A ideia inicial deste texto ficcional (qualquer semelhança com a realidade significa que finalmente conseguiram inventar a máquina do tempo) foi do amigo Vinicius Intrieri, que nos permitiu desenvolvê-la e também escreveu sua versão. Texto publicado originalmente em 8 de julho de 2016.

As cores que decoram a sala não deixam muito espaço para dúvida. Seu ocupante pode ser torcedor do Norwich ou da seleção brasileira, mas, como Pelé nunca atuou pelo clube inglês, nem Garrincha, nem Sócrates e nem Romário, alguns dos homens que pertencem à coleção de pôsteres que adorna as paredes, a segunda opção parece muito mais provável. Pacheco está sentado no sofá, com as pupilas dilatadas, há muito tempo. A programação da televisão avançou, embora sua expressão perplexa tenha permanecido intacta desde que Howard Webb apitou pela última vez. Ele ainda não se atreveu a mudar de canal. Espera ouvir novamente a voz de Galvão Bueno, dizendo que foi tudo uma grande confusão, aquela bola na verdade acertou o travessão e os jogadores se preparam para cobrar os pênaltis. Tocar no controle remoto é tornar a tragédia definitiva.

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Pacheco contraria a opinião consensual da imprensa de que o torcedor não se importa mais com a seleção brasileira. Ele se importa. E muito. Mais do que com o Atlético Mineiro, seu time de coração. O pai dele foi um dos sobreviventes do Sarriá, um dos poucos que seguiu em frente amando o time do Brasil com a mesma intensidade, sem se desiludir com a derrota para a Itália. Assistiu a todos os jogos de todas as Copas até morrer, precocemente, sem comemorar o redentor título do tetracampeonato. Entre amistosos, Copas América e os Mundiais do México e da Itália, houve tempo suficiente para injetar a sua paixão pelo time nacional no filho que começava a formar o seu caráter.

Contava histórias das grandes lendas do passado que ele viu jogar com os próprios olhos. A Batalha de Berna. A imbatível dupla formada por Pelé e Garrincha. Os lançamentos de Didi. As feras do Saldanha. O que Jairzinho aprontava pela ponta direita. As cobranças de falta de Zico, as defesas de Gilmar e Leão e como Dadá, atacante do Galo que os dois também amavam, causou um entrevero entre presidente e técnico do Brasil. Histórias que foram repassadas ao filho de Pacheco, o Pachequinho, junto com as suas próprias: sobre 1994, Ronaldo e Romário, Taffarel, Coreia do Sul e Japão, para onde viajou no começo da vida adulta, e o quadrado mágico.

Mas a nova geração não está tão receptiva assim. Pachequinho ama futebol, mas, por algum motivo que o pai ainda não desvendou, dá mais atenção ao Chelsea. Tem três camisas do Milan, mas só uma da Seleção, que tirou do embrulho com cara de frustração no seu aniversário de 13 anos. Quando o flagrou usando a Espanha, contra o Brasil, no jogo de videogame da Copa do Mundo de 2014, decidiu que era hora de uma intervenção. Atacou o dinheiro da poupança e comprou dois ingressos para a semifinal do Mineirão. Tinha certeza que conseguiria convencer o filho a compartilhar a sua paixão se ele visse Neymar e companhia desfilarem pelo gramado do seu estádio favorito vestindo a amarelinha.

O plano era ótimo, e a Espanha até contribuiu para a execução. Seria o Chile, um grande freguês, o adversário do Brasil nas oitavas de final.  Na opinião de Pacheco, a vitória já estava encaminhada quando David Luiz fez 1 a 0, aos 18 minutos do primeiro tempo. Ele abriu mais uma cerveja, jogou o amendoim na boca e se preparou para ver outra goleada contra os chilenos. Mas, desta vez, não foi assim que a banda tocou. O Chile empatou, pressionou, tocou a bola e envolveu o Brasil, como se os papéis históricos tivessem se invertido. A pressão foi tão gigantesca que a perspectiva de disputar a vaga nos pênaltis representou um alívio para Pacheco, no momento em que a prorrogação chegava ao fim.

Só que Pinilla tabelou com Alexis Sánchez e soltou uma bomba, que acertou a parte inferior do travessão, bateu no chão, além da linha de meta, e subiu aos céus. A tecnologia confirmou que o Chile fizera 2 a 1 aos 14 minutos do segundo tempo do tempo extra. Confirmou que o Brasil estava eliminado nas oitavas de final. Confirmou que a Copa do Mundo de 2014 ficaria duas semanas sem seu anfitrião. Confirmou o que Pacheco, um segundo depois do apito final, já tinha concluído ser a pior tragédia da seleção brasileira, sua pior derrota futebolística e o pior dia da sua vida desde a morte do pai. Confirmou que ele nunca teria o filho como companheiro para ver jogos do Brasil como ele havia sido para Pachecão.

