A carreira de Alejandro Sabella como treinador principal foi relativamente curta. Não trabalhou mais do que cinco anos na função. O período diminuto, ainda assim, marcou o ápice de sua notável história no futebol: comandou o Estudiantes campeão da Libertadores após 39 anos e também levou a Argentina à final da Copa do Mundo de 2014. El Pachorra fez história como um camisa 10 habilidoso, de auge vivido no próprio Estudiantes, mesmo que a concorrência não o tenha permitido brilhar na seleção. Além disso, também trabalhou por quase duas décadas como assistente técnico, sempre como braço direito de – e neste posto faturou outras taças. Nada que se equipare, de qualquer forma, ao meteórico sucesso do técnico, no resumo de uma vida dedicada ao futebol.

Sabella não limitava seus predicados na casamata às estratégias. Também possuía uma enorme sensibilidade e tentava compreender o lado humano, numa postura que ia além dos jogadores. Descrito muitas vezes como uma pessoa íntegra e compreensiva, conseguia fazer o compromisso e a paixão se espalharem pelo elenco. Segundo suas próprias palavras, o trabalho de um treinador precisava se apoiar no conhecimento, na dedicação e na confiança – um tripé que serviria para inspirar o respeito em seus comandados. Assim El Pachorra tratava a sua carreira, mas também carregava tal postura à sua vida. Não à toa, o tributo prestado a Sabella foi imenso nas últimas horas, diante da notícia de sua morte. Com problemas cardíacos nos últimos anos, o veterano estava internado há duas semanas e faleceu aos 66 anos. É mais um gigante do futebol argentino que se vai, deixando uma tremenda lição sobre o que é amar e respeitar o esporte.

Sabella e a Brazuca no Maracanã (Jamie Squire/Getty Images/One Football)

Alejandro Sabella nasceu em 5 de novembro de 1954, em uma família de classe média de Buenos Aires. Sua introdução ao futebol aconteceu no GEBA, o Gimnasia y Esgrima da capital, um clube notável nos primórdios da modalidade no país e que manteve seu status amador – com o pai de Alejandro sendo um famoso jogador dos torneios internos. Sabella chegou a realizar testes em alguns dos gigantes argentinos, inclusive no Boca Juniors pelo qual torcia, mas não foi aprovado. No fim das contas, portas se abririam justamente no River Plate. Aos 15 anos, seria aprovado numa peneira em Núñez e passaria o fim da adolescência defendendo os millonarios, com o qual se profissionalizaria.

Filho de uma professora e de um engenheiro agrônomo, Sabella também era craque nos estudos, mas acabou optando pela bola. Sua chegada ao time de cima do River Plate levou o jovem a trancar o curso de Direito na Universidade de Buenos Aires já no segundo ano. Indo além dos livros, Sabella era engajado e cresceu ligado às causas sociais. O meia participava da Juventude Peronista e permaneceu no movimento mesmo depois de se tornar profissional – bem como depois do golpe que colocou os militares no poder em 1976. Trabalhava em projetos para ajudar bairros pobres, mesmo que pudesse ser visto como subversivo pela ditadura. “Senti uma necessidade crescente de estar sempre ao lado da solidariedade e da distribuição da riqueza por uma sociedade mais justa e igualitária, na qual todos possamos ter oportunidades iguais”, contaria o treinador, em 2014.

Alejandro Sabella no River Plate (Foto: Divulgação)

Dentro de campo, Sabella agradava por sua qualidade técnica. O meia “virou” canhoto para emular os grandes camisas 10 e exibia um talento particular para manejar a bola. Assim, alcançou o time principal do River Plate a partir de 1974, aos 20 anos. Sua promoção acompanhava também a ascensão de Daniel Passarella, seu grande amigo desde as categorias de base millonarias. O armador vivenciaria um ano histórico em 1975, com a quebra do incômodo jejum no Campeonato Argentino que perdurava desde os anos 1950. Foram três títulos nacionais de Sabella em Núñez, dando sua contribuição, mesmo sem se firmar como titular absoluto no time de Ángel Labruna – eclipsado pelo ídolo Norberto Alonso. O meio-campista também seria parte integrante da equipe vice-campeã da Libertadores em 1976, disputando nove partidas naquela campanha, incluindo as três da final vencida pelo Cruzeiro.

