes na Bandeirantes, por mais que os investimentos no esporte continuassem por um tempo.


Vinheta de abertura das transmissões da TV Globo para a Copa de 1994

Globo

Narração: Galvão Bueno, Oliveira Andrade, Cléber Machado
Comentários: Pelé, Raul Plassmann, Arnaldo Cezar Coelho
Reportagens: Roberto Thomé, Tino Marcos, Luiz Fernando Lima, Pedro Bial, Fátima Bernardes, Marcos Uchôa, Ernesto Paglia, Hermano Henning, Carlos Dornelles, Caco Barcellos, Paulo Henrique Amorim, Sônia Bridi, Roberto Cabrini
Apresentações: Fernando Vannucci, Leo Batista

Após sofrer com os efeitos do Plano Collor na cobertura da Copa de 1990, a TV Globo precisava ir à forra. Foi em 1994. Após duas Copas, voltava a levar mais de cem pessoas a um trabalho num Mundial: foram 140 enviados aos Estados Unidos, divididos em duas frentes – para a transmissão dos jogos e a parte esportiva, o diretor de esportes Ciro José era o comandante, enquanto o jornalista Luiz Nascimento comandou o trabalho de reportagem. A partir daí, se aprofundava a cobertura da emissora dos Marinho. E como seria grande a diferença da Copa anterior. A começar por mais uma música: se “Papa essa Brasil” ficara circunscrita a 1990, “Coração verde-amarelo” – letra dada ao prefixo que já abria as transmissões desde 1991 – seria lançada em 1994 para se tornar o tema definitivo das Copas do Mundo no canal, dali para frente. Até mesmo o “Bolão do Faustão” seria mais fornido: no mesmo esquema de 1990 (um cupom dos Correios perguntando quantas vezes o Brasil fora campeão mundial, envio, sorteio de três cupons de acordo com o resultado do jogo antes dele, quem acertasse levava um carro zero quilômetro depois), com sorteio de novo carro no intervalo – e outro automóvel no fim. E haveria novidades tecnológicas como o efeito “touch screen”, para possibilitar desenhos na imagem, dentro do quadro “Análise Tática”, durante o intervalo dos jogos.

Para começo de conversa, a Globo teria a presença de humoristas propriamente ditos: com o programa da trupe já fazendo sucesso desde 1992, quatro dos membros do Casseta & Planeta (Bussunda, Cláudio Manoel, Reinaldo e Marcelo Madureira – Beto Silva, Hélio de la Peña e Hubert viajaram ao Japão) foram aos Estados Unidos oferecer abordagens mais, digamos, piadistas da Copa, tanto nas edições normais do “Casseta & Planeta, Urgente” como em esquetes pré-jogo. Podia não haver as históricas imitações de Bussunda para Ronaldo ou Hubert para Galvão – ou melhor, “Gavião” – Bueno, mas a iniciativa só aprofundou o sucesso dos Cassetas, tornando as participações do coletivo carioca em Copas uma marca da Globo, dali por diante.


Especial do “Casseta & Planeta, Urgente!”, celebrando a vitória da Seleção Brasileira

No jornalismo propriamente dito, voltava a pluralidade de repórteres. Roberto Thomé, Tino Marcos e Luiz Fernando Lima seguiriam com a Seleção Brasileira, mas haveria mais setoristas (por exemplo: Sônia Bridi com Holanda e Bélgica, Carlos Dornelles com a Argentina, Hermano Henning com a Alemanha, Ernesto Paglia com a Itália). Na cobertura do ambiente dos estádios antes das partidas da Seleção Brasileira, estariam Pedro Bial e Fátima Bernardes – sem contar Marcos Uchôa, num helicóptero que acompanhava o ônibus com a delegação brasileira. Ancorando tudo dos estúdios em Dallas, Fernando Vannucci – com Mylena Ciribelli e Léo Batista a ajudá-lo, dos estúdios no Rio de Janeiro, no “Globo Esporte” e no “Esporte Espetacular”. Para os noticiários comuns da Globo, Carlos Nascimento era o enviado aos Estados Unidos, tanto no “Jornal Nacional” como no “Jornal da Globo”. Neste, Juca Kfouri fazia sua costumeira colaboração, em seu último ano na emissora (deixaria-a entre setembro e outubro – aqui, a participação de Juca no “JG” de 29 de junho de 1994). E Lillian Witte Fibe, apresentando o noticiário dos estúdios em São Paulo, mediaria um pequeno debate sobre o dia na Copa.

