Durante 13 anos, Aron Winter foi um dos emblemas da seleção holandesa. O meio-campista disputou todas as competições internacionais com a Oranje entre 1988 e 2000. Participou de quatro Eurocopas e de três Copas do Mundo, elo entre times inesquecíveis dos holandeses. E, por mais que não tenha sido titular em todos eles, serviu de referência. Não à toa, quando se aposentou da equipe nacional, era o recordista em partidas com a camisa laranja, 84 no total. Jogador que aliava técnica e força física, construindo uma carreira de respeito na virada da década de 1980 para a de 1990, e que permanece na memória afetiva de muita gente. Nesta quarta, Winter completou 50 anos.

Nascido no Suriname, o meio-campista fez o mesmo caminho de tantos outros jogadores de sucesso. Mudou-se na infância para a Holanda, iniciando sua carreira no pequeno Lelystad, do interior. De lá, foi pinçado pelo Ajax aos 19 anos. Juntou-se inicialmente às categorias de base, mas logo chamaria atenção de Johan Cruyff, técnico da equipe principal dos Godenzonen. Winter transformou-se em uma das principais revelações do gênio em sua passagem pelo banco do clube, ao lado de Dennis Bergkamp. E o impacto do novato foi imediato: estreou em abril de 1986, substituindo Frank Rijkaard. Marcou o terceiro gol na vitória por 3 a 0 sobre o Utrecht.

Em sua segunda temporada no Ajax, Winter já se tornou titular. Oferecia dinâmica ao meio de campo e marcava os seus gols, em um time estrelado, que ainda contava com Marco Van Basten no comando do ataque. No entanto, aqueles eram anos dominados pelo PSV de Guus Hiddink e Ronald Koeman. Naquela temporada, os Godenzonen faturaram a Copa da Holanda. Mas o jovem teria que aguardar até 1989/90 para experimentar seu primeiro sucesso no Campeonato Holandês. Foi, inclusive, o artilheiro do time, com 10 gols anotados, à frente mesmo de Bergkamp. Por um ponto, o clube de Amsterdã superou o PSV, com Romário e tudo.

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Os principais sucessos de Winter em seus tempos de Ajax, entretanto, aconteceram além das fronteiras. Em 1987, estava em campo no Estádio Olímpico de Atenas, quando Van Basten anotou o gol do título da Recopa Europeia, em cima do Lokomotive Leipzig. Cinco anos depois, já como um dos emblemas do time de Louis van Gaal, celebrou a Copa da Uefa. Graças aos gols fora de casa no primeiro jogo, com empate por 2 a 2, seguido por um 0 a 0 em Amsterdã, os Godenzonen bateram o Torino de Casagrande, Scifo, Lentini e Marchegiani.

Ao mesmo tempo, Winter ganhava espaço na seleção holandesa. Sua primeira partida aconteceu em 1987, saindo do banco nas eliminatórias da Euro 1988. O meio-campista foi convocado por Rinus Michels para a fase final da competição e, embora não tenha entrado em campo, eternizou seu nome entre os campeões. Um episódio curioso, aliás, aconteceu após a vitória sobre a Alemanha Ocidental, na semifinal. Na saída do estádio, o garoto começou a provocar Lothar Matthäus enquanto este dava uma entrevista, arrancando risadas de seus companheiros no ônibus. Mal sabia ele que o troco viria dois anos depois. A única partida de Winter na Copa de 1990 foi justamente contra os alemães, nas oitavas de final. Titular, viu o triunfo germânico por 2 a 1. Matthäus terminou o torneio com a taça.

Em 1992, após chegar às semifinais da Eurocopa, Winter aceitou um novo desafio. Segundo suas próprias palavras, encerrou seu desenvolvimento como jogador e queria se provar entre os melhores. Para isso, não havia melhor destino do que a Itália. A Juventus tentou contratar o surinamês, mas ele optou pela Lazio. Acabou atraído pela capital, pelo estilo de jogo dos laziali e pela missão de recolocar o clube nas competições continentais pela primeira vez desde 1977/78. Tornou-se o primeiro negro a vestir a camisa biancocelesti.

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O começo da passagem de Winter pela Lazio não foi fácil. O meio-campista precisou lidar com o preconceito de parte da torcida. Ouviu gritos racistas nas arquibancadas e os viu se materializarem nos muros do centro de treinamentos, com pichações contra o “negro judeu”. Justo ele, um símbolo da miscigenação: filho de um surinamês com uma indiana, também tem ascendência chinesa. Além disso, seu nome traz referências judaicas e islâmicas (Aron Mohamed), segundo ele, pelo “gosto exótico” do pai. E as raízes judaicas do Ajax serviam de pretexto para mais intolerância de grupos fascistas. No fim das contas, ao menos, o futebol preponderou.