Se ele pudesse pelo menos voltar no tempo.

***

Eram três horas da manhã do dia do jogo do Brasil pelas oitavas de final da Copa do Mundo, e Pacheco andava pelas ruas que circundam o Mineirão com um senso de propósito. Sabia o que precisava fazer e também que poderia se complicar se fosse pego em flagrante. Estava disposto a correr o risco. Há coisas mais importantes do que a liberdade, sustentar a família e comer feijão tropeiro. Futebol, por exemplo.

Ficou surpreso quando abriu os olhos e constatou que havia retornado à noite anterior à derrota para o Chile. Em um primeiro momento, chegou a pensar que havia acordado de um pesadelo de mau gosto, mas a ressaca causada pelo whisky que precisou ser ingerido para ele conseguir dormir um pouco era bastante real. Conhecia aquela dor de cabeça de outros carnavais.

Desejou tanto voltar no tempo para ter a chance de reverter a eliminação brasileira que acabou funcionando. Como? Não sabia. Não tinha memória de ter entrado em nenhum DeLorean recentemente. Outro dia, havia visto um filme com aquele bonitão, o Ashton Kutcher, em que o protagonista voltava no tempo quando lia as páginas do seu diário. Mas Pacheco não tinha um diário. Como também não era mágico, todas as possibilidades em que conseguiu pensar se esgotaram, e ele deixou o assunto de lado. Era irrelevante naquele momento. O que ele precisava fazer era colocar colocar seu plano em prática com urgência.

Chegou a um dos portões secundários do Mineirão e foi recebido por Carlinhos, um antigo colega de escola e um dos seguranças noturnos do principal estádio de Belo Horizonte. Tomaram rumos diferentes desde o colegial, mas o futebol tratou de juntá-los no sofrimento pelo Atlético Mineiro. Encontram-se em todos os jogos e pelo menos uma vez por mês comem uma bela feijoada para colocar o papo em dia. Mediante a promessa de que a próxima reunião mensal seria bancada inteiramente por Pacheco, Carlinhos concedeu o pedido do amigo e permitiu que ele fizesse um tour noturno pelo Mineirão antes das oitavas de final.

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Naturalmente, a visita teria que acontecer em um momento que não tivesse ninguém dentro do estádio. Pacheco não ligou para o horário. Ao contrário, era o único momento em que seu plano poderia ser executado com algum grau de segurança. Enquanto rodavam pelos corredores externos do estádio, foi ao banheiro e abriu um dos boxes. Entupiu uma das privadas com papel higiênico – não muito, para não levantar suspeitas – e usou as habilidades de encanador que aprendeu no seu primeiro emprego para soltar a descarga. Nas suas contas, tinha entre 10 e 20 minutos até a enchente tornar-se visível.

Voltou à companhia de Carlinhos e pediu para descer ao gramado, aproximar-se de onde a bola rolaria em algumas horas. Sentaram-se no banco de reservas, contemplando um dos grandes palcos da Copa do Mundo, e Pacheco pensou que, mesmo que o plano não desse certo, a aventura já valeria a pena por aquele momento.

“Carlinhos, tá na escuta?”, ouviu no rádio do amigo, “o banheiro 23 está transbordando. Você pode checar o que aconteceu?”

“Era nesse que você estava. Tinha alguma coisa estranha?”

“Não. Estava tudo normal”, respondeu Pacheco, mais omitindo do que mentindo.

“Merda. Pode esperar aqui um pouco? Vou ver o que é e já volto. Só não pisa o gramado, ok?”

“Ok”.

Assim que Carlinhos sumiu de vista, Pacheco não só pisou o gramado como saiu correndo em direção ao lado que o Brasil defenderia no segundo tempo da prorrogação no dia seguinte. Com rapidez e destreza, cavou sutilmente em volta da trave que toca o chão no lado esquerdo da linha de fundo, reuniu suas forças para levantá-la e a afastou um pouco para trás. Aprofundou o buraco em não mais que dois centímetros, o que julgou ser o bastante, recolocou a trave no lugar e arrumou os arredores para fingir que ninguém esteve ali. Pulou as placas de publicidade e fingia estar olhando para as arquibancadas quando Carlinhos reapareceu.