Para a transmissão propriamente dita de 38 jogos ao vivo – os demais tiveram os lances exibidos nos telejornais -, voltavam as câmeras exclusivas globais. Para a locução, seguiam Oliveira Andrade (que narrou jogos importantes, como o 2 a 1 da Bulgária na Alemanha nas quartas e o Itália 2×1 Bulgária da outra semifinal) e Cléber Machado (aqui, narrando o Holanda 2×0 Irlanda das oitavas de final). Nos comentários, Raul Plassmann faria praticamente todos os jogos que não se relacionassem com a Seleção Brasileira, e Arnaldo Cezar Coelho ainda era o único comentarista de arbitragem, enquanto Pelé cumpria o contrato assinado em 1989: por US$ 3,2 milhões, comentava sua segunda Copa na TV Globo, já tendo feito as partidas brasileiras na Copa América e nas Eliminatórias em 1993. Finalmente, a Copa de 1994 consolidava a presença de Galvão Bueno, como narrador dos jogos mais importantes. Poderia não tê-lo.

Em 1992, o locutor carioca ousara: por vários motivos (do desejo de ficar mais com a família no Rio de Janeiro a desentendimentos circunstanciais na TV Globo), decidira aceitar a proposta de José Carlos Martinez, um dos donos da Rede OM, emissora que seria inaugurada no Paraná. A princípio, a aliança seria somente com a PGB, produtora de Galvão, que faria a cobertura de eventos esportivos. Mas Martinez quis mais, Galvão aceitou, e deixou a Globo em março de 1992, para estrear em abril como principal narrador e diretor de esportes da Rede OM, por meio da PGB – com a qual chegaram à nova emissora nomes como os repórteres Raul Quadros e Mário Jorge Guimarães.

Apostando na transmissão exclusiva da Copa Libertadores da América, Galvão teve no título são-paulino o símbolo de muito sucesso no início do projeto com a Rede OM. Mas depois dos primeiros meses, o projeto começou a naufragar nas dívidas da emissora. Mesmo tendo transmitido outro evento futebolístico com exclusividade (a Copa do Brasil), Galvão se desentendeu com Martinez, discordou dos rumos da emissora, e por fim rescindiu o contrato com a OM em fevereiro de 1993. Recebeu propostas de todas as emissoras abertas (“Foi o maior prêmio da minha vida”, comentou a Bob Faria no seu livro “Grito de gol: as vozes da emoção na tevê”). Chegou muito perto de acertar com a Manchete, na qual também seria narrador e diretor de esportes. Mas… a Bob Faria, Galvão reconheceu: “O meu caminho, a partir do momento em que eles me queriam de volta, era a Globo. Então foram dez meses de buraco, voltei, estou lá e de lá não saio”. Reestreou em 12 de março de 1993, nos treinos para o Grande Prêmio da África do Sul, primeira prova da temporada de Fórmula 1. Reestreou no futebol narrando o título brasileiro no Mundial Sub-20, contra Gana, em 20 de março. E já em 1994, ocupava o destaque nas transmissões esportivas globais como se não houvesse saído.

Galvão esteve no Alemanha 1×0 Bolívia da abertura – e na cerimônia anterior -. Estava em Brasil 2×0 Rússia, Brasil 3×0 Camarões, Brasil 1×1 Suécia… e neste jogo, no Pontiac Silverdome de Detroit, seria o epicentro de uma polêmica. Após o final do jogo, tendo gravado comentário com Pelé (a ser exibido no “Jornal Nacional” daquele 28 de junho de 1994), Galvão conversou por um fone com Fernando Guimarães, diretor de operações da Globo, e Ciro José. Na conversa, ao ouvir as queixas de Fernando sobre os longos comentários que Pelé fazia nos jogos, o narrador foi enfático: “Fernandinho, você passou o jogo inteiro no meu ouvido. Eu sei que estão dizendo ‘fala para o Pelé parar’ (…) Só se eu matar ele, cara! (…) Ele vem aqui, mete a mão no microfone, ‘tum’, e abre, e fala! Quem contratou, conversa!”. Seria mera conversa de bastidores, se não tivesse sido captada por antenas parabólicas.