“Eu era jovem, estava no River, então não tinha complexos por estar na reserva de Alonso. Porque, além do mais, Beto era um grande jogador, um ídolo. A camisa do River também pesa, eu tive uma época como titular quando Alonso se transferiu à França e não consegui me consolidar. Talvez a pressão tenha pesado. Depois cresci como jogador, amadureci intelectualmente”, comentaria Sabella em 2006, à revista El Gráfico. Ou como complementaria ao La Nación: “Embora possa parecer muito duro, sempre fui muito autocrítico. Não me dei bem no River como queria. Alonso era titular há muito tempo e eu não era maduro. Tinha umas faíscas com Labruna. O jogador sempre procura uma justificativa, mas entende tudo melhor quando vira técnico”.

Sabella no Sheffield United Foto: Wikimedia Commons / El Gráfico)

Em 1977, o caminho de Sabella cruzou o de Maradona pela primeira vez. O Sheffield United tentou levar o Pibe de Oro para a Inglaterra, mas o valor oferecido não agradou o Argentinos Juniors, que pedia uma fortuna. Diego queria sair e chegou a se rebelar contra o clube. No fim, o camisa 10 permaneceria em La Paternal e as Blades acertariam a compra de Sabella junto ao River Plate. O armador não viveu anos tão abastados em Bramall Lane, num período em que o clube caiu da segunda para a terceira divisão. Apesar disso, o argentino seria idolatrado pelos ingleses, a ponto de ser considerado anos depois um dos melhores jogadores que passaram pelo clube no Século XX. Contudo, sem o retorno imediato à segundona em sua segunda temporada, o meia buscou um novo destino.

Sabella disputou a elite do Campeonato Inglês em 1980/81, com a camisa do Leeds United. O camisa 10 havia sido contratado por Jimmy Adamson, mas a demissão do técnico o prejudicou. Sem se adaptar ao estilo de jogo pedido por Clarke, antigo ídolo do clube nos tempos de jogador, o argentino sequer terminou a temporada na Inglaterra. Deixou Elland Road com os Whites na metade inferior da tabela, levado por Carlos Bilardo ao Estudiantes. Sabella dizia que o melhorou sua capacidade física e garantiu outra visão do jogo, assim como demonstrou que a determinação em campo era essencial. Em La Plata, o talentoso armador viveria o ápice de sua carreira e criaria uma relação fortíssima com os pincharratas, que iria além de sua trajetória dentro de campo.

Sabella pelo Leeds (Foto: Imago/Colorsport/One Football)

Sabella virou uma das referências técnicas no Estudiantes de Bilardo. O camisa 10 liderou a conquista do Metropolitano de 1982 e repetiria a dose no Nacional de 1983. A canhotinha funcionava não apenas para garantir seus gols, mas também passes decisivos e outros lances plásticos. Deixaria sua marca em uma equipe cheia de ícones. El Pachorra compunha um meio-campo criativo ao lado de Marcelo Trobbiani e José Daniel Ponce, outros dois camisas 10. Mais atrás, outra figura importante na proteção era Miguel Ángel Russo – o atual treinador do Boca Juniors. “O problema dos três 10 é que coordenem os movimentos. No nosso caso, se deu a conjunção de termos um 10-8 pela esquerda, como Ponce, que trazia bem a bola de trás; um 10-10 como eu, que me movimentava com liberdade; e um 10-9 que sabia jogar bem de costas para o gol e suportava todas, como Trobbiani. E um 5 tático como Russo, que já era um técnico dentro de campo e sabia organizar o time. Hoje é difícil que isso aconteça”, explicaria.

Entre as duas campanhas vitoriosas do Estudiantes no Campeonato Argentino, Carlos Bilardo ascendeu como o substituto de César Luis Menotti na seleção após a Copa do Mundo de 1982, suplantado no clube por Eduardo Manera. Pois Sabella se tornaria também um dos homens de confiança na Albiceleste. Num momento em que Bilardo só podia convocar os jogadores em atividade no país, Sabella fez sua estreia pela equipe nacional em maio de 1983 e participaria de oito jogos, incluindo a Copa América daquele ano.