“Eu não estava preparado para o que me aguardava em Roma. Quando eu fiz minha estreia, fiquei chocado com as vaias porque eu era negro. Normalmente, qualquer pessoa nesta situação teria pedido para sair, mas eu não estava preparado para desistir. Eu queria mostrar a essas pessoas que elas estavam erradas. Eu queria sair de campo e provar que a cor da pele é irrelevante. O clube e meus companheiros me deram muito apoio e os torcedores logo deixaram de me perseguir”, declarou à Fifa, em 2013. Quando os intolerantes se calaram, Winter chegou mesmo a deixar de falar com a imprensa, que insistia em tocar no assunto enquanto ele pretendia tratar sobre futebol.

O meio-campista passou quatro temporadas na Lazio. Algumas das melhores de sua carreira. Foi titular absoluto em todos os anos. Compôs uma equipe de respeito, ao lado de jogadores como Paul Gascoigne, Beppe Signori, Alen Boksic, Pierluigi Casiraghi, entre outros. O surinamês cumpriu sua missão logo na primeira temporada, ajudando os biancocelesti a ficarem na quinta colocação da Serie A e a avançarem à Copa da Uefa. Sua potência e sua movimentação foram fundamentais nos esquemas do clube ao longo daqueles anos, tanto sob as ordens de Dino Zoff quanto com Zdenek Zeman. “O jogador deixou uma grande memória entre os torcedores da Lazio por sua seriedade e seu rendimento. Afável e paciente, respondeu com fatos à aberrante contestação que recebeu de alguns setores dos ultras no seu primeiro ano, por ser negro e pelo nome hebreu. Winter não venceu com a Lazio, mas contribuiu com o crescimento do potencial técnico”, analisa a Enciclopédia da Lazio.

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Parte importante da seleção, na mesma época, Winter ganhou a titularidade na Copa do Mundo de 1994 durante a competição. Participou das vitórias contra Marrocos e Irlanda, até o histórico duelo com o Brasil nas quartas de final. O meio-campista incomodou muito a Seleção com sua intensidade. Marcou o segundo gol da Oranje, empatando o jogo, e deu trabalho para Taffarel. Todavia, aquela que poderia ser uma atuação definitiva do camisa 20 ruiu cinco minutos depois de seu tento, aos 36 do segundo tempo, quando Branco acertou seu famoso petardo cobrando falta. O laziali também foi titular em parte da Euro 96, em elenco marcado pelo racha interno. A Oranje caiu para a França durante as quartas de final, nos pênaltis.

Em 1996, Winter voltou a mudar de clube. Agora, se transferiu à Internazionale, em busca de títulos. E voltou a brilhar nas competições europeias. Na primeira temporada, perdeu a decisão da Copa da Uefa para o Schalke 04. Mas o mesmo título não escapou no ano seguinte, em final disputada contra a própria Lazio. Os nerazzurri enfiaram 3 a 0 no Parc des Princes, com gols de Ronaldo, Zamorano e Zanetti. O surinamês compôs a trinca de meio-campo ao lado de Simeone e Zé Elias. Em Milão, nem sempre foi tão regular no 11 inicial. Ainda assim, deu sua contribuição e ajudou os interistas a se classificarem à Champions 1998/99, a primeira em nove anos.

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Acumulando partidas pela seleção, Winter começou a Copa de 1998 como lateral direito, mas perdeu a posição para Michael Reiziger durante a primeira fase. Voltou ao time justamente durante a semifinal, substituindo o companheiro. Outra vez, sofreu com a decepção ao ser eliminado pelo Brasil. Sua última participação internacional aconteceu na Euro 2000. Era arma recorrente saindo do banco, na campanha até as semifinais. A última de suas 84 partidas pela Oranje aconteceu justamente na queda para a Itália, nos pênaltis.

Em 1999/00, Winter havia retornado ao Ajax para ser um dos líderes da nova geração. Porém, não causou o impacto esperado e perdeu espaço na segunda temporada. Acabou sem erguer taças em seu retorno para casa. Por fim, ainda passou um ano emprestado ao Sparta Roterdã, o último clube de sua carreira. Encerrou a trajetória nos gramados em 2002, aos 35 anos, com uma reputação imensa. Atualmente, trabalha como técnico, passando pelas categorias de base do Ajax e da seleção. Dedica-se a ensinar aquilo que soube fazer tão bem por quase duas décadas.