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Houve muita coisa na temporada 2019/20 da Premier League além da quebra do jejum de títulos ingleses do Liverpool: zebras, recuperações, novos times fortes e novos craques, além da primeira experiência da Inglaterra com o VAR.

Selecionamos dez histórias para passar a régua na longa temporada – de começo de agosto a fim de julho – do Campeonato Inglês. Apenas 10 porque, afinal, a próxima já está chegando.

Recordes do Liverpool

Quando o Liverpool ganhou 26 das 27 primeiras rodadas, a grande pergunta era quantos recordes baterias. No fim, o relaxamento após a conquista do título acabou diminuindo um pouco a campanha, e faltou um ponto para chegar aos 100 do Manchester City de 2017/18, mas ela ainda foi boa o suficiente para uma série de marcas importantes da Premier League.

25 pontos – maior vantagem que um time já teve na liderança; terminou em 18

7 rodadas – o título foi conquistado a sete rodadas do fim, superando as cinco do Manchester United de 2000/01 e o City de 2017/18

32 vitórias – igualou o recorde do Manchester City de 2017/18 ao vencer o Newcastle na rodada final

18 vitórias – ao lado do City de 2017/18 e 2018/19, o Liverpool ganhou 18 dos seus 19 jogos em casa, com um empate contra o Burnley; chegou a vencer 24 partidas seguidas em Anfield ao longo de duas temporadas, superando o recorde de 20 do City entre 2011 e 2012

110 pontos – maior total de pontos ao longo de 38 rodadas, sem necessariamente serem do mesmo campeonato, à frente de 102 do City (2018) e do Chelsea (2005)

61 pontos – melhor começo da história da liga, com 61 pontos em 63 possíveis em 21 rodadas, e o recorde foi estendido a 79 em 81 possíveis antes da derrota para o Watford

Sheffield United

Billy Sharp marcou na vitória contra o Bournemouth, no fim de semana (Foto: Getty Images)

Se Jürgen Klopp não tivesse vencido a liga com 99 pontos, Chris Wilder seria unanimidade como melhor técnico da temporada. Ainda podemos defender o caso. Menor folha salarial da Premier League. Gastou alguma coisa, mas não muito e em jogadores de segunda divisão, pelo menos até janeiro, quando arrebatou Sander Berge, promessa do Genk. O maior feito foi mostrar que é possível não apenas sobreviver na Premier League, mas também se divertir. E que vale mais a pena ter um grupo coesa e boas ideias do que gastar montanhas de dinheiro para tentar se estabelecer na elite. O Sheffield United passou praticamente a temporada inteira na parte de cima da tabela, chegou ao quinto lugar, brigou de verdade por vaga em competições europeias e teria tido boas chances de conquistá-la se a paralisação não lhe tirasse o embalo. Sem precisar apelar para estratégias extremamente defensivas ou rústicas, embora tenha levado poucos gols. Foi até responsável por uma inovação tática no ataque: os zagueiros ultrapassando e buscando a linha de fundo para fazer os cruzamentos.

Super Bruno

Pogba e Bruno Fernandes, do Manchester United (Divulgação/Manchester United)

Bruno Fernandes precisou de apenas meia temporada para ser a melhor contratação da Premier League e candidato a uma das melhores da história na janela de janeiro. Transformou o Manchester United como poucos conseguiram. Há comparações até com Eric Cantona, embora seja melhor ter um pouco de cautela até ele conquistar mais do que uma vaga na Champions League. Ainda assim, o retorno do Manchester United à competição aconteceu graças à maneira como ele se encaixou imediatamente ao time e melhorou todos ao seu redor. Os números são ótimos. Oito gols e sete assistências em 14 jogos. Todas as ações ofensivas pareciam passar pelos seus pés. Tão importante quanto foi a maneira como ele melhorou todo o clima do clube e reforçou a confiança dos companheiros. Até Paul Pogba retomou a boa forma depois da paralisação e o torcedor saliva pela primeira temporada completa com os dois, um afiado Anthony Martial e os garotos Rashford e Greenwood.

Steve Bruce até que foi bem

Steve Bruce (AP Photo/Scott Heppell)

O futuro do Newcastle segue incerto, enquanto a Premier League não aprovar ou cancelar a venda para os sauditas. Consequentemente, o futuro de Steve Bruce também está indefinido. Mesmo que ele não continue, pelo menos realizou o sonho de treinar o clube do seu coração. Sua contratação não foi recebida com muito otimismo pelos torcedores. O currículo não apresentava feitos nem parecidos aos de Rafa Benítez. No fim, fez campanha similar à da última temporada do campeão europeu. Bruce somou um ponto a menos, mas também salvou o Newcastle do rebaixamento sem grandes sustos e ficou em 13º lugar. O estilo de jogo não mudou demais, ainda com foco na defesa e dependendo de brilhos individuais na frente. Joelinton sofreu para fazer o papel de Salomón Rondón e terminou sua primeira participação na Premier League com apenas dois gols. Allan Saint-Maximin, por outro lado, foi uma revelação. Era mais ou menos o melhor que dava para esperar de Steve Bruce e agora os torcedores aguardam mensagens das salas de diretores para saber se Mike Ashley irá embora ou não.

