O número assustador de casos de racismo deixou a Serie A em evidência nos últimos meses, mas infelizmente a imbecilidade do preconceito assola outros tantos cantos da Europa e do planeta. La Liga também possui um histórico absurdo de episódios discriminatórios em suas arquibancadas e, neste sábado, a ignorância se notou no Estádio Cornellà-El Prat. Durante o empate por 1 a 1 entre Espanyol e Athletic Bilbao, o atacante Iñaki Williams foi vítima de insultos racistas. Os sons imitando macacos ficaram evidentes até mesmo na transmissão da TV. O atacante basco denunciou o ataque logo após o jogo, enquanto o Espanyol se manifestou condenando o ocorrido e prometendo punições – o mínimo que se espera, sempre.

A agressão aconteceu no momento em que Williams foi substituído, aos 24 do segundo tempo. Para não atrasar o jogo, já empatado em 1 a 1, o atacante do Athletic deixou o campo pela linha de fundo durante uma cobrança de escanteio para sua equipe. Passou em frente ao setor mais radical da torcida do Espanyol e, então, começaram o sons imitando macaco e os xingamentos contra o basco. Williams encarou os torcedores catalães nas arquibancadas e os ataques se intensificaram, até que ele fosse levado ao banco pelo roupeiro de sua equipe. Vale lembrar que há um histórico de grupos neonazistas entre os ultras blanquiazules.

Williams ainda ouviria os insultos no banco de reservas. Capitão do Athletic, Iker Muniaín relatou o racismo ao árbitro. José María Sánchez Martínez, no entanto, não paralisou a partida e sequer anotou o ocorrido na súmula, ao alegar que não ouviu os ataques. De qualquer maneira, os registros da televisão são bastante claros. Há pouco mais de um mês, pela segunda divisão, a partida entre Rayo Vallecano e Albacete terminou suspensa pelo árbitro depois que torcedores do Rayo passaram a chamar Roman Zozulya de “puto nazi”. A ação gerou ampla discussão no país e La Liga foi criticada pela falta de coerência ante outros casos de discriminação.

Na saída de campo, Williams comentou o assunto: “Vou um pouco triste pelo empate e, sobretudo, porque sofri insultos racistas. É algo que nenhum jogador negro ou de qualquer raça quer escutar. Está totalmente fora de lugar, porque as pessoas precisam vir ao estádio para desfrutar e apoiar sua equipe. Esse é um esporte de amizade, de equipe. Essas pessoas que vêm para insultar deveriam ficar em casa. É uma vergonha que, nos dias de hoje, se siga sofrendo casos assim. Somos todos iguais, independentemente da cor da pele ou da nacionalidade”. Já nas redes sociais, o atacante reiterou a mensagem: “É muito triste que sigamos vivendo cenas de racismo no futebol. Temos que acabar com isso entre todos. Obrigado pelo apoio de vocês”.

Williams possui um engajamento constante na luta contra o racismo, sobretudo por sua representatividade ao Athletic Bilbao. Em um clube que limita suas contratações a jogadores nascidos no País Basco ou com origem basca, ele se tornou o primeiro negro a anotar um gol pelos leones. “Eu gostaria de abrir a cabeça das pessoas. Você ainda ouve frases como ‘um negro não pode jogar no Athletic’ ou ‘esse negro não é basco’. Eu sou negro, mas também sou basco. Nasci aqui, me sinto basco e quero abrir as portas”, declarou o atacante, a um documentário lançado pela Amazon em 2018. O atacante nasceu em Bilbao, de família ganesa.

E não é a primeira vez que Iñaki Williams se torna alvo de racistas durante um jogo do Campeonato Espanhol. Em 2016, durante visita ao Sporting de Gijón, o atacante do Athletic Bilbao ouviu sons de macaco imitados por um setor das arquibancadas no Molinón – onde ficam os ultras, com ideologia neonazista. O jovem não havia percebido o ataque, até que foi avisado pelo árbitro Carlos Clos Gómez. O juiz paralisou o jogo até que os cânticos cessassem. No entanto, o Sporting recebeu apenas uma punição de fechamento parcial das arquibancadas – que, pior, após recurso, se converteu em uma reles multa.

Sobre o caso deste sábado, o Espanyol se manifestou poucas horas depois da partida. O clube escreveu que “condena fortemente e de maneira explícita qualquer demonstração de racismo nos estádios de futebol”. Além disso, os pericos declararam que “já estão investigando os incidentes de caráter racista proferidos por uns poucos contra Iñaki Williams”. Por fim, ofereceu “nosso apoio e solidariedade” ao basco.

Por mais que não haja relato na súmula, La Liga abriu seu protocolo para estudar as imagens e avaliar as possíveis sanções ao Espanyol. Presidente da entidade, Javier Tebas não demorou a se posicionar. Também falou sobre os embates entre torcedores do Valencia e do Barcelona nos arredores do Mestalla. “Demos um passo para trás no trabalho começado há anos. Os incidentes violentos no Mestalla e os insultos racistas a Williams fazem muito dano ao futebol espanhol. La Liga assume sua responsabilidade e buscaremos com os clubes onde está o erro”, pontuou. Tebas precisa ter consciência, também, de seus incoerentes atos anteriores e das medidas inócuas contra o racismo.

E até mesmo o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, fez uma declaração nas redes sociais sobre o ocorrido no Cornellà-El Prat: “Não podemos seguir tolerando este tipo de comportamentos racistas. No futebol e no esporte também se educa, e devemos educar sobre a tolerância e o respeito. Um abraço, Williams”. Da mesma maneira, outros líderes de governo e representantes políticos se manifestaram. Do posicionamento à punição, ainda há uma distância grande. Mas depois de tantas reações vergonhosas na Itália, o que se nota na Espanha é um começo para realmente se bater de frente com o racismo. O futebol precisa agir, mas não só ele.