O quarteto de meio-campistas do Estudiantes

Neste momento, Sabella também vivenciou as campanhas do Estudiantes na Libertadores. Os pincharratas não teriam grande sucesso em suas empreitadas continentais, no máximo alcançando o triangular semifinal em 1983. Aquela participação ficaria marcada pelos duelos com o Grêmio, com o craque presente na famosa Batalha de La Plata. Embora o duelo seja lembrado pelos tricolores por conta da violência e das quatro expulsões entre os adversários, ao Estudiantes o empate por 3 a 3 possui traços heroicos: os argentinos anotaram dois gols quando tinham apenas sete homens em campo, contra 11 gremistas. El Pachorra saiu como um dos melhores do épico. Tal lembrança ficou e o camisa 10 se mudou ao Olímpico em 1985.

Já aos 30 anos, Sabella se juntou ao Grêmio para a disputa do Brasileirão, mas a equipe teria fraca campanha e não avançou à fase final. Maior sucesso o argentino experimentou no Campeonato Gaúcho, faturado pelo Tricolor. O meia disputou a partida decisiva contra o Internacional, que consumou o título. Rubens Minelli escalou um trio de ataque com Valdo, Renato Portaluppi e Caio Júnior, mas Sabella saiu do banco ainda no primeiro tempo, após contusão de Caio Júnior. Sem causar grande impacto em Porto Alegre, com problemas de adaptação e lesões, o armador se ausentaria das Eliminatórias para a Copa em 1985. Até voltaria por empréstimo ao Estudiantes no início de 1986, mas não chamou a atenção de Bilardo para disputar o Mundial. A concorrência era duríssima, especialmente por Maradona e Ricardo Bochini. Assim, retornou ao Grêmio e, com aparições limitadas, também fez parte da campanha vitoriosa no Gauchão de 1986.

Sabella nos tempos de Grêmio (Foto: Divulgação / Grêmio)

A saída do Olímpico indicava o fim da carreira de Sabella. O meia vestiria mais uma vez a camisa do Estudiantes, mas o sucesso estava distante dos pincharratas naquela época, com o desmanche do timaço bicampeão nacional. O camisa 10 também tentou a sorte no Ferro Carril Oeste, sem emplacar, e ainda teve uma curta passagem pelo futebol mexicano pelo Irapuato. Em 1989, aos 35 anos, o armador pendurou as chuteiras. Ainda assim, não se afastou por muito tempo dos gramados: naquele mesmo momento, Passarella também vivia sua transição da zaga à área técnica do River Plate. O velho amigo o acompanharia no Monumental, para se tornar seu assistente.

Sabella passou quase duas décadas como fiel escudeiro de Passarella à beira do campo. O início seria vitorioso, com as conquistas de três títulos do Campeonato Argentino pelo River Plate, entre 1990 e 1993. Enquanto o Kaiser mantinha sua liderança no comando técnico, El Pachorra apresentava um estilo mais professoral e se encarregava de dirigir o quadro reserva, preparando os jovens que subiam aos profissionais. Desta maneira, ajudou a desenvolver talentos como Ariel Ortega, Hernán Crespo e Marcelo Gallardo. A estadia em Núñez terminaria em 1994, quando Passarella foi contratado para assumir a Argentina após a Copa do Mundo. Sabella também o acompanhou em sua empreitada na seleção, fixado como assistente principal.

Sabella com Cavallero e Roa em 1998 (DANIEL GARCIA/AFP via Getty Images/One Football)

Não seria um momento tão feliz à Albiceleste, com os argentinos sem conquistar títulos e caindo nas quartas de final da Copa de 1998. Sabella, de qualquer maneira, viveria uma experiência mundialista que deixou seus ensinamentos para 16 anos depois. E a parceria com Passarella se manteve mesmo com o insucesso no Mundial da França. O assistente igualmente trabalhou com o Kaiser na seleção uruguaia, no Parma e no . Esteve presente também na malfadada estadia de Passarella no Corinthians. Já a etapa final da dupla aconteceu novamente no River Plate, sem as mesmas glórias entre 2006 e 2007. Neste momento, Sabella cogitava dar seus voos próprios e tentar a carreira como técnico principal. “Tinha vontade de ser técnico, sobretudo por minha vocação pedagógica. Pela possibilidade de transmitir, para além da questão econômica. Sempre gostei da ideia de entregar as coisas que me ensinaram, de me sentir útil sob esse ponto de vista”, contou à El Gráfico.

O Estudiantes era um destino óbvio a Sabella. O clube tinha tentado contratar o assistente de Passarella em 2004, quando Bilardo deixou o comando, mas não houve acordo. A nova aproximação aconteceu em 2009, através de La Bruja Verón – o pai, ícone do time tricampeão sul-americano. O treinador assumiria os pincharratas no lugar de Leonardo Astrada, com o bonde andando na Copa Libertadores. A demissão do antecessor se deu diante dos riscos de uma eliminação precoce no torneio continental e o novo comandante conseguiu a reviravolta, conquistando os pontos necessários para levar o Estudiantes aos mata-matas. Faria muito mais, logo ganhando a confiança dos jogadores.

Sabella no Estudiantes (ALEJANDRO PAGNI/AFP via Getty Images/One Football)

“Cheguei num domingo e jogamos pela Libertadores na quinta. Levei uma camisa do Estudiantes na mão, porque queria incutir neles desde o primeiro momento o que sentia pelo clube e o que significava a Libertadores na história do Estudiantes. Queria fazer com que eles vissem que eu chegava como mais um deles. Apostei na mística de início. E depois dei uns conceitos futebolísticos que pretendia na tática, mas sobretudo foquei o mental, porque é o motor de tudo, como em qualquer parte da vida. Se não está bem a mente, não pode estar bem o resto”, relataria Sabella, que costumava se aconselhar com Bilardo.

Aquele Estudiantes se centrava no talento de La Brujita Verón, mas contava com uma equipe equilibrada. A defesa liderada por Mariano Andújar e Rolando Schiavi era compacta, bem protegida por Enzo Pérez e Rodrigo Braña no meio. Já na frente, Mauro Boselli e Gastón Fernández garantiam os gols. “Prefiro ganhar que jogar bem, mas tenho muito mais possibilidades de ganhar se jogamos bem”, era a filosofia de Sabella. Os pincharratas foram crescendo na Libertadores, com classificações sobre Libertad, Defensor e Nacional-URU. Já na decisão, o reencontro com o Cruzeiro que Sabella havia goleado na fase de grupos. O empate em La Plata parecia favorecer os celestes, mas o Estudiantes conseguiu uma façanha e tanto ao confirmar a taça dentro do Mineirão. Era uma revanche particular ao próprio técnico, por aquele revés em 1976 contra a Raposa.

Sabella vibra na semifinal da Libertadores (PABLO PORCIUNCULA/AFP via Getty Images/One Football)

“Eu era conservador em relação às expectativas antes de jogar essa final, mas os jogadores estavam convencidos de que íamos ganhar. E sempre há sinais… Na chegada ao Mineirão, nunca vivi algo como naquele ônibus. Faltavam 30 metros para entrar e o ônibus se mexia de uma maneira impressionante. Eu dizia aos jogadores que eles iam quebrar as janelas. Eram gritos de dentro para fora, que saíam da emoção dos jogadores. E os torcedores do Cruzeiro que estavam ao redor não sei se assustaram, mas diziam que fomos lá para ganhar. Esses foram os sinais que a equipe me deu. Quando o Cruzeiro marcou o gol, o Estudiantes manteve a calma. E isso foi chave: a experiência e a inteligência que tinha esse grupo de jogadores”, relembraria Sabella, ao La Nación.

Sabella sabia do riscado. Sua preleção antes da final do Mundial de Clubes de 2009 se consagrou como uma aula exaltada por muitos. Não conquistou o título, mas bateu de frente com o Barcelona de Pep Guardiola e só sucumbiu na prorrogação. Pedro empatou aos 44 do segundo tempo, enquanto Messi faria o tento decisivo no segundo tempo extra. “Mais que raiva, senti amargura. Se você olha os 120 minutos, o Barcelona foi um justo ganhador, mas sempre se caracterizou por minimizar seu rival. Nós, sobretudo no primeiro tempo, cortamos seus circuitos e sua habitual superioridade avassaladora não aconteceu. Fizemos uma partida extraordinária e ganhamos o respeito do mundo. Não creio ter visto nos últimos 10 anos uma equipe da categoria do Barcelona. É como uma maré que carrega a bola e vai te arrasando”, comentaria dias depois daquele jogo, à El Gráfico.

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Aquele Estudiantes daria mais frutos, com o título do Apertura de 2010 – muito por conta de uma defesa que sofreu míseros oito gols em 19 compromissos. A excelência de El Pachorra era expressa e, mesmo com uma trajetória relativamente curta como treinador principal, ele assumiu o comando da seleção argentina em 2011.

