A CBF surpreendeu na noite de quinta-feira ao apresentar quatro propostas para o Campeonato Brasileiro. Nós comentamos essas iniciativas no podcast Trivela #206. Bom, mas faltava a reunião do Conselho Técnico com os clubes para que eles votassem todas as propostas. O VAR foi aprovado por unanimidade, mas não o limite de trocas de técnicos. O limite de inscritos proposto foi aceito, mas com alterações. Por fim, a Supercopa também foi aprovada e será jogada em 2020. Medidas importantes e um debate que se inicia, mas que ainda temos muito o que caminhar.

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O uso do VAR foi a mais importante entre as medidas aprovadas. Os 380 jogos do Brasileirão terão o recurso, com custos operacionais, técnicos e de instalação pagos pela CBF. Os clubes pagarão apenas o que já pagam hoje, a equipe de arbitragem, ou seja, os recursos humanos. É uma aprovação importante, lembrando que no ano passado a CBF propôs que os clubes pagassem pelo seu custo e instalação, algo em torno de R$ 20 milhões, ou R$ 1 milhão por clube, por ano.

A recusa dos clubes, principalmente pela questão financeira, foi fundamental para que esse ano a CBF oferecesse o que deveria ter acontecido desde o início: ela bancar o custo – que, aliás, aposto que é menor do que os R$ 20 milhões que ela mesmo propôs e mais próxima ao custo em outros países, que é bem menor que isso. Lembremos que houve quem dissesse, em 2018, que quem recusou o VAR não podia reclamar da arbitragem, como se uma coisa tivesse a ver com outra. Não tem. É possível reclamar de erros de arbitragem mesmo sendo contra o VAR, porque é possível ser contra o VAR – ainda que pareça haver muito mais motivos para ser a favor.

“Fizemos uma licitação, apresentamos as propostas, uma exposição técnica e aprovamos um apoio financeiro por parte da CBF”, disse o secretário-geral da CBF, Walter Feldman, político que desde 2015 assumiu o cargo na entidade que dirige o futebol brasileiro. Segundo o diretor de futebol do Vasco, Alexandre Faria, a CBF apresentou todos os custos, fez a licitação e expôs os números aos clubes. Com a entidade se encarregando dos custos operacionais, a aprovação foi unânime.

A CBF já utilizou o VAR na Copa do Brasil de 2018, a partir das quartas de final. A CBF coloca em seu site que é pioneira na implementação do VAR, embora seja uma das últimas, considerando as grandes ligas, a fazer uso da tecnologia. Alemanha, Itália, Espanha e França já usam o VAR, sendo que os dois primeiros já estão na segunda temporada de uso. A CBF, embora tenha sido de fato uma das primeiras a pedir autorização para o uso, demorou a colocar em prática. Fez testes offline em 2016, no Campeonato Carioca, e fez um uso teste no Campeonato Pernambucano.

No Campeonato Brasileiro, o uso precisa ser aprovado pelos clubes e a CBF não pareceu inovadora e nem tão favorável assim ao uso em 2018, quando jogou a responsabilidade de pagamento pela tecnologia para o colo dos clubes, o que acabou gerando o veto. Nesta temporada, fez o correto, é verdade, mas como diz o meme, não fez mais do que a obrigação. Que bom que a CBF decidiu pagar pelo uso da tecnologia, mas já devia ter feito isso antes. Merece os parabéns, mas principalmente merece um “até que enfim”. Ainda mais em um país que tantas vezes se suspeitou de uso, digamos, informal do VAR.

Veto a trocas de treinadores

Entre as propostas da CBF estava o limite de uma troca de treinador ao longo de todo o Campeonato Brasileiro. Uma medida polêmica, discutível, mas interessante, sem dúvida. Entre as grandes ligas, a única que possui algo nesse sentido é a Itália, mas as regras são diferentes. Por lá, um técnico só pode trabalhar em um clube por temporada em uma mesma divisão. Ou seja: quando o treinador é demitido de um clube, este clube só pode contratar um treinador que ainda não trabalhou naquela temporada ou que esteja trabalhando em outra divisão.

Os clubes foram contrários à medida. O Flamengo apresentou proposta para vetar completamente a ideia da CBF. Só o Atlético Mineiro foi favor do limite de trocas de treinadores. Todos os demais apoiaram o veto proposto pelo Flamengo. “Certamente porque representa uma ingerência na gestão de cada clube. Pareceu a nós que seria uma intromissão em como cada clube conduz sua gestão”, afirmou Carlos Augusto Barros e Silva, o Leco, presidente do São Paulo. O dirigente acabou de demitir André Jardine do carto de treinador no clube e irá realoca-lo para outra função. Em seis meses, o presidente do São Paulo demitiu Diego Aguirre, efetivou Jardine e o demitiu – contratou Cuca, que só assumirá em abril e, até lá, o coordenador técnico, Vagner Mancini, será o treinador interino. Dá para entender por que Leco, e a maioria dos dirigentes, quiseram vetar a proposta de limite de trocas de técnicos.

