“A coisa mais importante para nós é estrear só no quinto dia da Copa. Eu pedi a Deus para evitar nos colocar no Grupo A porque o Ramadã termina entre 14 e 15 de junho. Você sabe quanto isso é importante para nós muçulmanos.” Foi assim que Nabil Maaloul, técnico da seleção da Tunísia, reagiu ao sorteio da Copa, realizado nesta sexta em Moscou. Para ele, entrar em campo no último dia do mês sagrado do Islã seria um desafio extra e foi bom a Tunísia não ter de lidar com essa questão. Uma sorte que não atingiu Marrocos, Irã, Egito e, principalmente, Arábia Saudita.

Os sauditas serão a primeira seleção asiática a participar de um jogo de abertura de Copa do Mundo. Isso significa que entrarão em campo em 14 de junho justamente na  noite em que o Ramadã estará acabando. Marroquinos, iranianos e egípcios estrearão no dia seguinte, já fora do Ramadã, mas sua preparação para a Copa ocorrerá toda durante o mês sagrado.

O Ramadã é comemorado no nono mês do calendário islâmico e marca a preparação e revelação do Alcorão ao Profeta Maomé. Durante esse período, os muçulmanos não devem comer, beber ou ter relações sexuais durante o dia. As principais refeições são realizadas à noite, uma logo após o por do sol e a outra no final da madrugada.

Há debates sobre o quanto – e mesmo se – o jejum afeta o desempenho físico do atleta, mas esse tema sempre aparece quando ele coincide com um grande evento esportivo. Por exemplo, isso ocorreu nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e no mata-mata da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. E surgiu o dilema: jejuar ou não?

O Ramadã é importante para os muçulmanos, mas o próprio Alcorão prevê várias situações em que um indivíduo é dispensado dele. São os casos de grávidas, lactantes, crianças, idosos, enfermos, pessoas com problemas de saúde, trabalhadores que terão sua renda afetada e viajantes. Os atletas podem ser dispensado como viajantes, mas, como eles são pessoas saudáveis que podem lidar com a alteração de rotina alimentar com mais facilidade, parte da sociedade pode cobrá-los por estarem priorizando a competição à fé. Isso não é tão comum em jogadores muçulmanos de países que têm outra religião como a majoritária (casos de França, Alemanha, Bélgica e Rússia), mas ocorre em nações de maioria islâmica.

Muitos atletas falam abertamente que não seguirão o jejum durante um evento como a Copa do Mundo. Mas ainda é um tabu. Para dar mais suporte “oficial” aos atletas, líderes islâmicos de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, Malásia, Marrocos e Argélia publicaram fatwas (pronunciamentos legais para temas religiosos) liberando do cumprimento do Ramadã quem fosse competir nos Jogos Olímpicos de 2012.

É muito provável que o mesmo ocorra no ano que vem, sobretudo com Arábia Saudita, Marrocos, Irã e Egito, e que parte significativa do elenco dessas equipes faça sua preparação convencional para a Copa. Outros deixarão de jejuar em alguns dias e compensarão após o Mundial. Ainda assim, não é certeza.

Apesar de dispensados pelos líderes de seu país, vários jogadores da seleção marroquina de futebol seguiram o Ramadã durante os Jogos de Londres. Na estreia, Marrocos perdeu do Japão por 1 a 0 e a imprensa questionou o quanto o jejum teria afetado o desempenho. “Teve um pouco de efeito. Eu tive menos força, mas é minha religião e, para mim, o único caminho é seguir o Ramadã. Jogar uma partida não é uma desculpa. Eu tenho minha religião e eu faço os 30 dias do Ramadã”, defendeu-se o atacante Noireddin Amrabat na época.

Por isso a preocupação de Maaloul, o técnico da Tunísia, era justificada. Ele não tira a razão de qualquer comandado seu que decida seguir o jejum, mas prefere que isso não coincida com as partidas de sua equipe. Uma questão que já deve estar na lista de tarefas do recém-contratado Juan Antonio Pizzi. Ainda mais treinando a conservadora Arábia Saudita.


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