Lima tem uma representatividade enorme na organização do Peru. A região metropolitana da capital concentra quase um terço da população do país, além de ter um papel central na política e na indústria. Entretanto, a preponderância dos limenhos no futebol nacional é assustadora. Até 1966, o Campeonato Peruano permanecia limitado aos arredores da capital. Mesmo assim, a expansão não significou conquistas para os outros cantos do país. E apenas dois clubes conseguiram quebrar a hegemonia da região central no topo do pódio. Nesta quarta, o Melgar levou apenas o terceiro título para o interior, o primeiro desde o triunfo do Juan Aurich, em 2011. Encerrou o próprio jejum de 34 anos, com uma vitória emocionante para ratificar o bicampeonato.

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Ainda que distante da importância de Lima, Arequipa possui grande significância para o Peru. A segunda maior cidade do país conta com 1,2 milhão de habitantes em sua região metropolitana, é a capital jurídica e ainda tem um polo industrial importante. Nada, porém, que se reflita diretamente no futebol. Fundado em 1915, o Melgar se estabeleceu como um dos clubes mais frequentes na primeira divisão desde a descentralização. São 46 temporadas na elite, sem ser rebaixado desde 1971 – uma marca inferior apenas à do trio de ferro, Universitario, Alianza Lima e Sporting Cristal. Entretanto, raras foram as conquistas nacionais.

Os anos de ouro do Melgar vieram na década de 1980. Em 1981, o clube conquistou o seu primeiro título nacional, inédito para um representante do interior. E, dois anos depois, ainda conseguiu um honroso vice-campeonato, participando da Libertadores também em 1984. Contudo, o ápice logo passou e os rojinegros voltaram a ser coadjuvantes, caindo um pouco mais na virada dos anos 2000. As dificuldades financeiras atrapalhavam campanhas melhores da equipe de Arequipa.

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O ponto de virada do Melgar aconteceu nos últimos três anos, quando acertou as suas contas. Em 2012, o Dominó terminou em quinto e voltou a disputar uma competição continental, a Copa Sul-Americana. E os resultados melhorariam ainda mais. Na última temporada, os rojinegros fizeram a melhor campanha do Torneio Descentralizado, embora isso não tenha dado o direito de disputar a taça. Até que, neste ano, puderam sentir outra vez o gosto da glória.

Vice do Apertura, apenas um ponto abaixo do Sporting Cristal, o Melgar faturou o Clausura de maneira emocionante. O clube de Arequipa iniciou a rodada na quarta posição, mas fez sua parte e contou com uma série de combinações de resultados para subir à liderança. Goleou o Juan Aurich por 4 a 1, enquanto Real Garcilaso, Sporting Cristal e César Vallejo tropeçaram. Ainda assim, os rojinegros terminaram empatados com o Garcilaso no topo da tabela, e precisaram vencer o jogo extra nos pênaltis para garantir o êxito.

Já na fase final, em novo regulamento da liga, o Melgar precisou eliminar o Real Garcilaso (dono da melhor pontuação acumulada) na semifinal. Até se encontrar com o Sporting Cristal na decisão. Em Lima, no primeiro encontro, o gol de Minzum Quina aos 42 do segundo tempo garantiu importante empate por 2 a 2. Já nesta quarta, as duas equipes duelaram no abarrotado Estádio Monumental UNSA, em Arequipa, com 40 mil torcedores. Os celestes abriram o placar e, depois de tomarem a virada, empataram no segundo tempo. Contudo, o Dominó estava mesmo predestinado. Aos 45 do segundo tempo, Bernardo Cuesta anotou o gol que deu a vitória por 3 a 2. Que fez o Melgar campeão após 34 anos.

O mínimo a se esperar, depois de tanta angústia, era a explosão de alegria da torcida em Arequipa. Exatamente o que aconteceu. As arquibancadas foram tomadas pela festa rubro-negra, enquanto os mais ensandecidos invadiam o gramado. E, como era de se prever, a comemoração se estendeu às ruas da cidade. Sem nenhum grande adversário local (o Aurora foi o último time da cidade a aparecer na primeira divisão, em 1991), o Melgar domina a preferência arequipenha. Um verdadeiro emblema do interior peruano.

O título, por fim, fecha um ano praticamente perfeito para o clube. O Melgar comemorou seu centenário em 2015, ao mesmo tempo em que o país relembrava o bicentenário da morte de Mariano Melgar – importante poeta local, protagonista da independência, que inspirou um grupo de jovens na fundação do time. Além disso, os rojinegros ainda vibraram com o rebaixamento de seu principal rival, o Cienciano. Ao mesmo tempo que veem suas perspectivas melhorarem, desde a nova administração que se instalou em 2014.

Pode até ser que o Dominó apareça como mero coadjuvante na Libertadores em 2016. Mas, neste momento, os torcedores esperam viver o melhor momento da história do clube. Consequentemente, o período de maior sucesso do interior contra a dominância de Lima.

Por fim, uma imagem que vale mais que todo o texto acima: o garoto em prantos, torcedor do Melgar, que não queria mais largar Edgar Villamarín, um dos destaques na conquista. Emblemático: