Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

“Eu não me sentia tão bem assim desde que Archie Gemmill marcou contra a Holanda em 1978”, exclamou o personagem de Ewan McGregor durante uma divertida cena de sexo em ‘Trainspotting’, filme britânico da segunda metade dos anos 90 e ainda hoje tão cultuado a ponto de originar uma muito aguardada sequência, que chegou às telonas brasileiras na semana passada. E de tão simbólica no filme (aparece transcrita no encarte do CD com a não menos cultuada trilha sonora), a frase ajudou a apresentar o ex-meio-campo escocês, autor de um dos gols mais espetaculares já marcados em Copas do Mundo e que hoje completa 70 anos, a uma nova geração.

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A carreira de Gemmill, no entanto, merece ser lembrada mais do que apenas pelo golaço contra a Holanda, marcado no único Mundial em que o meia participou. Ele disputou 43 partidas pela seleção escocesa, sendo capitão do time em mais da metade delas. E foi peça fundamental nos únicos títulos ingleses de dois grandes rivais da região de East Midlands, além de jogador de confiança do lendário técnico Brian Clough.

“Dinâmico” talvez seja a palavra mais adequada para definir o estilo de jogo de Gemmill. Era o típico meia-armador baixinho, meio careca, bom de passe e organizador do setor, perfil relativamente comum no futebol da época. Mas além disso, primava pelo controle de bola e fôlego excepcional, tornando-se um especialista em levar sua equipe à frente em contra-ataques letais. Arrematando todas essas qualidades, ainda tinha liderança entre seus companheiros. Não era um goleador, mas participava de quase todas as jogadas ofensivas de seus times.

A carreira de Gemmill, nascido na cidade de Paisley, na Grande Glasgow, começou promissora. Em seu primeiro ano como profissional, no Saint Mirren aos 17 anos, foi eleito o melhor jogador do clube na temporada. Três anos depois, cruzaria a fronteira inglesa para defender o Preston North End. Mesmo rebaixado para a terceira divisão em 1970, atraiu a atenção de Peter Taylor, auxiliar de Brian Clough no Derby County, que precisou vencer a concorrência do Everton (então atual campeão) para contratá-lo.

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Conta-se que Gemmill resistira enquanto pôde a assinar com o Derby, já que via com bons olhos a oferta dos Toffees. Coube a Clough (e seu poder bem peculiar de persuasão) a tarefa de convencê-lo: o treinador foi até a casa em que o meia morava com a esposa e disse que passaria a noite ali, se fosse preciso, para que ele aceitasse sua proposta. Na manhã seguinte, na mesa do café, o contrato foi assinado.

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No Derby, logo conquistaria a torcida, especialmente por marcar seu primeiro gol justamente contra o rival Nottingham Forest no campo do adversário. Sua característica de controle e condução de bola se tornava excepcionalmente espantosa dado o estado invariavelmente sofrível do gramado do Baseball Ground, onde o Derby mandava seus jogos.

Em seus primeiros anos nos Rams, formaria grande dupla no centro do meio-campo com outro escocês, John McGovern, sendo titular absoluto na campanha do primeiro título da liga da história do clube, em 1971-72. A conquista veio da maneira inusitada que somente o bizarro calendário inglês da época poderia proporcionar. Em seu último jogo de tabela, no dia 1º de maio, os Rams derrotaram o Liverpool por 1 a 0 e chegaram ao topo da classificação, com 57 pontos. Só que os próprios Reds e o Leeds ainda entrariam em campo dali a uma semana e poderiam ultrapassá-los em caso de vitória.

A milhares de quilômetros das ilhas britânicas, enquanto curtiam férias nas praias da Espanha, os jogadores e a comissão técnica do Derby receberam a notícia de que o Leeds havia perdido para o Wolverhampton e o Liverpool havia parado num empate sem gols com o Arsenal em Londres. Voltaram às pressas para levantar o troféu diante da torcida em êxtase no Baseball Ground.

O destaque da participação de Gemmill naquela campanha – além das inúmeras jogadas que iniciou e das assistências para gols – foi quando ele mesmo balançou as redes na vitória de 1 a 0 sobre o Chelsea no Baseball Ground, em 1º de janeiro de 1972. Naquele momento, o Derby oscilava depois de um excelente começo e vinha de derrota por 3 a 0 para o Leeds, rival direto na briga. A vitória sobre os Blues com gol do meia escocês iniciaria nova arrancada dos Rams no campeonato – desta vez rumo ao título.