Bastou para várias especulações sobre a relação entre Galvão e Pelé. Especulações que o narrador insiste em rechaçar – na sua biografia, “Fala, Galvão!”, de 2015, explicou: “Passaram o jogo inteiro me enchendo o saco, dizendo que Pelé estava falando demais. Era preciosismo, um erro de avaliação da Globo. Pelé nunca fala demais. Pelé é Pelé. Terminado o jogo, eu reclamei – fora do ar, evidentemente. A parabólica só captava o que eu dizia e ninguém ouvia o que os outros respondiam. Então eu disse: ‘Não posso desligar o microfone dele’. Pelé estava ao meu lado, ouvindo tudo, escutando os dois lados da conversa. Já cheio daquela lenga-lenga, eu perdi a paciência com quem estava reclamando de Pelé. Repito, ele estava do meu lado e dava risada de tudo. A revista ‘Veja’ publicou só o que eu disse, e ficou parecendo que tínhamos brigado, o que jamais aconteceu”.

A imagem da antena parabólica

A Copa seguiu. As transmissões com Galvão, Pelé e Arnaldo também. Veio o 1 a 0 sobre os Estados Unidos, nas oitavas de final. E no dramático 3 a 2 das quartas de final sobre a Holanda, a grande história é de Fátima Bernardes, em depoimento ao projeto “Memória Globo”, em 2001. Cobrindo o ambiente no Cotton Bowl em Dallas, Fátima assistia ao jogo, mantendo-se em contato por telefone com Luiz Nascimento. Aí, a palavra foi da hoje apresentadora: “[Falei] ‘Luizinho, 2 a 0, você disse que eu ia chorar, estou morrendo de rir!’. Aí, [a Holanda fez] 2 a 1, e eu desliguei o telefone na cara dele. 2 a 2, e eu: ‘Não acredito, 2 a 2, não tem mais jeito, eu vou sair do estádio’. E saí do estádio com 2 a 2. Quando eu estou contornando a pé para o estacionamento, eu escuto um ‘aaah’ [barulho de torcida], e o locutor dizendo: ‘Branco’ [com sotaque norte-americano]. Cheguei na nossa geradora, na unidade móvel, e pedi ‘bota esse gol pra eu ver, que eu não acredito que fui ver o jogo da Seleção, e o gol da vitória eu não vi!'”.


Os gols de Brasil 3×2 Holanda, pelas quartas de final da Copa de 1994, na transmissão da TV Globo, com a narração de Galvão Bueno e os comentários de Pelé e Arnaldo Cezar Coelho

Veio a vitória sobre a Suécia, na semifinal. A decisão, contra a Itália, num Rose Bowl com sol a pino em Los Angeles. Sol a pino que levou Galvão Bueno a penar, quando os pênaltis começaram. E o narrador trouxe a anedota definitiva do que viveu naquelas cobranças, ao ‘Memória Globo”, em 2007: “A Itália perde o primeiro pênalti – bate primeiro e perde -, aí o Márcio Santos vai bater o pênalti, e não é que ele perde o pênalti, também?! Ali chegou no meu limite de suportar o calor e a tensão… minha cabeça começou a fazer ‘zuuuuum’, começou a girar tudo e pensei ‘Meu Deus, vou desmaiar’. Mas pensei antes: ‘Peraí, peraí, trabalhei minha vida inteira para chegar aqui hoje. Esperei todo esse tempo.’ Aí respirei fundo. Gozado: naquele momento me veio a sensação exata, na hora em que eu ia apagando e voltei, a sensação exata foi ‘o Brasil vai ganhar isso'”.