Sabella estava pronto para dirigir o Al-Jazira, mas não podia recusar a Albiceleste e cancelou seu acordo com o clube emiratense. A missão seria recuperar o moral de um time afetado pela fraca campanha na Copa América dentro de casa. Tal qual havia feito Bilardo com Maradona, Sabella transformou Messi em seu capitão. Dizia que o craque era como Picasso ou Michelangelo, o “futebol elevado à categoria de arte”. Teria o camisa 10 como um de seus esteios dentro de campo, em liderança compartilhada com Javier Mascherano. A classificação nas Eliminatórias viria sem tantos problemas, com a primeira colocação e boas mostras do potencial ofensivo à disposição dos argentinos.

Sabella conversa com os jogadores em 2014 (GABRIEL BOUYS/AFP via Getty Images/One Football)

Um dos grandes problemas de Sabella era criar uma Argentina equilibrada, entre a abundância de destaques à linha de frente e os escassos recursos mais atrás. O treinador conseguiu montar um time funcional. Não era exuberante, mas tinha sua segurança defensiva e aproveitava bem os talentos no ataque. Messi atravessou seu principal momento pela seleção, assim como outros destaques individuais eram importantes – mesmo prescindindo de Carlos Tevez, numa decisão bastante questionada na época. Foi esta a base que levou a Albiceleste a uma final de Copa do Mundo após 24 anos de espera.

“O treinador precisa ter a tranquilidade e a grandeza para se dar conta de quando se equivoca, e ter os elementos para detectar quando há alguém descontente. E tratar de se indagar para ver onde está o descontentamento. Os jogadores querem que você diga o que precisam fazer e, quando entram em campo, pensam: ‘Caramba, está passando o que me disse o professor’. Aí começam a ter confiança em você”, refletia.

Sabella antes da final (Laurence Griffiths/Getty Images/One Football)

A Argentina não fez uma campanha impecável no Mundial do Brasil, mas se impôs fase a fase. O time soube lidar com a perda de Ángel Di María, viu se tornar um talismã no gol e contou com um Mascherano gigantesco ao longo de toda a Copa. Não era o Messi do Barcelona, mas o melhor Messi já visto na Albiceleste, que também contribuiu à caminhada até a decisão. E a derrota para a no Maracanã continuará lembrada como uma partida decidida nos detalhes. A infelicidade de Gonzalo Higuaín talvez tenha sido o grande porém a uma Argentina que soube amarrar a Mannschaft. Sabella não entrou ao rol dos treinadores campeões do mundo, mas tinha motivos para receber a gratidão de seus compatriotas.

“É mais difícil chegar à final da Copa. Nós jogamos contra uma grande equipe que teve um dia a mais de descanso e na semifinal jogou praticamente por 30 minutos. Nós atuamos um dia depois, com prorrogação e pênaltis na semifinal. Considerando o desgaste físico e psicológico que isso significa, esses rapazes fizeram uma partida extraordinária. Talvez a melhor deles na Copa. A equipe cresceu, fez um jogo bárbaro”, avaliaria Sabella, depois daquela partida histórica.

Sabella à frente de seus jogadores após a derrota (Michael Steele/Getty Images/One Football)

Antes da final, Sabella havia anunciado que deixaria a direção da Argentina independentemente do resultado. E aquele seria também o último ato do treinador de 60 anos no futebol. Seu nome continuou comentado nos altos escalões do esporte, visto como uma possível solução a times em busca de mudança. Porém, El Pachorra havia se afastado da casamata para tratar da saúde. Havia sofrido uma crise de hipertensão e teve outros problemas cardíacos. Sua família guardava segredo sobre suas reais condições, mas as poucas novas imagens do veterano indicavam como ele não estava bem. Os planos de treinar um clube europeu após a Copa nunca puderam se concretizar.

A dor pela perda desta quarta seria expressa por Verón, atual presidente do Estudiantes e um dos grandes pupilos de Sabella. “As palavras nunca são suficientes quando o que é necessário dizer transborda a alma. Podemos chorar, fechar a mente, sentir o vazio ou dar as costas. Ou podemos fazer e seguir transmitindo tudo o que Ale nos ensinou. Solidariedade, nós antes que eu. Tantos valores que você marcou em nós. Vamos sentir sua falta, mas cabe a nós continuar o que você deixou. Não vamos afrouxar, nem desistir disso, fique tranquilo”, escreveu La Brujita, em suas redes sociais. Uma saudação a um verdadeiro mestre, não apenas por aquilo que ensinou em campo, mas pelos valores e ideais que transmitiu.