Na temporada seguinte, o meia participou da campanha do Derby até as semifinais da Copa dos Campeões. Marcou no primeiro jogo, uma vitória por 2 a 0 em casa sobre os iugoslavos do Zeljeznicar. E seria ausência sentida no jogo de volta das semifinais, quando os Rams pararam num empate sem gols com a poderosa Juventus no Baseball Ground. No jogo de ida, em Turim (vitória dos bianconeri por 3 a 1), o meia recebera um polêmico cartão amarelo ao revidar com um empurrão uma cotovelada recebida do volante Giuseppe Furino (que passou despercebida pelo árbitro), ficando de fora do retorno por suspensão.

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Gemmill também esteve presente no segundo e último título da liga pelo Derby, já sem Brian Clough no comando, na temporada 1974-75. Desta vez ostentou ainda a braçadeira de capitão no lugar do lesionado zagueiro Roy McFarland e teve outro escocês, Bruce Rioch, como companheiro na faixa central do meio-campo. A confirmação do título veio antes da última rodada, mas novamente sem os Rams entrarem em campo, graças a um tropeço do Ipswich diante do Manchester City em jogo isolado.

O meia permaneceu no Derby County até setembro de 1977, pouco depois do ex-interino Colin Murphy ser substituído no comando da equipe por Tommy Docherty, ex-Manchester United. Gemmill e “Doc” haviam se desentendido em meados de 1972, quando o treinador dirigia a seleção escocesa – o que levou o jogador a um “exílio” da equipe nacional até ser resgatado por Willie Ormond em outubro de 1975.

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A primeira medida de Docherty ao assumir o Derby foi negociar Gemmill. Do outro lado, chamando pelo jogador, estava novamente Brian Clough, só que agora no arquirrival local dos Rams, o Nottingham Forest, recém-promovido à elite inglesa. Mesmo considerando que, naquele início de temporada, os prognósticos colocavam o Forest mais cotado ao descenso do que ao título, o meia preferiu mudar de ares, ciente do que Clough era capaz de fazer.

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A parceria resultou em outro título histórico da liga inglesa, com o Forest deixando bem claro desde o início que sua briga era pela taça: assumiu a liderança no início de outubro de 1977 e não a largou mais, permanecendo 26 jogos invicto de meados de novembro até o fim da competição, em maio do ano seguinte. O título foi matematicamente garantido no fim de abril, ainda com quatro jogos para cumprir, após empate sem gols com o Coventry. Ao final, o Forest terminou sete pontos à frente do Liverpool.

Contratado com o campeonato já iniciado, Gemmill reeditou a dupla com John McGovern, disputou 32 dos 42 jogos da campanha como titular e além de colaborar com seus passes e arrancadas partindo do meio-campo, balançou as redes de Manchester United, Liverpool e Arsenal – este último, num contra-ataque iniciado e concluído por ele, foi eleito o Gol da Temporada pela BBC. Não participou, porém, da campanha do outro caneco levantado pelo time na temporada, o da Copa da Liga conquistada sobre o Liverpool, uma vez que já tinha atuado pelo Derby.

A ótima fase foi coroada com a convocação para sua primeira – e única – Copa do Mundo com a seleção escocesa, única representante britânica em gramados argentinos. A equipe dirigida por Ally MacLeod chegou até muito bem cotada, mas decepcionou nos dois primeiros jogos: derrota de virada para o Peru por 3 a 1 na estreia e, pior ainda, empate em 1 a 1 com o Irã. Na última rodada, contra uma Holanda vivendo à sombra do grande time de 1974, precisava vencer por três gols de diferença para avançar.

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Depois de Joe Jordan acertar o travessão numa cabeçada e de Kenny Dalglish ter tido um gol anulado, a Escócia saiu atrás no marcador, graças a um gol de pênalti de Rensenbrink (o milésimo marcado em Copas do Mundo) aos 34 minutos da etapa inicial. Mas empatou pouco antes do intervalo com Dalglish. Logo no primeiro minuto do segundo tempo, Gemmill marcaria o gol da virada, convertendo outro pênalti, sofrido por Souness.