Ganhou, como se sabe. O que se falou na transmissão da Globo, o leitor viu e sabe, pelas microcâmeras da cabine. Galvão tem vergonha até hoje: “Aquela coisa histérica e desafinada, e o Pelé me puxando de um lado, e o Arnaldo Cezar Coelho tirando meu óculos do outro”. Mas valia não só pelo título brasileiro: valia para coroar a reação definitiva da Globo em Copas do Mundo. Ah, sim: o quarto na cabine, de camisa branca, é Ciro José Gonsales. Mais um último destaque: a entrada de Tino Marcos no gramado, na volta olímpica, credenciado como auxiliar de câmera, tentando (e conseguindo, por alguns segundos) falar com os campeões.


Legendas são desnecessárias

Tevê por assinatura


Trecho de Brasil 2×0 Rússia, pela fase de grupos da Copa de 1994, na transmissão do SporTV, com a narração de Luiz Carlos Jr. e os comentários de Edinho. Exibido pelo Premiere em 2014. Postado no YouTube por Flávio Renan

SporTV

Narração: Luiz Carlos Jr., Maurício Torres, Sérgio Maurício
Comentários: Esquerdinha, Edinho, Sérgio Cabral

Era ao vivo? Não. Muito longe da realidade de hoje, a primeira emissora brasileira de tevê por assinatura a exibir a Copa do Mundo mostrava os jogos em VTs – os mais importantes, às 21h30, os secundários, às 8h do dia seguinte. Todos, narrados e comentados dos estúdios no Rio de Janeiro. No entanto, o canal esportivo da Globosat, inaugurado em 19 de outubro de 1991 com o nome de Top Sport e rebatizado para o definitivo SporTV em 1994, pode se orgulhar de tal primazia. Claro, as condições ainda eram extremamente modestas para a emissora do bairro do Rio Comprido.

Dos Estados Unidos, só vinha um comentário de Armando Nogueira (se vinculando novamente ao Grupo Globo, via Globosat), exibido no “Diário da Copa”, noticiário exibido às 23h e apresentado por Renata Capucci – sim, a mesma repórter posteriormente promovida à Globo. Seu colega na condução do programa era um cidadão presente no SporTV desde o primeiro dia da história do canal. Carioca radicado em Brasília (e depois retornado ao Rio), era um locutor em rádios de rock e música pop – 105 FM e Transamérica, ainda em Brasília, e Cidade, já de volta ao Rio. Escolhido por Galvão Bueno para sua produtora (aquela que se uniu à Rede OM), o locutor de rádio começou a narrar eventos esportivos. De apresentador no SporTV, também virou locutor do canal. E assim, o longo nome Luiz Carlos Filho da Paixão Júnior se tornou o Luiz Carlos Jr. que até hoje é um dos símbolos do canal da Globosat.


Renata Capucci e Luiz Carlos Jr. apresentando o “Diário da Copa”, em 9 de julho de 1994, incluindo entrevista com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Postado no YouTube por Ted Richard Paiva Sartori

Já coube a Luiz Carlos narrar os principais jogos daquela Copa – nas transmissões das partidas do Brasil, teve a seu lado nos estúdios o jornalista Sérgio Cabral (pai) e um ex-jogador que, idas e vindas depois, é novamente seu colega atual no SporTV: Edinho. Nas outras partidas, com o comentarista Esquerdinha, os narradores eram Sérgio Maurício (também no SporTV desde a inauguração em 1991 – narrou Argentina 4×0 Grécia, entre outros jogos) e um nome egresso da Rádio Globo carioca, que entraria na TV Globo pouco a pouco: Maurício Torres (1971-2014), que fez a locução, por exemplo, em Holanda 2×1 Arábia Saudita.

Tudo modesto. Mas já foi possível registrar o título em 1994. E as coisas avançariam em 1998. Incluindo a concorrência.


Melhores momentos de Brasil 1×0 Estados Unidos, pelas oitavas de final da Copa de 1994, na transmissão do SporTV, com a narração de Luiz Carlos Jr.. Exibido pelo Premiere em 2014. Postado no YouTube por Flávio Renan

Na próxima parte: em 1998, a última Copa com disputa generalizada pela audiência na televisão brasileira aberta – e o nascimento da rivalidade na tevê a cabo


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