Arsenio Erico, a lenda que despontou na Cruz Vermelha e se tornou espelho para Di Stéfano

Maior artilheiro do Campeonato Argentino, o atacante chegou a marcar 132 gols pelo torneio em apenas três temporadas

Durante a virada do século, a IFFHS elegeu os melhores jogadores do século. Apenas seis dos 50 primeiros nunca disputaram a Copa do Mundo e, entre os sul-americanos, somente um no Top 10 não jogou a Copa América. Se marcar época pela seleção é quase sempre pré-requisito para colocar um craque entre os melhores da história, Arsenio Erico não precisou disso. Até hoje o maior artilheiro do Campeonato Argentino, El Saltarín Rojo chegou a recusar uma proposta em dinheiro para defender a Albiceleste, em uma época na qual os jogadores no exterior não costumam servir as suas equipes nacionais. Mesmo sem nunca envergar a Albirroja em jogos oficiais, Erico é considerado o maior paraguaio de todos os tempos.

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A história de Arsenio Erico no futebol, por coincidência, começou sob as cores da bandeira do Paraguai. O garoto estreou no Nacional quando tinha apenas 15 anos e logo se tornou a sensação da Academia, potência do Campeonato Paraguaio durante os anos 1920. Porém, o jovem atacante teve pouco tempo para fazer o seu nome em Assunção. Em 1932, estourou a Guerra do Chaco, entre paraguaios e bolivianos. Para sua sorte, o prodígio era menor de idade para ir ao front, mas se juntou ao time da Cruz Vermelha, que passou a excursionar para levantar fundos aos feridos no conflito.

Se o Nacional o revelou, Erico realmente estourou com a camisa da Cruz Vermelha. Com a equipe solidária, o atacante de ótimo porte físico e faro de gol apuradíssimo chamou a atenção dos argentinos. Passou por Bahía Blanca, Montevidéu e Buenos Aires. Na capital vizinha, arrebentou em um amistoso contra o River Plate. O suficiente para que se tornasse objeto de cobiça de algumas das principais equipes do país.

Erico_vs_river_1935

O River Plate quis levar o garoto, mas acabara de gastar uma fortuna para contratar Bernabé Ferreyra, que se tornou o jogador mais caro do mundo poucos meses depois da instituição do profissionalismo no futebol argentino. O destino quis mesmo que ele vestisse o vermelho do Independiente. Quando estava em um acampamento com os jogadores paraguaios na cidade de Merlo, um sócio alvirrubro o fez se interessar pelo clube de Avellaneda. Erico estava próximo de completar 18 anos e se alistar para o exército. O Independiente negociou não apenas com o Nacional, mas também com o Departamento Geral de Guerra. Por uma doação de 2 mil pesos à Cruz Vermelha e mais 2,5 mil ao jogador, o atacante fechou contrato.

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Longe das trincheiras, Erico se tornou artilheiro nos campos portenhos a partir de 1934. Em 13 temporadas no Independiente, o centroavante somou 295 gols em 325 partidas, números que o tornam absoluto como maior goleador do futebol argentino. E justo em uma época de ouro para os atacantes no país. Entre os concorrentes do paraguaio, na época, estavam ídolos como Bernabé Ferreyra, Francisco Varallo, Isidro Lángara, Evaristo Barrera e Ángel Labruna. Inclusive, influenciou outro craque que apenas começava. “Erico é diferente de todos, de todos que eu vi. Um jogador notável, que engloba tudo o que as seis letras da palavra craque dizem. Era um malabarista, um artista. Perdão, um grande artista”, analisou ninguém menos do que Alfredo Di Stéfano, que, apesar de torcer pelo River Plate, costumava ir aos jogos do Independiente só para ver Erico. Durante a Copa de 1966, quando a Flecha Loira encontrou pessoalmente com o ídolo, teria afirmado: “Eu sou apenas um pequeno imitador seu”.

O ápice de Erico aconteceu entre 1937 e 1939, quando foi por três vezes seguidas o artilheiro do Campeonato Argentino. Anotou espantosos 132 gols em apenas 96 partidas, números mais do que suficientes para humilhar Messi ou Cristiano Ronaldo – sendo que, em 1937, balançou as redes 47 vezes, ainda hoje o recorde absoluto do torneio. Nesta época, recebeu a oferta de 200 mil pesos (quando o carro do ano custava cinco mil) para defender a Argentina rumo à Copa de 1938. Recusou porque era paraguaio. O Paraguaio de Ouro, que os argentinos lamentavam por ter nascido do outro lado da fronteira e que aplaudiam a cada rodada.

Contudo, Erico nunca teve a chance de disputar um jogo oficial pela seleção paraguaia. No máximo, teve mais duas passagens pelo futebol de seu país natal, para defender as cores do Nacional: em 1942, quando ganhou o Campeonato Paraguaio, e em 1948, para encerrar a carreira, após uma passagem já apagada pelo Huracán – onde, curiosamente, substituiu o “fã” Di Stéfano, que passou pelo Globo por empréstimo antes de voltar à Máquina do River.

Assim como Di Stéfano, quem viu Erico o coloca entre os centroavantes mais completos que já existiram. “Aquele que encerrou a eterna discussão entre o drible e a ciência do gol, o homem do espetáculo e o goleador. O homem completo que domina a bola no alto e na grama. Cinquenta por cento de seus gols não são padrão, mas levam a marca de sua fábrica, seu selo de originalidade, produto da sutil elaboração das circunstâncias e da inspiração do momento. O artista da bola, o artesão do gol”, definia a revista El Gráfico, em 1938. Por sua impulsão impressionante, diziam que saltava por um trampolim invisível. Graças a ela, inventou o “balancín”, o toque de calcanhar no alto, mais conhecido atualmente como “escorpião”.

Erico permaneceu celebrado mesmo depois de sua aposentadoria. Como justa homenagem, deu uma volta olímpica antes de um amistoso entre Argentina e Paraguai, em 1970. Sete anos antes de falecer, em decorrência de problemas cardíacos. Atualmente, o velho craque batiza o estádio do Nacional, assim como setores do Estádio Libertadores da America e do Defensores del Chaco – onde seu corpo está guardado em um mausoléu desde 2010, após ser repatriado da Argentina. Nesta segunda, 100 anos depois de seu nascimento, Arsenio Erico ainda é um ídolo muito acima dos muitos gols pelos clubes ou dos jogos de seleção que não fez.

Para complementar a leitura, também recomendo o texto do amigo Caio Brandão no Futebol Portenho, com mais detalhes sobre a carreira do craque. E mais uma dica imperdível: o sempre FRENÉTICO site do Nacional Querido homenageando o grande mito do clube.