Texto publicado originalmente em 2 de agosto de 2016

Ao longo da história do futebol uruguaio, outros jogadores tiveram mais habilidade. Outros celebraram mais gols. Outros receberam mais holofotes. Mas nenhum outro conseguiu ser mais emblemático do que Obdulio Varela. Era, sim, um craque de grande qualidade técnica e que dominava o meio de campo. Sua principal característica, no entanto, se concentrava em seu caráter. ‘El Jefe Negro’ encarnou como nenhum outro a raça charrua. Vestindo a camisa celeste, protagonizou atuações lendárias por sua liderança. Especialmente na decisão da Copa de 1950.

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A trajetória de Obdulio Varela no futebol se assemelha à de tantos outros personagens. O garoto pobre que não pôde frequentar a escola e largou o pano de engraxate graças à bola, primeiro defendendo times de bairro, até se tornar o futebolista mais valioso do país com a camisa do Peñarol. Entretanto, a personalidade também construiu um enredo único para o capitão. O homem que seguia a ferro e fogo os princípios que aprendeu na rua. Que se negava a receber premiações maiores que seus companheiros e a estampar no peito o símbolo de um patrocinador. Que por pouco não perdeu o Mundial de sua vida, liderando meses antes uma greve de jogadores em busca de melhores condições de trabalho. Venceu. No campo sindical e depois no Maracanã.

Obdulio Varela morreu pobre, sem o reconhecimento necessário pelo enorme jogador que foi, mas sem se curvar. Trabalhava em um cassino, o mísero emprego público que serviu de migalha aos velhos campeões mundiais. “Eu não represento nada. Tudo o que se diz são mentiras. Sou uma pessoa como qualquer outra e o único que me fica é a satisfação de ter cumprido o meu dever. A glória não existe. A glória é ter amigos que te queiram. Com a fama não se vive”, dizia.

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Abaixo, traduzimos depoimento dado ao suplemento de cultura do diário ‘La Opinión’, em julho de 1972. Em conversa com o jornalista Osvaldo Soriano, Obdulio Varela fala sobre o antes, o durante e o depois do jogo decisivo de 1950, bem como de sua relação com o futebol e de suas crenças. Uma prova inegável de que a principal força daquele meio-campista imponente estava mesmo dentro de sua mente. E de seu coração.

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‘El reposo del Centrojás’

Veja você como são as coisas. Nós tínhamos empatado com a Espanha por 2 a 2, com um gol que fiz em cima da hora, desses gols que saem com a sorte. Na segunda partida, ganhamos da Suécia por 3 a 2, não mais que isso. Os brasileiros vinham matando. Haviam marcado sete gols nos suecos e outra meia dúzia nos espanhóis. Quando fomos para o jogo final, ninguém duvidava que eles nos esmagariam. Tinham um time bárbaro, eram anfitriões e o mundo inteiro esperava que ganhariam o Mundial. Nós jogávamos, pode se dizer, contra todo o mundo.

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Isso, eu creio, devia nos dar tranquilidade. Nossa responsabilidade era menor. Eu me lembro que um dirigente uruguaio chamou a Óscar Míguez, o centroavante da equipe, pouco antes de entrarmos em campo, e lhe disse para que ficássemos tranquilos, que os dirigentes se conformavam se perdêssemos de não mais do que quatro gols. Disse que já deveríamos estar satisfeitos por chegar à final e que se tratava agora de evitar o papelão, de não engolir uma goleada muito grande.

Eu escutei e isso me indignou. Eu lhe disse: “Se entramos vencidos, melhor que não joguemos. Estou seguro de que vamos ganhar estar partida. E, se não ganhamos, tampouco vamos perder por quatro gols”.

Eu tinha 33 anos e muitas partidas com a seleção. Estavam errados se acreditavam que iam passar por cima de nós daquele jeito. Os outros rapazes da equipe eram jovens, sem muita experiência, mas jogavam bem. Além do mais, pouco antes havíamos jogado contra os brasileiros na Copa Rio Branco e ganhamos por 4 a 3 a primeira partida. Depois, perdemos duas por 1 a 0, mas havíamos dado conta de que dava para vencer. Eles têm muito medo de jogar contra os uruguaios ou contra os argentinos.

Antes de sair ao gramado, o técnico Juan López me disse, como sempre, que eu deveria dirigir e ordenar a equipe de dentro de campo. Então, quando íamos para o túnel, disse aos rapazes: “Saiam tranquilos. Não olhem para cima. Nunca olhem para as arquibancadas. A partida se joga abaixo”.

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Era um inferno. Quando saíamos ao campo, eram mais de 100 mil pessoas assobiando. Então, fomos até os mastros, onde as bandeiras seriam içadas. Quando o Brasil saiu, ovacionaram, claro. Mas depois, enquanto tocavam os hinos, as pessoas aplaudiam. Eu disse aos rapazes: “Vejam como nos aplaudem. No fundo, essas pessoas nos querem bem”.

