Andrey Arshavin marcou uma geração do futebol russo. O meia-atacante foi o principal expoente do Zenit campeão da Copa da Uefa, assim como também protagonizou a Rússia na caminhada até as semifinais da Euro 2008. Os feitos falam por si. Porém, também torna-se inescapável a noção de que sua carreira nunca fez jus ao potencial que um dia demonstrou. O talento era inegável, embora nunca exibido com a regularidade que se exigia. A passagem pelo Arsenal e a decorrente estagnação indicam a decepção que circundou a trajetória do veterano. Uma carreira de momentos, que valeram sua fama, mas limitada diante daquilo que poderia ser. Aos 37 anos, o russo pendura as chuteiras, após passar as últimas temporadas defendendo o Kairat Almaty.

Nascido na então Leningrado, filho de um jogador amador, Arshavin teve uma juventude complicada. Quase faleceu em um acidente de carro e encarou dificuldades após a separação dos pais. O Zenit se tornou uma válvula de escape, com o garoto integrando desde cedo as categorias de base celestes. Ganhou sua primeira chance como profissional em 2000, virando uma peça importante no setor ofensivo do clube. Atuou em diferentes posições, se destacando pela postura incisiva e pela participação nos gols, seja balançando as redes ou servindo assistências. O ápice ocorreu com a conquista do Campeonato Russo em 2007. Ainda assim, a Liga Europa de 2007/08 serviu para o meia habilidoso ficar em evidência além das fronteiras.

E a reputação de Arshavin explodiu com a Euro 2008. Aos 27 anos, o atacante arrebentou na competição, liderando a surpreendente campanha dos russos. Era irresistível a habilidade do camisa 10 para fulminar as defesas adversárias. Além de anotar um gol na vitória decisiva sobre a Suécia, que valeu a classificação aos mata-matas, o russo teve uma fantástica nas quartas de final, quando sua equipe derrubou a Holanda na prorrogação. Ao término da Eurocopa, Arshavin foi eleito para a seleção do campeonato. Também apareceu bem na disputa pela Bola de Ouro, sexto mais votado na eleição. E como seria natural, passou a atrair o interesse de alguns dos maiores clubes da Europa Ocidental. Era completo, entre a visão de jogo, a habilidade nos dribles, a velocidade e o chute potente.

O Zenit tentou segurar Arshavin enquanto pôde, recusando algumas propostas polpudas. Todavia, a vontade do camisa 10 acabou pesando para que ele buscasse novos ares. Em janeiro de 2009, após uma intrincada negociação, o atacante assinou com o Arsenal. Seria o começo do fim. Em um clube que não era exatamente o que se via no início da década, Arshavin também nem de longe foi o que se esperava. Viveu de lampejos, como no inesquecível empate por 4 a 4 contra o Liverpool, em Anfield. A quem chegou para ser o novo craque no Emirates, afundou-se junto com o clube sem conquistas expressivas. Depois de um início promissor, logo virou uma figura decorativa no elenco. Uma frustração aos Gunners, enquanto seguia como uma figura importante, embora não tão desequilibrante à Rússia.

Arshavin, que já não era exatamente jovem, retornou ao Zenit em 2013. Passou meia temporada emprestado, antes da contratação em definitivo. Voltou a ganhar títulos, sem a importância de outrora ao grupo. Passaria alguns meses no Kuban Krasnodar, até admitir seu ostracismo em 2016. Transferiu-se ao Kairat Almaty e, diante do modesto nível do Campeonato Cazaque, virou rei. Não conquistou a liga, mas ofereceu seus espasmos e participou da Liga Europa. Inclusive, foi eleito o melhor do país em 2016. Se não tinha a badalação de antes, ao menos sustentava a sua reputação. E o fim da linha veio no domingo, com a última rodada da liga local. Longe de competir com o campeão Astana, o Kairat encerrou a campanha com o honroso vice-campeonato.

Os números de Arshavin são dignos. Anotou 158 gols em 690 partidas, sendo 17 tentos em 75 aparições pela seleção russa. Acumulou três títulos nacionais, além de ser eleito o melhor do ano na Rússia e no Cazaquistão. Mas não era isso que sua pujança prometia naquele prolífico ano de 2008. As atuações sensacionais já valeram a memória. No entanto, também uma impressão de que tudo não passou de uma mera ilusão superestimada.


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