“São as grandes medidas que foram aprovadas, uma delas não foi aprovada, que é a limitação do rodízio de treinadores nos clubes. Mas consideramos que foi um bom debate, bastante polêmico, com apresentação de quatro propostas, e a indicação de que isso seja amadurecido e discutido na próxima temporada”, disse ainda Feldman ao Globoesporte.com.

Havia muitas questões em relação a essa troca de técnicos e, mesmo reprovada, a medida foi discutida, o que a CBF parece considerar uma semente. “Houve manifestações de todo tipo, experiências internacionais indicam que é uma boa medida. Mas é evidente que, como foi trazido pela primeira vez ao debate, criou uma discussão e várias propostas apresentadas. Por exemplo, que não fosse uma troca de técnico, fossem duas. Outra que fosse uma troca no primeiro turno e zerasse para o segundo. Outra para já amadurecer a ideia neste ano e implantar na próxima temporada. O que significa que é o início de um debate que interessa a todos”, avaliou o dirigente.

Limite de inscrições se tornou inócuo

A proposta da CBF limitava o número de jogadores inscritos no Campeonato Brasileiro a 40. Um número alto, se considerarmos que em grandes ligas do mundo o número é bem menor. Inglaterra, Espanha e Itália, por exemplo, limitam o número de inscritos a 25, sendo que os jogadores sub-21 não precisam ser inscritos.

No Brasil, porém, os dirigentes aceitaram limitar o número de inscritos, mas quiseram um número maior. Ao invés dos 40 inscritos propostos pela CBF, os clubes aprovaram 45 inscritos e está liberado o uso de jogadores sub-20. Além disso, é possível fazer a troca de cinco jogadores inscritos ao longo do torneio, o que é importante porque no Brasil há uma grande mudança nos elencos no meio da temporada, em junho, julho e agosto, por causa da janela de transferências na Europa.

Na prática, a proposta é inócua. Com 45 inscritos, praticamente não há limitação nenhuma para inscrever jogadores no torneio. A ideia de ter número limitado de inscritos nas ligas na Europa era fomentar as categorias de base, incentivar uma melhor gestão de elencos e também evitar o empilhamento de jogadores.

Alguns clubes possuem contrato com quase 100 jogadores (no Brasil acontece o mesmo em alguns times grandes) e esses jogadores precisam ser colocados no mercado, seja para venda, seja para empréstimo a outras equipes menores. De qualquer forma, haver um limite de inscritos é o primeiro passo. Um passo de formiga e sem vontade, é verdade.

Supercopa do Brasil aprovada

No começo da próxima temporada teremos a Supercopa do Brasil, com um local previamente definido e duelo entre o campeão Brasileiro e o da Copa do Brasil. O duelo será realizado a partir do dia 22 de janeiro. Deve ser uma partida interessante para movimentar o futebol brasileiro, como já acontece em nível sul-americano com a Recopa e em outras grandes ligas pelo mundo, que usam esse torneio como abertura da temporada de futebol no país.

As medidas, no geral, são boas para o futebol brasileiro. Ao menos parece ter havido mais discussão sobre questões importantes. Será preciso dar passos maiores, mais ousados e mais efetivos nas próximas temporadas. Infelizmente, estamos acostumados a uma CBF que faz pouco e clubes que são subservientes. Qualquer medida que pareça boa precisa ser bem analisada quando for implementada. Nenhum dirigente nos dá motivos para acreditar em melhoras sem ver em ação. E nos cabe, seja imprensa, sejam torcedores, cobrar para que os dirigentes da CBF e dos clubes deem passos maiores para melhorar o futebol brasileiro. Por exemplo, que tal pensar nos calendários e uma grande readequação dos estaduais?

Em suma, o negócio é o seguinte: CBF, até que enfim decidiu fazer alguma coisa. Clubes, até que enfim decidiram fazer algo. O que fizeram, porém, não é mais do que a obrigação. Mais do que parabéns, merecem ouvir até que enfim. E olhem, tem muito o que ser feito ainda. Vamos começar a trabalhar mais pelo futebol brasileiro. Já passa da hora de mexermos em muito mais questões (sim, estou novamente falando do calendário).