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Não cumprimentei o juiz. Nunca dei a mão a árbitro algum. Eu o saudava, sim, o tratava com respeito, mas a mão nunca. Não tem que se fazer simpático. Depois, as pessoas vão dizer que você vai chupar as meias de quem manda na partida.

Durante o primeiro tempo, nós dominamos boa parte, mas depois caímos. Faltava experiência em muitos dos nossos jogadores. Perdemos três gols feitos, desses que não se pode errar por nada. Eles também tiveram algumas oportunidades, mas eu me dei conta que a coisa não era tão brava. O assunto era não nos deixarmos tomar o ritmo demolidor que tinham. Se fracassássemos nisso, íamos ficar diante de uma máquina. O primeiro tempo terminou zerado.

No segundo tempo, saíram com tudo. Já era a equipe que goleava sem perdão. Eu pensei que se parássemos, iam nos encher de gols. Comecei a marcar de perto, a apertar, para tratar de jogar no contra-ataque. Creio que foi aos seis minutos que nos fizeram o gol. Parecia o princípio do fim.

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Vou te contar algo que as pessoas não sabem. Todos viram que eu agarrei a bola e fui para o meio do campo lentamente, para esfriar. O que não sabem é que eu ia pedir um impedimento, porque o auxiliar havia levantado a bandeira e depois abaixou, antes que eles fizessem o gol. Eu sabia que o árbitro não ia atender a reclamação, mas era uma oportunidade de parar o jogo e tinha que aproveitar. Fui bem calmo e pela primeira vez olhei para cima, o enxame de gente que festejava o gol. Olhei com raiva e provoquei.

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Demorei bastante para chegar no círculo central. Quando cheguei, já haviam se calado. Queriam ver funcionar a sua máquina de fazer gols e eu não a deixava arrancar de novo. Então, ao invés de colocar a bola no meio, eu chamei o árbitro e pedi um tradutor. Assim que veio, eu disse que houve impedimento e assim se passou outro minuto. As coisas que me diziam os brasileiros! Estavam furiosos. A arquibancada vaiava, um jogador veio a mim cuspir, mas eu nada. Sério e não mais.

Quando começamos a jogar de novo, eles estavam cegos. Não viam nem seu gol, tão furiosos que estavam. Então, todos nos demos conta que poderíamos ganhar a partida.

Como conseguimos isso? É que o jogador tem que ser como o artista: dominar o palco. Como o toureiro, dominar a arena e o público, senão o touro vem para cima. Você sabe que em um campo adversário não vão lhe aplaudir, por mais que faça boas jogadas. Então, tem que se impor de outra maneira, dominar o adversário, o público e seus companheiros. Claro, eu havia jogado um milhão de partidas em todas as partes, em campos sem alambrado, à mercê do público, e sempre saí vivo. Como iam me atacar nesse dia, no Maracanã, que tinha toda a segurança? Aí eu tinha que dominar, porque tinha todas as facilidades e sabia que ninguém poderia me tocar.

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Quando fizemos o segundo gol, o de Ghiggia, não podíamos acreditar. Campeões do mundo, nós, que vínhamos jogando tão mal! No fim da partida, estávamos como loucos. No Brasil, havia dor. Era uma desolação.

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Nesta noite, saí com meu massagista para ir a um bar tomar algumas cervejas e caímos no de um amigo. Não tínhamos um só cruzeiro e pedimos fiado. Fomos a um canto beber e daquele ponto olhávamos as pessoas. Estavam todos chorando. Parecia mentira: todo mundo tinha lágrimas nos olhos. De imediato, vejo entrar um grandalhão que parecia desconsolado. Chorava como um bebê e dizia: “Obdulio ganhou a partida contra nós” e chorava mais. Eu o olhava e me lastimava. Eles haviam preparado o maior carnaval do mundo para essa noite e nós havíamos arruinado. Segundo esse homem, eu havia arruinado.

Eu me sentia mal. Dei-me conta que estava amargurado como ele. Seria lindo ter visto esse carnaval, ver como as pessoas se alegravam com uma coisa tão simples. Nós havíamos arruinado tudo e não havíamos ganhado nada. Tínhamos um título, mas o que era isso diante de tanta tristeza? Pensei no Uruguai. Ali, as pessoas estariam felizes. Mas eu estava no Rio de Janeiro, no meio de tantas pessoas infelizes. Lembrei-me da minha fúria quando fizeram o gol, da minha raiva, que agora não era minha, mas me doía.

O dono do bar se aproximou de nós com o grandalhão que chorava. Ele disse: “Sabe quem é esse? É Obdulio”. Eu pensei que ia me matar. Mas me olhou, me deu um abraço e seguiu chorando. Depois de um tempo me disse: “Obdulio, poderia beber conosco? Queremos esquecer, sabe?”. Como eu ia dizer que não! Estivemos a noite toda bebendo nos bares. Eu pensei: “Se tenho que morrer nesta noite, que seja”. Mas estou aqui.

