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O texto escolhido para esta quinta foi publicado originalmente no site, em julho de 2015. Fazia parte da série “entidades místicas do futebol”, publicada na nossa newsletter – que segue na ativa, exclusiva para os apoiadores do Padrim. Nele, Felipe Lobo fala sobre a mística do camisa 10 no Brasil. Leia e apoie o nosso Padrim:

 

O camisa 10 clássico, uma entidade do futebol brasileiro

Por Felipe Lobo

“Ele não é um camisa 10 clássico”. “Falta um camisa 10, 10 mesmo, não só de número, mas de característica”. “Falta alguém para pensar o jogo”. “Não produzimos mais camisas 10”. “Falta um autêntico camisa 10”.

Mudam os adjetivos, mas não o fetiche. O camisa 10 é buscado há tempos, com uma fé maior que em algumas igrejas – e, em alguns casos, cobram até um dízimo que chamam de sócio-torcedor, sempre na esperança de um milagre. Mas quem é o tal camisa 10 clássico? Quem é essa entidade no futebol brasileiro, que tanto se cobra e pouco se vê? Quem, afinal de contas, tem essa figura no seu elenco?

Na Alemanha, campeã do mundo, não há um “camisa 10 clássico” (não me venham falar de Özil). Na Espanha também não. Na Itália, menos ainda. Na Argentina, o 10 é Messi, que é um craque, mas está longe do fetiche do camisa 10 clássico. Na Copa América, os camisas 10 eram completamente diferentes entre si. Neymar é um atacante, mais do que tudo, com mais características de finalização do que de armação; James Rodríguez é um jogador que mais chega ao ataque do que arma jogadas; Valdívia é, talvez, o que mais se aproxime desse delírio coletivo de camisa 10 clássico, mas no Palmeiras não deixou saudades.

O 10 clássico que se pede é um jogador quase impossível. Um armador de jogadas, que tenha visão de jogo, que tenha um passe milimétrico e toques de genialidade. Precisa fazer gols, mas também precisa estar na construção das jogadas. Precisa chutar bem, passar bem, cabecear na área, vir buscar o jogo com os volantes. Precisa ser um grande passador, mas também um grande finalizador; tem que ter a “elegância” de Didi na armação e a frieza de Romário em frente ao gol. Precisa ser um 10 que nunca houve, mesmo que vários craques tenham vestido esse número, mas com características muito diferentes um do outro.

O tal camisa 10 clássico é uma entidade do futebol brasileiro. Os times buscam como um Santo Graal, como a salvação da lavoura. Talvez por isso tenha havido tanta esperança com Paulo Henrique Ganso quando ele surgiu e a decepção com ele seja tão grande. Se imaginou que ele poderia ser o “’10 clássico”, mas ele nunca foi. Tanto que Muricy o cobrava para entrar na área e fazer gols, se cobra que ele é um jogador muito lento, que participa pouco do jogo.

Um delírio coletivo que busca no passado um jogador que raramente existiu. Zico era um 10 clássico ou um craque com a camisa 10? Pelé talvez não tenha sido um 10 clássico, se aproximando muito mais de um atacante. Rivaldo, o 10 do penta, era mais atacante do que armador. Nos anos 1960, Ademir da Guia vestia a 10 do Palmeiras e, mesmo sendo craque, era criticado por ser “lento” e “sobrecarregar Dudu”, o volante do time. Alex, anos depois, vestiria a mesma 10 do Palmeiras e seria tachado de Alexotan, inclusive na seleção. O 10 do tetra era Raí, que nunca foi um armador de jogadas propriamente dito, mas muito mais um ponta de lança, fazia muitos gols e com muitas qualidades técnicas, mas altamente criticado, desde as Eliminatórias até a Copa, quando foi para o banco para a entrada de Mazinho, um volante. Zinho, que vestia a 9 em 1994, mas vestiu a 10 no Palmeiras quando Rivaldo chegou ao time, era uma espécie de armador, mas foi apelidado injustamente de “enceradeira”. Para ser o “10”, é preciso lances plásticos, bonitos, espetaculares. Não basta ser um craque do passe, que faça o time jogar. É preciso ter algo de Ronaldinho no auge.

Muito se diz que a camisa 10 ganhou a relevância que tem por causa de Pelé, envergando a 10 do Santos e da seleção, conquistando três Copas do Mundo. Talvez a melhor definição para o que Pelé fez foi criar a camisa 10 mística. Um número que Rivellino usou, no Corinthians, Fluminense e seleção, Rivaldo no Barcelona e na seleção, Giovanni, o messias, no Santos e no Barcelona, Raí no São Paulo, Edmundo e Roberto Dinamite no Vasco, mesmo sendo atacantes puros, Neto, no Corinthians, Dirceu Lopes, no Cruzeiro e tantos outros, completamente diferentes entre si. Talvez não haja um camisa 10 clássico. Nós buscamos mesmo é a camisa 10 mística.


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