Mamãe, acabou o açúcar!

por Raphael Zarko (@raphazarko)

Eram três porteiros que eu parava para ouvir no prédio onde morei dos meus três aos 15 anos, antes de voltar para minha Copacabana*. Um era vascaíno, outro tricolor e o último flamenguista. Dois deles eram mais ou menos parecidos, quase da mesma idade. O outro era mais jovem, forte pra diabo e menos historiador, digamos assim.

Metodicamente, dou como marco inicial do meu fanatismo absoluto por futebol o minuto seguinte em que assisti ao documentário “Isto é Pelé”. Isso devia ser entre 1990 e 1992. Foi acabar aquela fita-cassete, descer as escadas e tentar driblar como fazia o Rei e o Garrincha.

– O Garrincha era melhor que o Pelé.

Era uma coisa que começamos a discutir naquele dia. Eu e um amigo, tricolor, que nunca mais vi. Aquela foi a primeira polêmica futebolística que me meti. Defendi o Rei e devo ter dito algo do tipo: “Se fosse melhor, o filme se chamaria ´Isto é Garrincha´.

No meu prédio havia um botafoguense chato, que tinha o apelido de “Cachorro”. Nada mais apropriado. E ele contra-argumentava: “O Garrincha nunca jogou mal”. E eu acreditei naquela época. Realmente, eu pensava: um cara que dribla todo mundo, que todo mundo diz que faz a mesma coisa e ninguém consegue evitar. Porra, como esse cara vai jogar mal?

Maldito, Ruy Castro!

Mas o porteiro vascaíno se chamava… Bem, agora não lembro o nome dele, mas tinha o apelido carinhoso – mesmo –  de Gargamel. Talve fosse Jorge. Ele devia ter uns 45, chegando aos 50. Falava de contratações do Vasco, de especulações, lembrava de Belline, do Expresso da Vitória, de Danilo Alvim, de Fausto. Acho que nem ele viu essa rapaziada jogar. E, claro, falava em Roberto Dinamite.

Enquanto não jogava bola e não tinha muito mais o que fazer, eu estava lá, sentado no chão da portaria, escutando sobre futebol. