Barcelona e Manchester United já se enfrentaram 11 vezes por competições europeias, incluindo aí três finais. E as grandes ocasiões acabam eclipsando alguns jogos menos importantes, mas que também proporcionaram ótimas histórias. A temporada de 1998/99 serve de exemplo. Os Red Devils terminaram por se consagrar dentro do Camp Nou, na épica decisão contra o Bayern de Munique. Mas nem todo mundo se lembra que, ainda na fase de grupos, os mancunianos fizeram duas grandes partidas com os blaugranas. Dois empates por 3 a 3, nos quais as doses de fascinação aconteceram graças a David Beckham e Rivaldo. Os craques protagonizaram uma porção de lances sensacionais, liderando suas equipes nas noites eletrizantes.

Aquele poderia ser considerado o verdadeiro grupo da morte da Liga dos Campeões. Ao lado de United e Barça, o Bayern de Munique se colocava como grande candidato a uma vaga nos mata-matas, enquanto o Brondby completava o quadrangular. E em tempos nos quais existiam apenas seis chaves na primeira fase, nem mesmo o segundo colocado tinha seu lugar garantido nas quartas de final. Por isso mesmo, o confronto direto pela rodada inaugural em Old Trafford já colocava a faca no pescoço de ingleses e espanhóis. Uma vitória ali poderia ser essencial ao restante da caminhada.

Sir Alex Ferguson escalou aquele Manchester United com uma porção de lendas que se eternizariam nos meses seguintes. O 11 inicial tinha ídolos do calibre de Peter Schmeichel, Roy Keane, David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes e Dwight Yorke. Ole Gunnar Solskjaer também estava lá, desta vez como titular. O Barcelona de Louis van Gaal, por sua vez, merecia respeito. Luis Figo e Rivaldo eram os dois protagonistas, em uma equipe que contava com Giovanni, Luis Enrique, Boudewijn Zenden, Phillip Cocu e outros notáveis. De quebra, ainda aconteceu a estreia continental de um jovem Xavi, saindo do banco no segundo tempo.

A situação até pareceu sob controle do United no primeiro tempo. Em 25 minutos, dois cruzamentos de Beckham permitiram a ampla vantagem do time. No primeiro, Giggs emendou de cabeça para dentro. Depois, Yorke acertou uma bicicleta que o goleiro Ruud Hesp defendeu, mas Scholes não perdoou no rebote. A reação do Barcelona começou na etapa inicial, com um gol de Figo anulado e um milagre de Schmeichel, mas a rede só balançou depois do intervalo. Sonny Anderson aproveitou uma sobra de Rivaldo para arrematar de primeira e o pernambucano sofreu pênalti que Giovanni converteu. Todavia, aquela seria mesmo uma partida de Beckham. E o meio-campista apresentou todo o seu talento cobrando faltas para retomar a vantagem. Um chute venenoso fez a curva por dentro da barreira e morreu no ângulo, sem chances para Hesp. Pena que a perfeição não valeu tanto. Os mancunianos cometeriam outro pênalti, desta vez para Luis Enrique garantir o empate por 3 a 3.

Apesar da diferença desperdiçada, Ferguson saiu aliviado com o empate. O pênalti que fechou a contagem rendeu também a expulsão de Nicky Butt e durante 20 minutos os anfitriões precisaram se segurar com um jogador a menos. “Perdemos o nosso ímpeto, nosso plano de jogo e nossa forma. Estou feliz com o resultado no final, porque poderíamos ter perdido”, sentenciou o comandante, após o embate.

Na sequência da competição, o Manchester United manteve o ritmo forte. Venceu os dois jogos contra o Brondby e saiu da Alemanha com o empate contra o Bayern. Já o Barcelona ficou ameaçado, ao sofrer duas derrotas para os bávaros e só bater os dinamarqueses. Assim, no reencontro de ingleses e espanhóis no Camp Nou, o Barça dependia da vitória para não ser eliminado. Xavi era uma das novidades na escalação do Barcelona em relação ao primeiro jogo, embora a confiança maior se depositasse no “quarteto lusófono” da linha de frente: Rivaldo, Figo, Giovanni e Sonny Anderson. Já pelo Manchester United, Yorke tinha Andy Cole como seu principal parceiro e a eterna dupla deixou algumas imagens marcantes de seu entrosamento.

Logo no primeiro minuto de jogo, o Barcelona já saiu em vantagem. Após o cruzamento de Figo e a tentativa de Rivaldo, a bola ficou com Sonny Anderson. O centroavante limpou a marcação e fuzilou Schmeichel. Era um jogo aberto, com chances para ambos os lados. Yorke tratou de igualar aos 25, em chute rasteiro de fora da área. E com as defesas aturando a pressão, a virada do United só ocorreu no segundo tempo. Uma jogada mágica entre Yorke e Cole. Os dois atacantes botaram a zaga blaugrana na roda com uma linda tabela, até que o inglês ficasse com o caminho livre e mandasse no canto de Hesp.

A situação complicada, porém, provocou o melhor de Rivaldo. O camisa 11 teve uma de suas melhores atuações pelo Barcelona, apesar do resultado insuficiente. Aos 12 minutos, já empatou com uma cobrança de falta excepcional. O chute cheio de efeito seguiu ao canto do goleiro e Schmeichel terminou enganado pela trajetória da bola, morrendo mansa nas redes. O United não se entregou. Yorke exigiu um milagre de Hesp, antes de retomar a vantagem aos 23 minutos, em novo cruzamento perfeito de Beckham. Mas Rivaldo não deixou barato. Cinco minutos depois o craque já empatava novamente, com um gol antológico. O brasileiro adormeceu a bola cruzada em seu peito, antes de virar uma bicicleta fulminante, indefensável. Um tento com sua assinatura mais característica. No fim, o Barça ainda precisava de mais um gol para sobreviver. Ainda confiava em Rivaldo. E a virada só não aconteceu porque a bomba que o pernambucano soltou da intermediária explodiu no travessão, enquanto Schmeichel fez uma defesaça à queima-roupa diante de Giovanni. Alívio dos ingleses, que se mantinham vivos.

“Para ambos os times, foi uma noite de completo desapego, jogada exatamente no espírito de deixar o melhor time vencer”, avaliaria Ferguson, sobre a epopeia na Catalunha. Eliminado, o Barcelona cumpriu tabela derrotando o Brondby em Copenhague. Já o Manchester United empatou por 1 a 1 com o Bayern de Munique em Old Trafford. Os alemães terminaram com a liderança da chave, mas a pontuação dos ingleses foi suficiente para avançarem como um dos dois melhores segundos colocados. O tira-teima da fase de grupos com os bávaros aconteceu no Camp Nou. E dessa história certamente ninguém se esquece, com o maior épico já vivido pelos Red Devils. Solskjaer voltará ao velho palco daqui uma semana para recontar.