Até que, aos 23 minutos, veio a jogada pela qual Gemmill foi eternizado. Souness tentou uma jogada pela ponta direita e acabou desarmado perto da área. A bola sobrou para o camisa 15, que passou por Jansen, entortou Krol, deu um drible da vaca em Poortvliet e seguiu triunfante até ficar cara a cara com Jongbloed, tirando do goleiro com um leve toque por cobertura. Um golaço.

Naquele momento, o milagre escocês era perfeitamente possível. Faltavam pouco mais de 20 minutos e um gol para a classificação. Mas o sonho acabou definitivamente dali a apenas três minutos, quando Krol acertou um chute do meio da rua – um dos muitos daquela Copa – descontando para os holandeses. Ironicamente, a bola tomou o efeito depois de resvalar de leve na perna direita de Gemmill.

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Na volta à Inglaterra, a sensação de doce e amargo dos gramados argentinos seguiu pela próxima temporada de Gemmill no Forest. O clube não conseguiu repetir o feito do título a liga, mas avançou até uma inesperada final da Copa dos Campeões. Agora atuando mais pelo lado direito, Archie foi titular em ambos os confrontos contra o Liverpool (quando recebeu missão especial de Clough para auxiliar Viv Anderson a conter a força ofensiva do lado esquerdo dos Reds), AEK Atenas e Grasshoppers, marcando um gol contra os suíços. Lesionou-se durante o primeiro jogo das semifinais contra o Colônia e ficou de fora da partida da volta. Mas recuperou-se a tempo de ser relacionado para a decisão contra os suecos do Malmö, em Munique.

Sem poder contar com o lesionado Martin O’Neill, havia a expectativa de Clough preenchesse com Gemmill a vaga aberta no setor de criação. Mas o treinador preferiu apostar em Trevor Francis, contratado durante a temporada pela soma recorde de um milhão de libras e enfim liberado pela Uefa para atuar no torneio. Do banco de reservas, Gemmill assistiu a Francis marcar o gol da vitória e do título, mas não teve muito o que comemorar.

Bastante irritado por ter ficado de fora da decisão, o escocês brigou com Clough e acabou negociado com o Birmingham City. Em sua primeira temporada no novo clube, terminou em terceiro na segunda divisão (superando o Chelsea no saldo de gols), o suficiente para retornar à elite. Mas nos dois anos seguintes, ficou preso à falta de ambição do clube, satisfeito em apenas se manter na primeira divisão, com seu elenco formado por jogadores rodados e chegados a um drinque a mais.

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A forma indiferente do Birmingham não o tirou da seleção escocesa, pelo contrário: seguiu como capitão do Tartan Army – agora sob o comando de Jock Stein – durante a fase classificatória para a Eurocopa de 1980 (na qual os escoceses perderam a vaga para a Bélgica) e nos primeiros jogos das eliminatórias da Copa do Mundo de 1982, para a qual garantiram presença até com certa tranquilidade.

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Mas Gemmill não esteve no Mundial: fez sua última partida pela seleção ainda nas eliminatórias, em 25 de maio de 1981, no empate em 1 a 1 com a Irlanda do Norte em Glasgow. Apesar de ter ostentado a braçadeira de capitão naquele jogo, deixaria de ser chamado dali em diante, abrindo espaço para jovens como John Wark e Gordon Strachan. Naquele verão (do norte) de 1982, ele embarcou em outra aventura, cruzando o Atlântico para uma curta passagem defendendo o Jacksonville Tea Men, equipe da Flórida, na já decadente North American Soccer League (NASL).

Na volta à Inglaterra, após poucos meses com o Wigan, retornou ao Derby. Apesar de ter o velho Peter Taylor (ex-auxiliar de Clough) no comando, os Rams viviam momento bem delicado na segunda divisão. Após uma 13ª colocação na temporada 1982-83, não escaparam da queda para a terceirona na campanha seguinte. Gemmill, já então com 37 anos, decidiu encerrar a carreira.

Penduradas as chuteiras, fez as pazes com Clough, retornando ao Nottingham Forest como integrante da comissão técnica. Mais tarde, veria seu filho Scot também seguir carreira como meia no Forest e no Everton, entre outros clubes, além de integrar a seleção escocesa na Euro 1996 e na Copa do Mundo de 1998 (embora sem entrar em campo nenhuma vez). E em 2005, em seu último trabalho, Archie assumiria o comando da seleção escocesa sub-19, a qual levou ao vice-campeonato europeu da categoria no ano seguinte, derrotada na final pela Espanha de Juan Mata e Gerard Piqué.