Os três gols no jogo do recorde contra o Southampton deram um impulso extra a Jamie Vardy, mas a artilharia da Premier League diz muito mais sobre o momento do camisa 9. O centroavante chegou aos nove tentos na competição, superando Sergio Agüero e Tammy Abraham no topo da lista de goleadores. Às vésperas de completar 33 anos, a lenda das Raposas preserva as suas virtudes, sobretudo nas arrancadas e na capacidade de definição. E, mesmo dentro de um esquema de jogo diferente sob as ordens de Brendan Rodgers, seus números atuais superam os registros de outros tempos gloriosos com o clube.

Desde que Rodgers assumiu o Leicester, Vardy anotou 18 gols em 20 partidas pela Premier League, além de ter servido duas assistências. Terminou a temporada passada já em alta, com nove gols em dez rodadas do Campeonato Inglês. A média se repete neste início de campanha, com algumas atuações decisivas. Das seis vitórias das Raposas até o momento, cinco tiveram tentos do veterano – e, em três delas, ele abriu o placar ou empatou o jogo.

A média de gols de Vardy com Rodgers supera seus números com qualquer outro treinador desde que chegou ao Leicester. A maior média anterior tinha acontecido sob o comando de Craig Shakespeare, mas foi insuficiente para sustentar a continuidade do técnico. Nem mesmo com Claudio Ranieri as marcas do centroavante foram tão boas. Embora tenha balançado as redes por 11 rodadas consecutivas, o camisa 9 fez 15 gols nos primeiros 20 jogos da campanha do título em 2015/16. Terminou a milagrosa temporada com 24 tentos, um a menos que Harry Kane, artilheiro naquela edição do campeonato.

Em entrevista à Sky Sports, Brendan Rodgers analisou a forma recente de Vardy. E apontou como a versão atual do artilheiro é ainda melhor do que a de 2015/16: “Jamie esteve nessa grande jornada em 2015/16 e conquistou o título, mas ele nunca sentiu que aquilo era suficiente. Ele poderia ter ficado satisfeito com o título, mas ainda está muito faminto e determinado em seguir melhorando, em ser o melhor que pode. Ele quer desenvolver o próprio jogo, o que é animador”.

“Jamie é mais rápido em arrancadas de 15 metros do que qualquer outro jogador com quem já trabalhei. Se nós conseguirmos os espaços para ele jogar, então sabemos que escapará da marcação, porque sua explosão é incrível. Ele foi obviamente abençoado pela genética, mas também se preserva bastante. Está mais maduro agora, treina duro todos os dias. Todos os testes que Jamie realizou na pré-temporada mostraram que ele está mais rápido do que em 2015”, complementou o treinador.

Uma discussão pertinente se concentra sobre a forma de jogo do Leicester. Vardy deu tão certo em 2015/16 porque geralmente tinha espaços para romper as linhas defensivas com sua velocidade, no futebol vertical praticado por Claudio Ranieri. À medida que as Raposas se transformaram no time a ser batido, o centroavante não foi tão prolífico. Para Brendan Rodgers, mesmo que Vardy não seja um atacante tão participativo com a posse de bola atual, o segredo de sua fase está em explorar suas características nos momentos certos dos jogos.

“Na época do título, o Leicester jogava mais nos contra-ataques e aproveitava a velocidade de Vardy nas transições. Gostamos de pensar nisso agora, mas com uma posse de bola mais perigosa. Preferimos jogar rápido, em um modo agressivo que se combina com Jamie. Se um time recuar contra nós, temos que saber tocar a bola. E se você terá 60% de posse, precisa de jogadores que se sentem confortáveis neste esquema”, afirmou Rodgers.

O reflexo disso está no rendimento de Vardy além do “Top Six” da Premier League. O centroavante sempre teve ótimos números contra os principais adversários da competição, não apenas por crescer em jogos grandes, mas também por ter mais espaços para explorar os contra-ataques. Quando era treinado por Claudio Ranieri, Claude Puel e Nigel Pearson, o artilheiro mantinha médias de gols superiores contra o “Big Six” do que contra os demais oponentes da Premier League. Com Craig Shakespeare, os números eram similares. Já Brendan Rodgers ajudou o centroavante a se tornar mais produtivo contra esses clubes menores. Sua média atual contra times de fora do “Big Six” chega a 1,23 tentos por aparição.

