O que começou lá atrás como um rumor que parecia fazer pouco sentido foi ganhando forma e se concretizou, por fim, nesta segunda-feira (29). Barcelona e Juventus oficializaram as negociações de Arthur e Pjanic. O brasileiro vai a Turim, enquanto o bósnio toma direção contrária. Vale frisar que, tecnicamente, não é uma troca, já que foram transferências separadas. E, para analisá-las, é preciso olhar sob diferentes prismas.

Em termos técnicos, parece claro que quem leva a melhor nessa negociação trocada são Arthur e Juventus. O brasileiro, depois de dois anos em que ficou devendo no clube catalão, ganha a chance de um recomeço em um clube de ponta na Europa, cercado de companheiros de qualidade e podendo subir alguns degraus na hierarquia de disputa por uma vaga de titular.

Já a Juve abre mão de um jogador de 30 anos, com valor de mercado em queda, para obter um com muitos anos de carreira pela frente e bom potencial a ser explorado. Ao Barcelona, é claro, basta inverter essa lógica, embora valha a pena acrescer que Pjanic tem a possibilidade de acrescentar um impacto imediato que parecia distante com Arthur.

Nada disso são termos absolutos, é claro, mas apenas as condições com que podemos ver as transferências no momento. Posto isso, esmiucemos cada lado da história.

Em sua primeira temporada no comando da Juventus, Maurizio Sarri faz campanha aquém do esperado e falha em entregar o desempenho exigido. Nesta equipe, na primeira metade da temporada, Pjanic seguia atuando em grande nível, mas passou a ter uma queda de rendimento aproximadamente por volta da virada do ano. Com suas atuações mais recentes, sua saída ficou mais simples de ser visualizada.

Na tradicional forma de jogar das equipes de Sarri, Arthur chega como nome para preencher a vaga de primeiro meia à frente da dupla de zaga, responsável por receber a bola e iniciar a fase ofensiva com sua capacidade de controle e visão de jogo. Em outras palavras, como se popularizou dizer nos últimos tempos, para ser “o Jorginho de Sarri”.

Neste cenário, a mudança de ares é muito interessante a Arthur. O Barcelona já tem em Busquets alguém com função parecida, e o brasileiro não conseguiu tomar seu lugar ou justificar uma presença como companheiro do espanhol, sendo o segundo homem de meio de campo. Na Juventus, de bastidores muito menos tensos do que aqueles na Catalunha, e de um elenco mais equilibrado, Arthur tem uma nova chance de cumprir seu potencial.

O brasileiro teria ficado reticente diante da proposta inicial da Juve, ainda desejando sua afirmação no Barça. Nos últimos dias, porém, aceitou a oferta. O aumento salarial na Velha Senhora foi um dos fatores que contribuíram ao “sim” de Arthur. O meio-campista recebia €2,2 milhões fixos anuais no Camp Nou e seus ganhos serão de pelo menos €5 milhões em Turim, conforme a imprensa catalã. O alto salário de Pjanic permitiu a manobra, enquanto os impostos também são menores na Itália.

O Barcelona, por outro lado, vive um momento de transição em seu meio de campo. O jovem Riqui Puig pede passagem, Rakitic estaria de saída, e em um momento de incerteza, Pjanic chega para ser um nome certeiro, dando maior margem para apostas no setor. No entanto, não se pode eliminar completamente o espaço para o imprevisível, e uma questão de encaixe e entrosamento, por exemplo, seria suficiente para impor um obstáculo à produtividade do bósnio em uma nova equipe.

Financeiramente, falando apenas em termos de valores, não parece haver dúvidas de que o negócio é muito mais favorável à Juventus do que ao Barcelona. Os termos oficiais divulgados mostram que a contratação de Pjanic, de 30 anos, pelo Barça foi de € 60 milhões mais € 5 milhões em variáveis, por um contrato de quatro anos, enquanto a Juve desembolsa € 72 milhões mais € 10 milhões em variáveis por Arthur, de 23 anos, em um vínculo que vai até 2025.

Aqui, no entanto, entra um detalhe contábil muito importante e que, por fim, pode explicar a própria existência desta transação. Este ponto foi levantado pela conta Swiss Ramble, no Twitter (@SwissRamble). O perfil explica que jogadores são vistos como ativos dos clubes, que, quando os compram, diluem seu preço ao longo dos anos de contrato. A venda de atletas, por outro lado, é registrada imediatamente no balanço.

Mais especificamente, Arthur foi comprado pelo Barcelona em 2018 por cerca de € 30 milhões, em um contrato de seis anos. Nas contas, portanto, divide-se o valor total pelos anos de contrato, e temos o valor contábil do brasileiro registrado como € 5 milhões por ano. Como dois anos se passaram, o valor contábil atual de Arthur era de € 20 milhões, e a venda por € 72 milhões mais € 10 milhões em variáveis representa, em termos contábeis, um lucro de pelo menos € 52 milhões.

Do outro lado, Pjanic foi comprado pela Juventus em 2016, por € 35 milhões e com contrato de cinco anos. Sua amortização anual, portanto, era de € 7 milhões. Seu valor contábil era de € 21 milhões após dois anos. Em 2018, seu vínculo foi renovado até 2023. Desta forma, sua amortização anual foi reduzida a € 4,2 milhões. Levando em conta todas as amortizações, o valor contábil do bósnio atualmente no registro da Juventus é de € 13 milhões. Ao vendê-lo por € 60 milhões mais € 5 milhões em variáveis, o clube italiano registra então, contabilmente, um lucro de ao menos € 47 milhões.

Com Barcelona e Juventus sendo alguns dos clubes gigantes que nos últimos anos têm mostrado maior propensão a potencialmente enfrentarem problemas com o Fair Play Financeiro, por causa das folhas salariais inchadas, a transação atual nestes termos parece uma boa solução de curto prazo às partes. Isso tudo, é claro, poderá cobrar seu preço mais pra frente.

O Barça, por exemplo, tem agora um jogador que, em seus balanços, representará amortização anual de pelo menos € 15 milhões. Se decidir vendê-lo em 2022, quando seu valor contábil seria de € 30 milhões, precisaria arrecadar mais do que isso com a venda para registrar um lucro, o que é mais difícil à medida que a idade do atleta avança. Mas aí é problema do próximo presidente, não é, Bartomeu?