A recuperação de Danny Ings

Danny Ings, do Southampton (Getty Images)

Quando era jogador do Burnley, Danny Ings recebeu a oportunidade pela qual todos esperam: a chance de defender um dos maiores clubes do país. Sua passagem pelo Liverpool, porém, foi praticamente cancelada por dois longos períodos afastado por sérias lesões. Quando se recuperou, havia concorrência mais forte e lhe faltavam ritmo e confiança. Não era certeza que conseguiria recuperá-los. Conseguiu. A versão de Ings que vimos nesta temporada foi a melhor de todas. Marcou 22 gols, mesma coisa que Pierre-Emerick Aubameyang, do Arsenal, e apenas um atrás de Jamie Vardy. Provou ser um atacante de elite da Premier League, como prometia quando surgiu, e foi essencial para que o Southampton se recuperasse da goleada por 9 a 0 para o Leicester e escapasse do rebaixamento com folgas.

O quase do Leicester

Leicester City (Getty Images)

O gostinho que fica na boca é amargo, mas o Leicester precisa olhar para o todo. Foi uma temporada de afirmação e evolução. O objetivo sempre foi aproveitar a exceção do título com Claudio Ranieri para tentar se estabelecer em um patamar maior da Premier League e o caminho parece correto. Apesar da fragilidade do segundo pelotão e da derrocada no fim, ficar 33 rodadas entre os quatro primeiros é um feito impressionante. Um bom futebol foi apresentado, há jovens interessantes, uma espinha dorsal e Liga Europa pela frente. É importante o diagnóstico para explicar apenas quatro vitórias nas últimas 17 rodadas, o quanto foi um problema técnico, tático ou psicológico. Certo é que as lesões pesaram, especialmente dos dois laterais titulares e de James Maddison. Reforçar o elenco será essencial, ainda mais com competição europeia pela frente em uma temporada que será apertada.

A mágica de Potter

Graham Potter, do Brighton (Foto: Getty Images)

Graham Potter não tem métodos convencionais e não teve medo de encarar um grande desafio. Havia feito barulho suficiente no Östersund, da Suécia, e no Swansea, na segunda divisão, para chamar a atenção da Premier League. O problema é que suas ideias de jogo eram diametralmente opostas às de Chris Hughton, que havia subido com o time e, às duras penas, mantido-o na primeira divisão. Queria dar um passo à frente em estilo, tentar tomar a iniciativa das partidas, divertir um pouco mais sua torcida. O elenco não foi reformulado, a maior dificuldade. Ainda assim, houve sinais positivos. O Brighton foi o time que teve uma quantidade maior de bons jogos em que não conseguiu resultados, perdeu relativamente pouco – 15 vezes, menor total dos últimos dez colocados ao lado do Southampton – e ainda arrancou boas vitórias contra Arsenal (duas vezes), Everton e Tottenham. Será interessante acompanhar como essa equipe se desenvolverá na próxima temporada se recrutar os jogadores certos.

Bandeiras que se foram

David Silva, do Manchester City (Foto: Getty Images)

A Premier League perdeu mais de 700 partidas de história nesta temporada em duas bandeiras que se despediram depois de militarem de maneiras diferentes. Leighton Baines foi uma presença constante, discreta e imensamente competente ao longo de 420 partidas, a maioria pelo Everton. Um servidor dos mais fiéis e leais. David Silva atuou 309 vezes pela inglesa, quase sempre vencendo, encantando, dando lindos passes e fazendo golaços. Conquistou quatro vezes a liga e foi um fio condutor de todo este novo projeto do Manchester City. Vale também uma menção honrosa ao goleiro Gomes, que deixou o Watford após o rebaixamento e ainda não deu pistas de seu próximo passo. Fez 195 jogos pelos Hornets e pelo Tottenham. Seu último, porém, foi em 2018.

O dono do time

Jack Grealish, do Aston Villa

Os números talvez não digam tanto, embora ele tenha sido líder nas duas principais estatísticas pelo Aston Villa. Os oito gols e seis assistências de Jack Grealish foram apenas parte de sua enorme contribuição para a permanência do campeão europeu na Premier League. Bastava assistir aos jogos para ver como ele era o dono do time. Tudo passava pelo jogador que, com larga distância, foi o que mais sofreu faltas no campeonato. Média de 4,6 em cada uma das 36 partidas que o inglês disputou. Natural porque ele precisou segurar muito a bola e cavar umas bolas paradas quando a coisa estava difícil e as coisas quase sempre estiveram difíceis para o Villa. Apagou qualquer dúvida de que tem qualidade suficiente para jogar na Premier League e a grande questão agora e se o continuará fazendo pelo Villa ou por outro clube.

Resistência

“Matando a paixão, matando a atmosfera, matando o jogo. Acabem com o VAR agora”, diz faixa de protesto da torcida do Crystal Palace (Getty Images)

A primeira temporada do assistente de vídeo foi tortuosa em todas as ligas, mas nada comparado à Inglaterra. Digamos que o encontro entre o famoso tradicionalismo inglês com uma mecanismo que muda a dinâmica do jogo causou conflitos. Os árbitros levaram ao pé da letra o lema da mínima interferência e deixaram vários lances passarem. A primeira revisão no monitor ao lado do gramado aconteceu apenas em meados de janeiro, quando já havia muitos protestos de torcedores, críticas de parte da imprensa e das famosas linhas nos eixos das axilas. E o pior de tudo é que, no fim, caso mais polêmico envolvendo a tecnologia foi com a linha do gol, que acabou deixando passar um gol do Sheffield United sobre o Aston Villa porque todas as câmeras do sistema Hawk-Eye estavam bloqueadas.

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