“Jamie não é um atacante como Roberto Firmino, que busca o jogo e se combina com os outros a todo momento, mas ele é um jogador de primeira linha e tem claro o papel que solicitamos a ele. Pedimos que permaneça um pouco mais no centro do ataque. Você não precisa estar envolvido nas construções, enquanto outros jogadores apreciarem o que você pode fazer quando recebe a bola. Isso depende dos demais servirem os passes. Então, Jamie pode disparar, jogar mais afastado, jogar atrás da linha. Ele sabe que estamos trabalhando para garantir as oportunidades, não precisa se preocupar com isso agora. Ele será julgado pelos gols que marcará”, adicionou o treinador.

E a precisão de Vardy nos chutes fala por si. O artilheiro possui um aproveitamento de 45% em suas finalizações na atual edição da Premier League. São dois arremates em média por partida, enquanto a quantidade de gols é de 0,9 por jogo. Outros 30 jogadores no campeonato arrematam mais vezes que Vardy, mas nenhum deles supera a efetividade do camisa 9 do Leicester. Isso tem a ver com o baixo envolvimento do veterano ao longo dos 90 minutos, mas também à maneira como seus companheiros quase sempre entregam chances claras para o matador arrematar. Nos 9 a 0 sobre o Southampton, foram apenas cinco finalizações para seu hat-trick.

Rodgers detalha a maneira como o Leicester atua em função de Vardy e também como ele molda as defesas adversárias: “Se você estiver jogando contra Jamie, a tentação sempre será afundar sua linha de marcação. Para encarar isso, o Leicester precisa de jogadores abertos dos lados do campo e posições preenchidas na faixa central. Depois, é sobre trabalhar a bola para ele. Jamie acrescentou em seu jogo esse elemento, em que ainda é capaz de lidar com o jogo quando os times não oferecem espaços. Ele tem feito isso muito bem. Contra o West Ham, ele ficou em uma posição de impedimento, antes de voltar na hora certa e conseguir marcar. É um conceito diferente, mas como ele é brilhante, consegue fazer bem esse trabalho”.

Além do mais, há uma ética de trabalho de Jamie Vardy que determina o seu impacto no jogo do Leicester, independentemente de sua idade. A quem já tomou vodca com balas para se recuperar de uma lesão, o veterano hoje em dia exibe um cuidado bem maior para prolongar sua carreira em alto nível – inclusive, ao se aposentar da seleção. E há um interesse do camisa 9 pelo esporte, por seu entorno, que surpreendeu até mesmo o treinador durante os primeiros meses de trabalho com as Raposas.

“Foi uma grande surpresa quando cheguei. Você pode pensar nele apenas como um artilheiro, mas Jamie conhece o futebol por dentro. Seu posicionamento e sua leitura de jogo são ótimas. Ele entende o futebol, realmente ama o esporte, assiste a tudo. Quantos jogadores jovens realmente fazem isso? Mas ele está sempre assistindo aos jogos, falando sobre futebol. Eu gosto desse nível de entendimento que Jamie possui”, afirmou Rodgers. “Foi sua própria decisão deixar a seleção e claramente ele deseja prolongar a carreira. Nós também damos alguns dias a mais de folga. Tentamos gerir o tempo dele para que ele permaneça sempre inteiro. É sobre saber o que é bom para ele. Apenas queremos que continue assim”.

Nesta terça-feira, Vardy terminou poupado da vitória por 3 a 1 sobre o Burton Albion, pela Copa da Liga Inglesa. Poderá ampliar sua série na Premier League durante o próximo domingo, quando o Leicester visita o Crystal Palace. As Raposas possuem uma série de alternativas ofensivas, como o triunfo sobre o Southampton bem mostrou. Mas é sempre bom respeitar o centroavante que continua protagonizando os grandes momentos das Raposas.