A seleção da Arábia Saudita ignorou um minuto de silêncio no jogo contra a Austrália, nesta quinta-feira, pelas Eliminatórias da Copa, e causou revolta em australianos e britânicos. Era uma homenagem às oito vítimas do ataque terrorista na London Bridge, no dia 4 de junho. Duas delas eram mulheres australianas. Os sauditas se justificaram, mas a explicação não convenceu e só aumenta as desconfianças em relação ao país, acusado pelo Irã de apoiar e financiar terroristas.

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O jogo entre Austrália e Arábia Saudita era crucial nas Eliminatórias da Copa. A Arábia Saudita, segunda colocada do Grupo B, tinha três pontos a mais que a Austrália, terceira. Só os dois primeiros vão ao Mundial na Rússia. O contexto, portanto, já era tenso. Antes do jogo, houve um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do atentado terrorista na London Bridge, que tirou a vida de oito pessoas, entre elas duas mulheres australianas. O atentado foi assumido pelo Daesh, também conhecido como Estado Islâmico.

Só que a seleção da Arábia Saudita não se alinhou com os jogadores abraçados como os australianos. Alguns continuaram seu aquecimento, outros pararam, de mãos para trás, parados. O time estava espalhado pelo seu campo. Os torcedores australianos presentes no estádio Adelaide Oval, em Adelaide, fizeram silêncio durante a homenagem. Segundo a TV local, torcedores sauditas chamaram a atenção durante o minuto de silêncio por fazerem barulho.

A Football Federation Australia (FFA) informou que os australianos pediram à Confederação Asiática de Futebol (AFC) para fazerem um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do ataque da London Bridge. Os dirigentes da AFC aceitaram, assim como os da Arábia Saudita, embora com restrições.

Segundo Adam Peacock, da Fox Sports Australia, o minuto de silêncio foi aprovado pela AFC, mas o pedido foi negado pelos representantes da Arábia Saudita. Os dirigentes australianos tentaram argumentar, mas não conseguiram convencer os sauditas. Não se sabe se os jogadores da Arábia Saudita foram informados sobre os procedimentos.

O que se viu em campo foram os jogadores da Arábia Saudita espalhados e pareceram não entender a homenagem ou se perderam na tradução, segundo informação do site News.com.au, na melhor das hipóteses. Poucos jogadores da seleção saudita pararam se movimentar durante o minuto de silêncio. Segundo porta-voz da FFA, os dirigentes australianos foram avisados que o time saudita não participaria da cerimônia.

“A FFA procurou acordo com a Confederação Asiática de Futebol e a seleção saudita para termos um minuto de silêncio em memória àqueles mortos na noite de sábado (3), nos ataques terroristas em Londres e em particular a duas mulheres australianas”, disse um comunicado da FFA.

“Tanto a AFC e a seleção saudita concordaram que o minuto de silêncio fosse feito. A FFA foi avisada pelos dirigentes da seleção saudita que esta tradição não estava de acordo com a cultura saudita e eles iriam se mexer no seu lado do campo e respeitar nosso costume enquanto ocupavam seus lugares no campo”, diz ainda o texto. “A transmissora local, Fox Sports, foi informada disso antes do minuto de silêncio acontecer”.

Segundo os sauditas, o minuto de silêncio é um traço cultural que não é comum no país. Não há costume, segundo eles, de fazer esse tipo de homenagem no Islã. Esta versão, porém, foi contestada pelo Guardian, do Reino Unido. O jornal britânico deu exemplos de minutos de silêncio serem respeitados por sauditas, como o Al-Ahli, time do país que enfrentou o Barcelona no mês de dezembro, em amistoso, além de outros exemplos de homenagens quando morreu o rei da Arábia Saudita, Abdulla Bin Abdulaziz.

Seja como for, criou-se um clima ruim para o jogo e os sauditas passaram a ser questionados por sua postura, no mínimo, desrespeitosa – para não dizer babaca mesmo.

Tensão no Oriente Médio

Vale lembrar que homens-bomba atacaram o parlamento iraniano e o mausoléu Aiatolá Khomeini nesta quarta, dia 7 de junho. O ataque deixou 13 mortos. O Daesh, conhecido também como Estado Islâmico, assumiu o ataque.

Os iranianos culpam a Arábia Saudita de apoio aos terroristas. O ministro do exterior do Irã, Javad Zarif, publicou no Twitter, depois do ataque: “Déspotas apoiadores de terror ameaçam trazer a luta à nossa pátria. Eles atacam o que seus mestres mais desprezam: o lugar da democracia”.

A situação é tensa porque a Arábia Saudita, de maioria sunita, é um dos países que bloquearam suas vias de acesso ao Catar por acusar o país de apoiar Teerã e grupos militantes. O Irã, que é de maioria xiita, é um dos países que luta contra o Estado Islâmico na região do Iraque e Síria. Há uma tensão muito grande entre Irã e Arábia Saudita.

O jogo

Com tudo isso de contexto, a partida foi muito movimentada em campo. A vitória australiana por 3 a 2 começou a ser construída em uma saída de bola errada do goleiro saudita, Yasser Al Mosailem. Tomi Juric aproveitou e mandou para o gol vazio, abrindo o placar logo a sete minutos. Só que não houve facilidade. Aos 23, Salem Al Dawsari empatou o jogo em um belo passe de Mohammed Al Sahlawi.

Os australianos voltaram à liderança do placar aos 36 minutos. Em um cruzamento de Mathew Leckie da direita, Juric cabeceou para o gol e marcou 2 a 1. Só que antes do intervalo, a Arábia Saudita empatou de novo. Taisir Al Jassim cruzou na segunda trave e Mohammed Al Sahlawi completou de modo acrobático: 2 a 2.

O empate era ótimo para os sauditas, que manteriam a vantagem de três pontos para os rivais na disputa por uma vaga direta na Copa. Só que aos 19 minutos, Tom Rogic acertou uma bomba de fora da área, marcou um golaço e deu a vitória à Austrália.

Com isso, as duas seleções passam a ter o mesmo número de pontos, 16, com a Arábia Saudita tendo vantagem apenas no saldo de gols. O Japão, líder, também tem 16 pontos, mas um jogo a menos e um saldo de gols maior. No dia 28 de agosto, os sauditas jogam com os Emirados Árabes, fora de casa. A Austrália, por sua vez, terá o jogo mais difícil do grupo: contra o Japão, na casa do adversário.

Só dois destes três times irão à Copa direto. O terceiro colocado do grupo terá que disputar uma repescagem com o terceiro colocado do outro grupo. O vencedor irá disputar uma vaga na Copa 2018 com o quarto colocado das Eliminatórias da Concacaf.

Veja o minuto de silêncio:

Veja os gols do jogo: