O meio-campista Arturo Vidal é uma das figuras mais importantes da seleção chilena que se tornou a melhor da sua história. Conquistou dois títulos, com a Copa América em 2015 e 2016, mas amargou uma decepção grande: a ausência da Copa 2018. O jogador deu uma entrevista que abordou a seleção chilena, a sua situação no Barcelona – onde ele diz estar insatisfeito -, do sonho de voltar à América do Sul para defender o Colo Colo e ganhar uma Libertadores e também dos protestos que acontecem no país.

Problema com Bravo 

Em outubro de 2017, o Chile viveu um péssimo momento. Foi quando acabou eliminado, sem mais chances de chegar à Copa do Mundo de 2018, mesmo com dois títulos seguidos de Copa América em 2015 e 2016, o melhor momento da história da seleção. A esposa de Claudio Bravo fez críticas nas redes sociais e acusou os jogadores de irem a festas e não treinarem por estarem bêbados. Algo, claro, rechaçado pelo elenco. As rusgas seguem e mesmo com o retorno de ambos à seleção, não houve acerto.

“Não, porque a minha forma de ser é muito diferente. Sou de uma linha pura. Claramente meu primeiro sonho é jogar pela seleção, voltar a uma Copa do Mundo e se o treinador me chama, eu vou da melhor forma e dou o meu máximo. Sigo pensando o mesmo desde que aconteceram os problemas”, comentou o jogador em entrevista ao diário El Mercurio.

“A mulher de Bravo nos acusou de irmos a uma festa durante as Eliminatórias e não treinarmos depois por estarmos bêbados. Não falei com Claudio durante a concentração em Alicante. Sou bastante homem para dizer as coisas na cara. E disse há dois anos, quando aconteceram os comentários dos seus familiares. Não sei se me entendeu, porque nunca mais falamos”, contou o jogador, atualmente no Barcelona.

Na última data Fifa, os dois jogadores se encontraram na seleção chilena, que se concentrou em Alicante, na Espanha. E foi bastante contundente quando falou sobre o que aconteceu. “Um dos dois devia dar o primeiro passo [falar em Alicante] e não era eu…Por isso não criei problemas e cada um treinou individualmente. Ele deu tudo, eu também e a equipe viu dessa maneira. Não somos amigos e não seremos amigos, mas a seleção é a coisa mais importante”.

O jogador também falou sobre como recebeu as críticas pelo seu desempenho. “Me incomodou, claro, e até hoje incomoda. Eu aguentei, com Gary e com os maiores jogadores que seguimos no processo. Quando Rueda chegou, fizemos várias viagens ao Japão. Tendo todos esses problemas, tratamos de subir novamente a seleção, de lutar pela Copa América. Foi muito duro, absorvemos muitas críticas, mas fomos como homens e aceitamos o que se dizia na imprensa”, declarou o jogador

Chegada de Reinaldo Rueda

“Ele abriu o leque para muitos jogadores, deu oportunidades de saber o que é estar na seleção. Não é fácil chegar e colocar a camiseta. Não é o mesmo que em uma equipe, onde não há tanta pressão. Na seleção, se necessita dar o máximo, não dar passo em falso na Eliminatórias”, avaliou.

Vidal tem esperança para que o Chile chegue bem às Eliminatórias. “Sim, tenho muita confiança, Os jogadores maiores conhecem 70, 80 jogadores que estão ou estiveram com boas sensações. Há bons jogadores, há talento e no momento decisivo estavam preparados”.

O meio-campista falou sobre a dificuldade de renovar o time. “Porque não apareceram jogadores da qualidade que tínhamos antes. E é normal, porque o futebol chileno está em baixa. Quando os jogadores têm a oportunidade de sair, o fazem rapidamente, não porque ganharam um nome no Chile ou se tornaram importantes, mas sim porque têm a oportunidade muito mais fácil do que quando nós estávamos”, disse o jogador.

“Eu claramente tomei a decisão [de deixar o Chile] porque me sentia preparado para sair para a Alemanha, era psicologicamente muito forte e vinha de coisas lindas no Colo Colo, havia saído três vezes campeão e havia perdido a Sul-Americana. Eu estava em um bom momento. Foi forte a mudança, mas eu soube aguentar. O jogador chileno mudou muito nesse sentido, é muito débil de cabeça, não tenho tanta fome como nós tínhamos”, avaliou.

“Não sei como será agora com os jogadores jovens, mas a todos nós nos custou. Viemos de baixo com Alexis, com Gary, com Charly, com Edu. O primeiro sonho era ser jogador. O segundo era levar nossas famílias adiante, triunfar. Também têm muito a ver com gente que te rodeia e te aconselha, que nessa fase tem que saber ouvir”, afirmou.

Barcelona

O meio-campista também falou sobre a sua situação no Barcelona, onde não está satisfeito. “Não estou contente, não estou feliz. Toda a minha carreira foi como titular e desta vez não sou. Mas estou tranquilo, estou trabalhando para dar a volta e ganhar a minha posição. Sei que vai chegar”, comentou Vidal.

“Não encontra explicação, mas há formas diferentes de ver futebol, formas de jogar, estilos. Não estou contente com a situação, mas são decisões do treinador, eu trato de ajudar quando posso e treino sempre da melhor forma. Sigo trabalhando forte, preocupado com o meu. Eu sei que o que eu faço ninguém faz. Isso me afetaria ou complicaria quando o jogador sabe que está mal, quando não está contribuindo, quando se machuca ou não treina bem. E não é o meu caso”.

“Prefiro me concentrar em melhores estes poucos detalhes que acontecem, sabendo que sempre fui titular, sempre ganhei o carinho dos meus companheiros, dos treinadores, sempre me deram confiança. E quando acontece algo como agora, é difícil. Há que se dar tudo, eu estou dando tudo e em qualquer momento chegará a minha oportunidade”, continuou o meio-campista.

Por estar jogando menos, se especula que Vidal possa ir para a Internazionale de Antonio Conte, que trabalhou com ele na Juventus. “Isso me faz lembrar muitas coisas lindas que vivi com ele. O salto de qualidade que deu para ser um dos melhores foi com a ajuda de Conte. O mais importante no futebol é a confiança. E quando um treinador assim, que é de primeiro nível, te dá confiança, te faz melhorar muito. Mas no Barcelona estou trabalhando duro para sair mais da titularidade e conseguir objetivos importantes que temos na temporada”.

Colo Colo e aposentadoria

Vidal foi revelado pelo Colo Colo em 2005, depois de vir das categorias de base do clube. Ficou dois anos no clube chileno e conquistou três títulos: Apertura em 2006, Clausura também em 2006, e o Apertura de 2007. Ainda foi vice-campeão da Sul-Americana em 2006, quando os chilenos perderam o título para o Pachuca. Foi vendido para o Bayer Leverkusen por cerca de € 5,2 milhões. Depois, passou por Juventus, Bayern de Munique e está no Barcelona desde 2018.

“Em cinco anos me imagino no Chile, se Deus quiser jogando futebol. Me aposentar no Colo Colo seria o ideal: chegar a jogar, brigar pela Libertadores, ser campeão. Se não tiver lesões, me cuido bem, e treino bem, poderia conseguir”, afirmou o meio-campista.

Depois que pendurar as chuteiras, o jogador pensa em duas opções. “Seguir envolvido com futebol como treinador ou com os cavalos, como preparador. Ultimamente eu gosto muito do que fazem os treinadores, vejo muito futebol, taticamente eu tenho aprendido muito. Isso me chama a atenção. São minhas duas paixões, farei uma delas quando me aposentar”, afirmou.

“Eu tive a sorte de ter trabalhado com os melhores treinadores. Minha carreira como jogador foi espetacular. Não sei se alguém poderá fazer o que eu fiz. Sair campeão no Chile, quatro vezes na Itália, três vezes na Alemanha e se essa temporada saio campeão na Espanha seria o segundo título em dois anos. Nove ligas consecutivas. Me falta apenas a Champions e seria algo maravilhoso e histórico para um chileno. Chegar aos 32 anos assim, como estou agora, é um sonho. Não há muitas pessoas que podem dizer isso”.

Protestos no Chile

“É super difícil ver o nosso país assim, as pessoas, os protestos, mas chegou o momento que meus compatriotas tenham os direitos que merecem. Eu vi os protestos: foi muito lindo ver um milhão e 200 mil pessoas se manifestando. É algo que diz que o país ficou insatisfeito e precisa de mudanças urgentes”, comentou Vidal.

“Não é apenas o aumento do metrô [a passagem aumentou cerca de 30 pesos, próximo a R$ 0,20], são coisas que a gente não pode suportar. Se estivesse no Chile, eu ficaria encantado de sair às ruas, porque sou um chileno a mais e quando o país se junta e pede algo, todos têm que estar na mesma. Vemos amigos, parentes, quanto custa ir ao hospital, você espera por eles e muitas pessoas que não conseguem operar, porque os quartos estão lotados. As pensões muito baixas dos nossos avós, o preço da água, da luz. Muita gente não consegue chegar ao fim do mês”.

O jogador lamenta estar longe neste momento. “Sensação de impotência, vontade de estar lá”. Além disso, sente “preocupação com a família, amigos. Você quer estar lá, mas é difícil”.