Aos 25 minutos, a torcida espanhola no Wanda Metropolitano começou a gritar “olé”. Parecia um pouco exagerado, em um jogo no qual a Espanha abria dois gols de vantagem sobre a Argentina, mas não tinha nada garantido. A Albiceleste até diminuiu a diferença pouco depois. Entretanto, a Roja da ótima circulação de bola também foi a velha Fúria durante o segundo tempo em Madri. Exibiu um futebol agressivo, sufocando os oponentes e com muita precisão na definição. Foi impiedosa, feroz. E uma vitória categórica se consumou no placar: 6 a 1 para o time de Julen Lopetegui, em atuação que referenda o favoritismo rumo à Copa do Mundo. Durante os minutos finais, com toda as razões, o “olé” ganhava ainda mais força nas arquibancadas.

A Espanha veio com algumas mudanças em relação à ótima exibição no empate contra a Alemanha, em Düsseldorf. Sem David Silva e Rodrigo Moreno, Isco passou a compor o trio de ataque ao lado de Diego Costa e Marco Asensio, com mais potência física. No mais, nada de novo: De Gea, Carvajal, Piqué, Ramos, Alba; Thiago, Iniesta, Koke. A Argentina, por sua vez, permanece tateando no escuro. Até pelos problemas de lesão, Jorge Sampaoli continuou realizando as suas experimentações. Sergio Romero, Marcos Rojo, Javier Mascherano, Maximiliano Meza e Éver Banega eram as novidades, com Nicolás Otamendi, Lucas Biglia e Gonzalo Higuaín servindo de espinha dorsal.

A Albiceleste começou o jogo com suas deficiências, mas também com suas virtudes. Era difícil se livrar da pressão intensa da Espanha na saída de bola, ocupando em massa o campo de ataque mesmo sem a bola. Mas quando conseguiu botar os adversários na roda, a seleção argentina criou a primeira chance claríssima da partida, aos sete minutos. Cruzamento de Meza para Higuaín, na pequena área. E o centroavante desperdiçou, em um daqueles lances que acabam marcando sua carreira na seleção.

A Espanha, pelo contrário, não diminuiu o ritmo. Continuava marcando forte, buscando o erro dos adversários. E assim puniu a Argentina logo aos 12. Não importa a característica do jogador, todos precisam brigar. Em disputa que contou com o esforço de Iniesta e Diego Costa para desarmar os argentinos, Asensio deu uma belíssima enfiada ao centroavante. Na marra, entre os zagueiros, ele se esticou para finalizar e mandou para dentro, mesmo se chocando com Sergio Romero. Os dois sentiram no momento, mas apenas o goleiro acabou substituído, depois de alguns minutos, por Willy Caballero.

Os dois times tentavam diminuir os espaços na marcação e trabalhar com a bola pelo chão. A Argentina até conseguiu assustar, em boa tabela entre Meza e Giovani Lo Celso, na qual o jogador do Paris Saint-Germain acabou mandando para fora. Entretanto, faltava mais qualidade na criação dos argentinos. E o entrosamento da Espanha, obviamente, a mantinha superior na noite. Passe após passe, sempre à espreita, e também com o drible para criar as brechas. Um time tão bem encaixado, contra o qual não se pode dar bobeira. Assim, a Albiceleste pagou caro. Jordi Alba quase ampliou em jogada rápida que começou na direita. Já aos 27, saiu o segundo gol em mais um erro forçado. Asensio se projetou e cruzou para Isco escorar dentro da área. O prodígio do Real Madrid, aliás, dava muita profundidade ao seu time, agarrando sua oportunidade.

A Argentina mantinha esperanças. Meza e Lo Celso cumpriam a missão em ditar o ritmo. Já na defesa, Otamendi era um gigante. E seria ele a fazer a diferença no ataque, se Higuaín não conseguia se sobressair. O gol de honra da Albiceleste surgiu como um esboço de reação, aos 39. Após escanteio cobrado por Banega, o zagueiro se livrou de Sergio Ramos na marcação e cabeceou firme. A bola quicou, sem chances para De Gea. O tento despertou a Fúria. Era um jogo aberto, embora ficasse claro quem tinha mais entrosamento e qualidade para a vitória. Algo que se provou de maneira sufocante na volta do intervalo.

Lopetegui realizou uma mudança, com a entrada de Iago Aspas no lugar de Diego Costa. E a nova peça no comando de ataque ajudou a potencializar a equipe. A Espanha é um time compacto, que trabalha bem a bola e sabe ocupar os espaços. Já no campo de ataque, partia com tudo verticalmente, ruindo o sistema defensivo da Argentina. Com os visitantes expostos, o segundo gol saiu em contra-ataque aos sete minutos. Os argentinos cometeram o erro de deixar Iniesta sozinho. Então, o maestro lançou com precisão a Aspas, que rolou para Isco arrematar. Já aos nove, mais um, com todos os méritos de Thiago Alcântara. O meio-campista roubou a bola e tocou a Isco. O ponta esperou a passagem dos companheiros, acionando Aspas, que deixou ao próprio Thiago arrematar.

Isco, aliás, merece uma menção à parte. A liberdade do camisa 22 era decisiva, transitando entre o meio e o ataque. Ao lado de Asensio, mudava de posição e desmoronava a Argentina, frágil sobretudo nas laterais. A partir do quarto gol, os dois técnicos passaram a realizar mudanças. E do lado argentino, Sampaoli parecia mudar a esmo, incluindo uma aposta pouco frutífera em Lautaro Martínez. Nas cordas, a Albiceleste era inoperante, dependendo das bolas paradas para tentar qualquer coisa. Com o jogo em suas mãos, a Espanha deu os golpes fatais dos 28 aos 30.

Primeiro, De Gea lançou e deu uma baita assistência a Aspas, saindo nas costas da zaga antes de tocar na saída de Caballero. Por fim, a tripleta de Isco, que roubou a bola, tabelou com Aspas e chutou no cantinho. A Argentina, que dava sinais de controle emocional na bola, perdeu os rumos e também quis brigar com os espanhóis. Mas o único grito que realmente ecoava era o da torcida, enlouquecida com a noite de gala da Fúria Roja. Cabia até o sétimo, não fossem algumas finalizações para fora dos anfitriões.

O trabalho de Sampaoli será gigantesco. O time não consegue fazer uma partida uniforme, demonstra carências em diferentes setores e nem de longe possui uma escalação para chamar de titular. De fato, é Lionel Messi mais dez. E se o treinador esperava testar, o tiro saiu pela culatra, sem que ninguém ganhasse uma sequência digna. Meza, um pouco mais, é o único a se salvar dos novatos. Enquanto isso, a goleada certamente servirá para que a pressão pública quanto a Mauro Icardi e Paulo Dybala aumente. A goleada da Espanha pode ser decisiva para a convocação de ao menos um deles, com o juventino um passo à frente.

Já a Espanha relembra uma confiança antes vista apenas no período de sua “tríplice coroa”, entre os títulos da Eurocopa e da Copa do Mundo de 2010. Com uma diferença que as possibilidades de variação de jogo e a voracidade do time de Julen Lopetegui são maiores. É como se os espanhóis, enfim, conseguissem criar um elo no tempo entre a Roja e a Fúria. E isso alça os ibéricos a um patamar ao qual poucas seleções se colocam hoje. A partida no Wanda Metropolitano foi deslumbrante. As “Touradas em Madri”, cantadas pelo Maracanã nos 6 a 1 do Brasil no quadrangular final da Copa de 1950, caberiam muito bem aos vitoriosos nesta terça-feira.


Os comentários estão desativados.