Cláudio Ibraim Vaz Leal, o Branco, completa nesta quinta-feira, 55 anos de idade. Em sua carreira, passou por diversos grandes clubes do país, se aventurou na Europa, conquistou títulos importantes e marcou gols antológicos, especialmente nas cobranças de falta à longa distância. Mas as principais lembranças que se tem do lateral-esquerdo e povoam o imaginário do torcedor brasileiro, certamente são com a camisa amarela da seleção brasileira, carregando consigo três participações em Copas do Mundo no currículo.

Gaúcho de Bagé, Branco começou a jogar futebol nos clubes locais da cidade, Grêmio e Guarany, antes de ser descoberto pelo Internacional. Campeão gaúcho em 1981, o lateral chamou atenção do Fluminense, se tornando peça fundamental da Máquina Tricolor dos anos 80, conquistando o tricampeonato carioca entre 83 e 85 e o Brasileirão de 1984. Dono de um potente chute, foi convocado pela primeira vez por Telê Santana em abril de 1985, para uma série de amistosos. Mas o titular de Telê naquele ciclo ainda era o histórico Júnior. Para ir ao Mundial do México, no ano seguinte, Branco precisou vencer a disputa com Dida, lateral do Coritiba.

Inicialmente reserva, Branco contou com os diversos problemas físicos de jogadores do meio campo brasileiro, que fizeram Telê optar por adiantar Júnior no campo de jogo, para que a vaga de titular caísse em seu colo. Titular em todos os cinco jogos da Seleção, Branco fez sua melhor partida justamente na eliminação diante da França, inclusive sofrendo um pênalti quando o jogo estava 1 a 1. Aos 29 minutos, Branco avançou e recebeu passe milimétrico de Zico. Cara a cara com o goleiro Joël Bats, o lateral tentou o drible e foi derrubado. Na cobrança, o Galinho de Quintino parou nas mãos do arqueiro francês. Branco também foi o responsável por uma das cobranças na disputa de penalidades, convertendo na sua vez.

Depois do Mundial, Branco partiu para o futebol europeu, atuando pelo Brescia, da Itália e pelo Porto. Fora da Seleção enquanto Carlos Alberto Silva esteve no comando, o jogador só voltou às convocações com Sebastião Lazaroni, já em 89, e foi campeão da Copa América, ajudando a quebrar o jejum de 50 anos sem conquistas na competição. Titular absoluto na Copa da Itália, ficou marcado por dois episódios. O primeiro, ainda na primeira fase, foi uma cobrança de falta mal batida, diante da Escócia. O lateral chutou a bola que atingiu a cabeça de Murdo MacLeod, que estava na barreira. O escocês desmaiou na hora e teve de ser substituído, sendo diagnosticado posteriormente com uma concussão cerebral. Por algum tempo existiu a lenda de que o jogador teria falecido em decorrência da pancada. “Isso é natural, muito torcedor vem e me fala isso. Tem gente que nem me pergunta, já chega afirmando: ´você matou um cara uma vez´. Eu falo que não matei ninguém não. Graças a Deus ele não morreu. O cara está bem”, disse Branco, em entrevista ao UOL Esporte, em 2013.

O segundo episódio com Branco como pivô, aconteceu durante a eliminação brasileira no mundial. Nas oitavas de final, contra a Argentina, aos 39 minutos do primeiro tempo, o jogo foi paralisado para o atendimento de um jogador argentino. Inocentemente, o lateral aceitou do massagista Miguel di Lorenzo “Galíndez” uma garrafa de água, que supostamente continha alguma substância que causou mal-estar no jogador brasileiro. Após a derrota, Branco falou à televisão sobre a suspeita. “Eu vi um jogador dele tomando água e pedi para tomar também. No segundo tempo quando eu entrei, me deu essa tonteira. Eles são assim, jogam sujo mesmo”, afirmou à época. Anos depois, os jogadores argentinos Diego Maradona e José Basualdo confirmaram a armação.

Apesar do episódio e de todo o estigma imposto pela “era Dunga”, Branco seguiu sendo constantemente convocado no ciclo seguinte, tanto por Paulo Roberto Falcão, quanto por Carlos Alberto Parreira, que assumiu o cargo no fim de 1991. Entre uma Copa e outra teve um retorno ao futebol italiano, jogando pelo Genoa, antes de voltar ao futebol brasileiro, onde vestiu as cores do Grêmio. Já em 1994, teve uma segunda passagem pelo Fluminense e foi ao Mundial dos Estados Unidos como reserva, superado pelo polivalente Leonardo, embora o torcedor preferisse Branco. Segundo uma pesquisa feita pelo Ibope, às vésperas da competição, o jogador foi o mais citado para ocupar a posição. Branco provavelmente acompanharia a Copa toda do banco se não fosse uma atitude intempestiva de Leonardo, que acertou uma cotovelada no americano Tab Ramos, durante as oitavas de final. Com a suspensão do companheiro para o resto do torneio, Branco voltou a ser o responsável pelo lado esquerdo no time brasileiro.

Logo em sua volta, nas quartas-de-final contra a Holanda, marcou o gol mais importante de sua carreira. O relógio já passava dos 35 minutos e o os holandeses haviam empatado um jogo em que perdiam por 2 a 0. Em uma falta a cerca de trinta metros do gol, Branco soltou mais uma de suas bombas que derrubaria quem acertasse. Romário salvou sua própria vida e a de milhões de torcedores ao desviar da bola, que só foi parada pelo barbante da rede. “Foi o gol cala-boca”, disse o lateral em resposta às críticas que vinha recebendo antes do Mundial. Na final contra a Itália, também deu sua contribuição convertendo uma das cobranças que acabou com a agonia de 24 anos sem títulos mundiais.

Convocado apenas mais duas vezes depois do mundial, Branco ainda jogou pelos seguintes clubes até o fim da década de 90: Corinthians, Flamengo, Internacional, Middlesbrough, Metrostars-EUA, Mogi Mirim e encerrou a vitoriosa carreira em mais uma breve passagem pelo Fluminense, deixando um legado como o 4º lateral esquerdo com mais partidas pela Seleção, com 77 jogos, dez gols marcados, três Copas do Mundo e uma valiosa estrela de campeão mundial.