Se tivesse que jogar outra vez essa final, faria um gol contra, sim senhor. Não, não se assombre. A única coisa que conseguimos ao ganhar esse título foi dar brilho aos dirigentes da Associação Uruguaia de Futebol. Eles se deram medalhas de ouro e aos jogadores deram umas de prata. Você crê que alguma vez concordaram em festejar os títulos de 1924, 1928, 1930 e 1950? Nunca. Os jogadores que participaram daqueles campeonatos se reúnem agora por nossa conta, sempre no dia 18 de julho, que é feriado nacional. Festejamos por nossa conta. Não queremos nem contato com os dirigentes.

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Eu comecei a jogar futebol a sério por uma casualidade. Éramos 12 irmãos, filhos de um vendedor de carne de porco. Sempre fomos muito pobres. Eu fui à escola pela primeira vez aos 13 anos e tive que abandonar para primeiro vender jornais, depois engraxar sapatos. Como engraxate, tirava seis pesos por mês em 1932. Um dia me convidaram para jogar uma partida de bairro. Lá eu encontrei meu irmão, que jogava em outra equipe. Ao final, quando estava me trocando para jogar, apareceu o titular, que era o tanque Amato, e não me puseram. Então veio meu irmão e me perguntou se queria jogar com eles. Como havia ido jogar de qualquer maneira, aceitei. Ganhamos e fiquei no time.

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Os rapazes me conseguiram um trabalho de pedreiro e fiquei muito contente. Comecei a jogar em um clube que estava na divisão intermediária. Parece que andavam bem, porque um dia me avisaram que haviam me vendido ao Wanderers por 200 pesos.

Sem me perguntar nada, me venderam como um saco de batatas. Quando soube, fui ver os dirigentes do Wanderers e perguntei: “Quem vai defender o clube, o Deportivo Juventud ou eu?”. Consegui que me dessem os 200 pesos. Comprei tudo nesse dia com o dinheiro. Quando apareci em casa, minha mãe não acreditava que me deram tanto. Ela acreditou que eu andava pelo mau caminho. É que, quando se cria um na rua, tem dois caminhos: ou aprende a se defender com dignidade, como fiz eu porque tive a oportunidade, ou se larga a qualquer coisa, como acontece aos que não têm uma chance.

A mim foi tão bem que, quando subimos, não caímos nunca mais. Estreei no Wanderers contra o River Plate e perdemos, depois ganhamos do Bella Vista. Por fim, no Estádio Centenário jogamos contra o Peñarol. Eu tinha à frente nada menos que Sebastián Guzmán, o mestre. Eles tinham um timaço, mas ganhamos por 2 a 1. Não me esqueço nunca. Estive por quatro anos no Wanderers e em 1943 passei ao Peñarol por 16 mil pesos, uma cifra recorde para a transferência de um jogador. Fiquei por lá até 1955, quando larguei o futebol.

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Agora, estou muito arrependido de ter sido jogador. Se tivesse que fazer minha vida de novo, nem olharia para um estádio. Não, o futebol está cheio de miséria. Dirigentes, alguns jogadores, jornalistas, todos estão metidos no negócio sem se importar para nada com a dignidade do homem. Eu sempre me tomei da melhor maneira. Quando vieram me subornar, não saí no braço nem os denunciei. Eu disse que não, que buscassem outro com menos orgulho que eu. Eu sempre me guiei pela filosofia que se aprende na rua. Ali, se aprende tudo. Há que se viver, custe o que custar. Viver e, em troca disso, há que deixar viver.

Muitas coisas me doeram. Os jornalistas se meteram na minha vida privada, me atacaram muito durante a greve de jogadores, porque eles faziam o jogo dos clubes. Eu decidi viver minha vida e rompi com eles. Desde então, eu me neguei a sair nas fotos que tomavam da equipe no campo. Quando meus companheiros pediam que saísse, eu ficava de lado e olhava para outro canto.

Uma vez os cronistas fizeram um evento do Peñarol e o clube me chamou, para me convencer que precisava ser amável e sair nas fotos. Então perguntei: “Para que me contrataram, para sair nas fotos ou jogar futebol?”. Ali terminou o incidente. Não quis saber mais nada com dirigentes nem com jornalistas que escrevem o que quer quem manda neles. Eu sei que é preciso ganhar a vida, mas não é preciso atrapalhar os outros. Por isso eu não voltaria a me aproximar dos gramados, mesmo que me oferecessem milhões. A mim castigaram muito e não aguento. Por isso disse que, se agora tivesse que jogar uma final, faço gol contra. Não vale a pena pôr a vida em uma causa que está suja, contaminada. Algum dia terá que prestar contas: então saberemos quem é quem e se valia a pena se sujar.


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