Por Arthur Chrispin

Diego não era craque. Ele era mais. Era gênio. Ele é. Não é só o menino da Villa Fiorito cantado em verso e prosa por Potro Rodrigo. Diego é o cara das decisões incertas nas horas certas.

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O apaixonado que decide inventar uma proposta do Boca falido para não ir ao River milionário. O demônio que decide ir para Nápoles quando a cidade só era conhecida pela pizza e pela máfia , para transformar o roteiro de Gomorra em filme de Sorrentino. O caça cercado por tanques que decide bombardear as defesas inglesas com dribles, logo após de entrar na cabeça e na alma de Peter Shilton com a mão do deboche de Deus.

Diego é aquele que carregou um país nas costas, com tudo que ele tem de melhor e de pior. Que era gauche na vida, nasceu e morreu gauche na vida. Difícil não era fazer o que Diego fazia, era ser o que Diego era. Na terra plana do moralismo e das opiniões de fast food, Diego suplantou a todas. Inclusive muitos dos moralistas e falsos heróis hoje curvam ou silenciam, tentando justificar o porquê. Não é preciso justificar nada, as coisas são o que são.

Diego da idiossincrasia, da iconoclastia, dos extremos, do bem e do mal. Diego da paz que não teve, das graças das quais se perdeu, do consolo nos braços de la mujer blanca, como diz a canção. O homem que de peito aberto enfrentou todos os seus medos e suas dores. E quando silenciou, o fez para sentir o alívio dos nocautes que a vida lhe deu. O menino dos vícios e virtudes, como tantos meninos e meninas, alguns que os assumem e outros que não, como é a vida, e que metáfora da vida.

Diego que enfartou dormindo, o privilégio que pertence aos poucos eleitos, de forma solene, sublime, sem sofrimento, flutuando, driblando os problemas e os pecados. Um, dois, três, ta, ta, ta. Barrilete cósmico. Diego tinha fome, morria de vontade. Diego secou de desejo e ardeu. Apita o árbitro. A mão foi se encontrar com o deus dos imperfeitos. Diego deixou a gente órfão. Diego de la gente.

Originalmente publicado no Medium.