Quando você pensa que não é possível a uma confederação de futebol ser pior do que a Conmebol, a CAF consegue se superar. A Confederação Africana de Futebol se afundou num gigantesco escândalo durante o segundo jogo da final da Liga dos Campeões da África. O VAR “quebrou” na hora de revisar um gol mal anulado, o Wydad Casablanca se recusou a ficar em campo por se sentir prejudicado e o Espérance ficou com a taça continental. O caso, porém, ainda vai dar muito pano pra manga. Especialmente porque os dirigentes africanos tomaram uma decisão que mais parece inspirada em seus pares sul-americanos: remarcaram a final, em jogo único e campo neutro – com a data e o local a serem apontados pelo comitê executivo da entidade. Mais ridículo, os tunisianos terão que devolver o troféu e as medalhas entregues pela confederação.

Em comunicado oficial, a CAF declarou que a partida de volta não cumpriu as condições esportivas e de segurança, por isso não chegou a um final. O relatório da arbitragem não aponta para a desistência do Wydad Casablanca, e sim para esta falta de condições. Imagens posteriores mostram um policial supostamente dando um soco no monitor do VAR, o que teria danificado o sistema. Todavia, o entrave só foi constatado no dia seguinte. O árbitro Bakary Gassama, que declarou a falha no sistema, chegou a aguardar a volta dos marroquinos para retomar a partida e preferiu encerrá-la diante da desistência, declarando o Espérance campeão. Misteriosamente, a entidade continental resolveu escrever uma nova narrativa para se safar.

Com a atitude, a CAF se exime da culpa pela condução da arbitragem e pela proteção ao VAR. Vale lembrar que a confederação escolheu Janny Sikazwe como árbitro de vídeo. Ele havia sido suspenso em 2018 pela entidade, acusado de aceitar suborno nas semifinais da Champions Africana passada. O beneficiado? Justamente o Espérance. Além do mais, o presidente da confederação também estava em campo durante a confusão. Ao que parece, Ahmad Ahmad decidiu remar conforme a opinião pública e tentar passar uma imagem de inocente diante da ocasião. A CAF é tão ou mais culpada que qualquer outro agente nesta história.

Muito provavelmente, a África do Sul deve ser escolhida como destino do jogo único, e não sem motivos. A CAF pretende que a final aconteça bem longe do norte da África, até pelos riscos que o reencontro representaria. Nos últimos dias, a final virou assunto nacional. Ambas as federações se manifestaram favoravelmente aos seus clubes. Além disso, foram registrados episódios de violência entre os torcedores, antes e depois da finalíssima na Tunísia. O clima estava tenso desde o primeiro jogo – quando o Wydad Casablanca também se queixou dos erros da arbitragem, que levaram o árbitro Gehad Grisha a ser suspenso por seis meses. Também houve confusão em Paris, onde a CAF realizou a reunião desta quarta-feira.

O Wydad, que vinha acusando a má conduta da CAF, não anunciou oficialmente qual será a sua postura. Já o Espérance deve se recusar a refazer o jogo. O clube declarou que a entidade “foge de suas responsabilidades” e promete recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte. Além disso, o próprio governo tunisiano se posicionou em apoio ao clube, afirmando que “não ocorreram problemas de segurança no jogo” e “que a postura dos torcedores foi exemplar”. Até pelo envolvimento dos agentes políticos, a impressão é de que esta final realmente não terá um fim. Ou, quando tiver, será sempre contemplada com um asterisco nos registros, que abrirá um precedente gigantesco nos próximos anos.