“Pacheco, desculpa, cara, mas todas as privadas entupiram, a descarga disparou e eu vou passar a noite inteira consertando isso. Você vai ter que ir embora”.

***

Era impossível alguém apresentar um sorriso maior que o de Pacheco no dia seguinte, por volta das 15h23 daquele sábado, quando ele viu, pela segunda vez, Pinilla tabelar com Alexis Sánchez e soltar o foguete de perna direita. A bola acertou novamente o travessão, mas em cheio e voltou para a intermediária. O Chile recuperou-a, mas não conseguiu armar outra jogada de ataque. O Brasil aguentou até o fim e, na disputa de pênaltis, venceu por 3 a 2 e avançou às quartas de final.

Foi uma classificação épica e heroica, apesar de o desempenho ruim ter preocupado. Mas com Felipão era assim mesmo. Inimigos e dificuldades fazem parte da sua estratégia. O mais provável é que fortalecesse o time para a sequência do campeonato. Um jogo tão emocionante que Pachequinho ligou imediatamente para o pai, exultante com a vitória brasileira como Pacheco nunca havia visto. O garoto não via a hora de ir à semifinal, que provavelmente seria contra França ou Alemanha, e o agradeceu por ter comprado os ingressos.

O plano corria bem, mas ainda havia a Colômbia no meio do caminho, e Pacheco não sabia quantas vezes poderia voltar ao passado para consertar os erros da defesa brasileira. No entanto, o jogo foi mais fácil do que o esperado, e o Brasil venceu bem, por 2 a 1, sem levar sustos. A nota triste (desesperadora) foi a lesão de Neymar, que levou uma joelhada nas costas do colombiano Zúñiga e estava cortado da Copa do Mundo. Ao ver o atacante contorcendo-se no chão, e posteriormente emocionado na televisão, Pacheco sentiu-se culpado. O atacante do Barcelona só sentia aquelas dores porque ele havia interferido no curso natural das coisas. E, sem o craque, as chances brasileiras de ganhar a Copa do Mundo eram menores.

A adversária da semifinal seria a Alemanha. Pacheco estava otimista, mesmo com o desfalque de Neymar. O adversário havia sofrido para passar da Argélia e eliminou a França em um jogo bastante equilibrado. Achou que Felipão acertou a escalação, com Bernard no lugar de Neymar para atacar o lateral esquerdo Höwedes, que a maioria dos analistas considerava o ponto fraco da seleção de Joachim Löw. A alternativa seria colocar um terceiro volante, mas a melhor estratégia era mesmo jogar com coragem, sem medo, indo para cima da Alemanha. Como Brasil.

Além disso, Thiago Silva havia recebido o segundo cartão amarelo e estava suspenso. Achava que era um bom zagueiro, mas não aceitou a postura do capitão antes dos pênaltis contra o Chile, sentado na bola e prestes a chorar. O substituto seria Dante, jogador do Bayern de Munique, que conhecia muito bem os alemães.

Chegou ao estádio otimista. Pediu uma cerveja, mas imediatamente mudou de ideia. Comprou duas e deu a segunda para o filho, que a recebeu com surpresa. Ainda era menor de idade e nunca havia recebido permissão do pai para ingerir bebida alcoólica. Mas Pacheco achava que aquela era uma boa ocasião para finalmente dividir um brinde com Pachequinho.

Foram aos seus assentos, eram duas das quase 58.141 pessoas que cantaram o hino nacional a capela antes da partida, e se preparam para o jogo. O mexicano Marco Rodríguez autorizou que a bola rolasse, e a tensão cresceu dentro de Pacheco. Era importante demais que o Brasil vencesse. Ele podia perceber que o filho estava a um estalo de se apaixonar pela seleção brasileira tanto quanto o pai. Dois jogos, um título, e isso seria concretizado. Mas, aos 11 minutos, Müller abriu o placar. Klose ampliou, pouco depois, superando Ronaldo como o maior artilheiro da história das Copas. Kroos emendou outros dois gols em coisa de 200 segundos, e Pachequinho, que estava contido diante do atropelamento alemão para não irritar o pai, não se aguentou mais. “Virou passeio”, disse.

Pacheco não precisou nem do apito final para dilatar as pupilas e ficar perplexo. O quinto gol da Alemanha, marcado por Khedira, antes que o jogo tivesse meia hora de vida, cumpriu essa missão. Mas foi o segundo comentário de Pachequinho que o empurrou ao estado de pura catatonia: “Se isso acontecesse no videogame, eu já teria saído do jogo e começado outro”.


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