Quando Kepa Arrizabalaga renovou o seu contrato com o Athletic Bilbao no primeiro semestre, parecia ser um goleiro pronto a estabelecer uma era na meta basca. O jovem teve a chance de deixar San Mamés em janeiro, no momento em que o final de seu vínculo o botava na mira do Real Madrid por módicos €20 milhões. A diretoria merengue engatilhou o negócio e a promessa realizou até exames médicos, mas Zinedine Zidane bateu o pé para barrar a contratação, reiterando a confiança em Keylor Navas. O arqueiro acabou renovando com os leones, o que elevou sua multa rescisória para €80 milhões. E foi este o valor que o Chelsea desembolsou para contar com o camisa 13 da Espanha na Copa do Mundo, tornando-se não apenas o substituto de Thibaut Courtois, como também o goleiro mais caro da história.

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Os números que envolvem a “troca” assustam. Courtois – que não queria permanecer em Londres, almejando uma transferência ao Real Madrid também para se aproximar dos filhos que vivem na capital espanhola com a mãe – deixou o Chelsea por um valor relativamente pequeno se comparado ao seu talento. Em fim de contrato, seguiu ao Santiago Bernabéu por €35 milhões, quase metade dos €65 milhões relativos ao seu valor de mercado. Sabendo que não encontrariam uma alternativa tão boa num preço parecido, os Blues tentaram segurá-lo ao máximo, o que não adiantou diante da insatisfação do belga, recusando-se a treinar e botando em xeque seu profissionalismo. Sem solução, precisaram traçar sua alternativa. E, depois de deixarem Alisson escapar, entre pagar caro num goleiro mais experiente da Premier League, tirando-o de um clube que evitaria perder seu titular no penúltimo dia da janela de transferências, ou fazer uma aposta fora da Inglaterra, a segunda alternativa pareceu mais vantajosa.

O Athletic Bilbao é um raríssimo clube que não negocia os seus protagonistas. Como o “pé de obra” é mais escasso aos leones, que apenas contratam jogadores bascos, encontrar uma reposição para seus principais talentos é praticamente impossível. Assim aconteceu com Javi Martínez, Ander Herrera e Aymeric Laporte, que saíram após o pagamento da multa rescisória. O mesmo se daria com Kepa. Por isso, só pagando tanto para o Chelsea poder contar com o goleiro. Um investimento altíssimo, mas que entende-se.

Aos 23 anos, Kepa é um dos melhores do mundo em sua faixa etária. Não possui a mesma envergadura de Courtois, mas combina bom posicionamento, excelente tempo de reação e explosividade sob as traves. Também exibe muita personalidade para mandar em sua área, com ótimo tempo de bola nas saídas de gol. Pesa contra a pouca experiência jogando no primeiro nível. O goleiro permaneceu como titular do Athletic por apenas duas temporadas, mas permitiu que a diretoria abrisse mão de uma lenda como Gorka Iraizoz para garantir mais espaço à promessa. Além disso, o novato mostrou serviço suficientemente para ganhar a convocação à Copa do Mundo – e, durante a competição, diante dos deslizes de David de Gea, pesquisas de opinião realizadas por importantes veículos de imprensa do país indicava que o jovem deveria tomar a posição.

Uma prova de como Kepa consegue lidar bem com a pressão veio em sua atuação mais espetacular como profissional. Aconteceu justamente contra o Real Madrid, no último mês de abril. Já depois do negócio frustrado com os merengues, o jovem parecia disposto a marcar seu nome no Bernabéu como um carrasco. Teve uma atuação brilhante para segurar o empate por 1 a 1, operando diversos milagres. Saiu reconhecido pela torcida adversária como um talento que eles perderam. Ganhou ainda mais a idolatria dos alvirrubros, embora os sentimentos sejam mistos ao verem o prodígio deixando a velha casa após 15 anos de clube.

Outra característica que potencializa o valor de Kepa é a sua qualidade para jogar com os pés. O goleiro tem talento no trato com a bola e costuma ser uma arma nos contra-ataques, com seus chutes longos rumo ao ataque. Algo que deve contar bastante para o encaixe neste novo momento do Chelsea, sob as ordens de Maurizio Sarri. Durante sua primeira coletiva de imprensa, o espanhol revelou que conversou com Pepe Reina para saber os detalhes do trabalho com o treinador. Acaba sendo um diferencial que também explica a cara etiqueta com a qual o basco desembarca em Stamford Bridge. E vale lembrar, apesar da grife de Courtois, seus últimos meses em Londres não indicam que ele é insubstituível. A Copa do Mundo mostrou o seu melhor nível, embora ele apresentasse algumas oscilações com os Blues.

Kepa, por fim, se torna o maior símbolo da supervalorização dos goleiros ocorrida ao longo das últimas duas temporadas. Acompanha Alisson, Ederson e Jordan Pickford – todos com as suas similaridades. Além de serem contratados por clubes ingleses (motivo essencial para explicar a elevação nos valores, considerando as atuais receitas de TV no país), os quatro arqueiros possuem em comum o fato de serem ótimos sob as traves e complementares na saída de jogo. Em compensação, a juventude de todos eles também gera uma experiência relativamente pequena na primeira prateleira do futebol. A pressão sobre o espanhol para que se prove tende a ser maior, não apenas pelo craque que substitui, mas também pelo preço que se paga.

Difícil dizer até quando essa bolha em relação aos goleiros durará. Todos os quatro negócios possuem as suas particularidades que elevaram os preços, e o conjunto de fatores ao redor de Kepa é maior. O novo camisa 1 do Chelsea, ao menos, tem talento de sobra para realmente se firmar como um guardião das metas de Stamford Bridge. É nisso que a diretoria confiou ao desembolsar a bolada para contratá-lo. Se não poderá ter a idolatria de um Iribar com a camisa do Athletic Bilbao, poderá se firmar como um dos melhores do mundo na posição. E a temporada de estreia será desafiadora, não apenas por sua adaptação, mas também para segurar as pontas em uma equipe em fase de reconstrução e que poderá sofrer com as fragilidades defensivas, como a Community Shield indicou no último final de semana. A exigência será alta logo de início.