Arsenal demitiu o seu mascote para economizar migalhas e deu uma chance muito fácil para Özil virar herói

Quem acompanhou de perto o discurso dos principais clubes do mundo no auge da pandemia pode ficar chocado com a informação de que eles movimentaram mais de € 3 bilhões na última janela de transferências. Aproximadamente metade da temporada passada, é verdade, mas, ainda assim, € 3 bilhões nas cinco grandes ligas da Europa, cujos integrantes convenceram suas estrelas a aceitar reduções salariais para salvar empregos dos funcionários menos bem pagos – e aí, entra o Arsenal.

Alegando que receitas de bilheteria, por causa dos jogos com portões fechados, de produtos comerciais e até de direitos de transmissão seriam reduzidas por causa da pandemia, o Arsenal fechou uma redução salarial de 12,5% com a Mikel Arteta e o time principal. A porcentagem caiu para 7,5% com a vaga na Liga Europa conquistada por meio do título da Copa da Inglaterra. No começo de agosto, porém, o clube anunciou a demissão de 55 funcionários para “garantir que estamos operando de uma maneira sustentável e responsável, que nos permita continuar investindo no time”.

O fato de o Arsenal ter demitido funcionários de apoio enquanto renovava com Aubameyang por uma bala, enquanto contratava o zagueiro Gabriel por € 26 milhões, enquanto dava um contrato de três anos para Willian e continuava pagando Mesut Özil para nunca jogar gerou críticas, mas não havia causado comoção porque números abstratos não causam a mesma comoção de pessoas concretas – ou fantasiadas.

No entanto, na mesma semana em que o Arsenal decidiu pagar a cláusula de rescisão de € 50 milhões do volante Thomas Partey, oferecendo um salário de € 275 mil por semana, a torcida descobre que o simpático mascote Gunnersaurus também foi demitido – não o dinossauro, claro, dinossauros não existem (mais), mas o homem que vestia a roupa de dinossauro, Jerry Quy, há 27 anos.

Sempre difícil medir reações coletivas pelas redes sociais, mas houve reação de torcedores famosos, com Piers Morgan, de ex-jogadores como Ian Wright, uma chuva de mensagens e até uma página de financiamento coletivo que havia arrecadado £ 10 mil até a tarde desta terça-feira. O Sevilla, comandado pelo gênio do mercado Monchi, aproveitou para surfar na onda e anunciou a contratação do Gunnersaurus.

Segundo a The Athletic, o Gunnersaurus não conta como um dos 55 demitidos, porque era um funcionário de meio-período, mas faz parte do mesmo processo de redução de custos. A racionalização não chega a ser absurda – um mascote que anima a torcida não tem muita utilidade em um campeonato sem torcida – e o Arsenal, de acordo com a reportagem, prometeu que ele retornaria no futuro.

No entanto, um clube com responsabilidade social e com a sua comunidade, em situações adversas, deveria proteger seus servidores mais vulneráveis em vez de buscar pequenos mecanismos de eficiência que não farão grande diferença no âmbito geral das coisas. Quanto pode ganhar um cara que veste uma fantasia de dinossauro uma vez por semana? € 65 mil por ano? € 75 mil? Não há nenhuma tabela com as folhas salariais de mascotes da Premier League, mas as estimativas estão em torno desse valor.

E o Arsenal não controlou a mensagem. O timing foi péssimo, em meio a uma contratação milionária, e a informação foi vazada à The Athletic em vez de ser passada aos torcedores em canais oficiais, explicando que o mascote está sendo apenas temporariamente afastado enquanto os estádios estão vazios e que ele, sei lá, voltaria em alguns meses com um aumento salarial ou uma fantasia mais bonita. Ainda não seria ideal, mas faz parte da gestão de crise.

A inépcia do Arsenal, porém, abriu uma oportunidade muito, muito fácil para Mesut Özil sair por cima, praticamente uma bola rolada na pequena área, sem goleiro. Uma das reações mais comuns à notícia era que o clube estava demitindo um funcionário amado que ganhava pouco e estava sempre presente enquanto pagava muito a um funcionário não tão amado assim que não entra em campo desde março – e, quando entrava, não fazia mais nenhum olho brilhar com demonstrações de técnica e raça. Logo, o que Özil fez?

“Fiquei tão triste de saber que Jerry Quy, também conhecido como nosso famoso e leal mascote Gunnersaurus e parte importante do nosso clube, estava sendo demitido após 27 anos. Por isso, eu me ofereço a reembolsar o Arsenal com o salário completo do nosso homenzarrão verde enquanto eu for jogador do Arsenal para que Jerry possa continuar a executar o trabalho que ele tanto ama”, escreveu Özil no Twitter, com a hashtag #JustiçaParaOGunnersaurus.

Assim, gesto louvável de Özil. Um pouco menos louvável quando a gente percebe que o salário dele de € 385 mil por semana – uns € 20 milhões por ano – consegue bancar 267 Gunnerssaurus e que, por enquanto, ele decidiu salvar o emprego apenas do funcionário que lhe oferece o melhor retorno de relações públicas. Os outros 55 que foram dispensados não eram importantes ou leais ao clube? Certamente não eram tão famosos.

Além disso, Özil se recusou a aceitar a redução salarial proposta pelo Arsenal, o que também é seu direito. Alegou que o processo foi apressado, sem uma consulta adequada aos jogadores, e que, por mais que ele estivesse disposto a adiar vencimentos enquanto havia tanta incerteza e até aceitar um corte se fosse necessário, a situação financeira do clube não era clara no momento em que ele foi pressionado pela diretoria a tomar uma decisão. Ele, então, recusou, e disse à The Athletic que não foi o único. “Mas apenas meu nome foi divulgado. Acho que é porque as pessoas têm tentado me destruir há dois anos”, explicou.

Ao se recusar a aceitar um corte salarial de 12,5%, Özil economizou aproximadamente € 2,3 milhões. Em 7,5%, seria em torno de € 1,5 milhão. Conseguiu recuperar um pouco da sua imagem desembolsando € 75 mil (na pior das hipóteses, não muito mais do que isso), o que é uma tacada de mestre do ponto de vista financeiro e de relações públicas que pôde existir apenas porque o Arsenal conduziu muito mal a tentativa de economia menos inteligente da história do futebol.

Uma história sem heróis. Com exceção do homem que passou boa parte da sua vida adulta se vestindo de dinossauro para alegrar as pessoas. Esse, sim, merece aplausos. O Arsenal ainda não confirmou se aceitará a generosa oferta de Özil.

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