Você sabe por que foi trazido para cá?”, perguntou Rickey.

Para jogar em um novo time de negros de Brooklyn, Jackie respondeu.

“Não”, Rickey corrigiu. “Não é isso. Você foi trazido aqui, Jackie, para jogar para o Brooklyn Dodgers. Talvez em Montreal [time filial do Brooklyn] para começar, e…”

“Eu? Jogar para o Montreal?”

“Se você puder, sim. Mais tarde – e também se você conseguir – você terá uma chance com o Brooklyn Dodgers.”

“Eu estava empolgado, com medo e excitado”, Jackie contou depois. “Eu estava incrédulo. Acima de tudo, estava sem palavras.” Silencioso antes da revelação de Rickey, Jackie ouviu maravilhado enquanto o diretor dos Dodgers, revelou o que pretendia. “Eu quero conquistar a Liga Nacional e preciso de jogadores!”, disse enfaticamente. “Você acha que consegue?”

“Sim”, respondeu.

Rickey deixou claro que a capacidade de Jackie de correr, arremessar e rebater era só uma parte do desafio. Ele conseguiria suportar os abusos físicos, verbais e psicológicos que viriam? “Eu sei que você é um bom jogador”, Rickey disse. “O que eu não sei é se você é durão o suficiente.”

Jackie começou a responder acaloradamente, em defesa de sua masculinidade, quando Rickey explicou: “Estou procurando por um jogador durão o suficiente para não reagir.”

O texto acima é um trecho do livro “Jackie Robinson”, de Arnold Rampersad. Era Nova York em agosto de 1945, época em que os negros eram obrigados a jogar beisebol em ligas separadas dos brancos. Essa conversa entre Robinson e Branch Rickey, dono do Brooklyn Dodgers, marcou o acerto para quebrar essa barreira. Em 1947, Robinson se tornou o primeiro atleta negro em uma grande liga norte-americana, foi eleito o melhor estreante da temporada, foi eleito o melhor jogador da liga dois anos depois, virou ícone para toda uma geração, esteve muito próximo a Martin Luther King no movimento dos direitos civis da década de 1960 e, hoje, todos os times da Major League Baseball aposentaram seu número, o 42.

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Não há maneiras certas e erradas de combater o racismo, e cada um adota o caminho que fizer mais sentido para si. Mas não há como ignorar o sucesso de Robinson e como o trecho final da conversa com Rickey teve papel nisso. Ele foi atacado dentro e fora de campo em quase todos os jogos, e sempre levantava a cabeça e respondia jogando bem. Com isso, até alguns torcedores e jornalistas que eram contra a integração racial ficaram sem argumentos. Era visível quem estava certo ou errado. E esse modo como ele expôs os racistas ao ridículo teve papel importante. Tanto que o diálogo fez parte do filme “42”, lançado em 2013 nos Estados Unidos.

Corta para Porto Alegre, 18 de setembro de 2014. Aranha não é Jackie Robinson. Não pretende ser. Até porque o momento histórico do Brasil da década de 2010 é diferente dos Estados Unidos dos anos 40. Mas é inegável que o caminho que o goleiro do Santos escolheu para lidar com o racismo que sofreu se assemelha ao do craque norte-americano.

O santista foi claramente perseguido pelos gremistas na partida desta quinta, a primeira dele na capital gaúcha desde os ataques racistas que sofreu na Copa do Brasil. E foi perseguido porque estaria em dívida. Em dívida por ter provocado, em dívida por não ter pedido desculpas, em dívida por ter sido pivô do caso que levou o Grêmio à exclusão de um torneio.

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Ver por esse lado é vilanizar a vítima. Aranha teria dito que toda a torcida do Grêmio é racista, ele teria provocado os torcedores, ele teria perdido a oportunidade de pedir desculpas aos tricolores, ele teria feito cera. Não! Enfocar as atitudes do goleiro nesses pontos é distorcer a leitura dos eventos. É perder a noção de proporcionalidade dos fatos.

Obs.: e, para reforçar, eu mesmo escrevi que os ataques a Aranha no jogo da Copa do Brasil eram coisa de uma pequena parte da torcida. O texto está aqui.

Aranha foi vítima de racismo, ponto. Ele até se referiu ao fato de “a maioria” dos gremistas estarem xingando ele e relembrou a discussão sobre o “macaco” usado para provocar os colorados, mas jamais isso pode ser tomado como uma falta diante de tudo o que envolve esse caso. Até porque, se os gremistas não querem ser rotulados de racistas (e não devem, nem merecem), que ataquem o dirigente e o ex-dirigente do Grêmio que fizeram comentários lamentáveis reforçando o discurso da minoria que chamou Aranha de “macaco”. Eles é que fazem o resto do país ter essa visão dos tricolores, não os comentários do goleiro.

O santista deu diversas entrevistas lúcidas sobre o caso. Não xingou de volta, não baixou o nível da discussão, não disse que sentiria um gostinho especial em voltar à Arena do Grêmio, não ajudou a destruir ainda mais a vida de Patrícia Moreira, não ficou fazendo gestos provocativos. Fez cera? Ora, todo goleiro faz quando joga fora de casa contra uma equipe à frente da sua na tabela. Não pediu desculpas? Bem, como ele faria isso se foi xingado e ironizado os 90 minutos? Como faria isso se alguns torcedores voltaram a fazer ataques racistas (chamá-lo de “Branca de Neve” é uma forma irônica de ataque racista)?

Mas o goleiro ficou na dele. Aceitou as desculpas de Patrícia, mas não quis um encontro pessoal diante da mídia. Não se colocou como ícone da luta racial. Ele apenas entrou em campo e jogou demais (de novo), sendo fundamental para impedir a vitória do Grêmio. Depois, deu uma entrevista muito lúcida, em que mostrou mais articulação que uma repórter que disse que “não tinha de achar nada” de um caso de racismo e ainda deu o conselho que Patrícia mais precisa ouvir (o de parar de falar do assunto).

Aranha foi durão o suficiente para não reagir. E por isso que expôs tanto seus críticos.

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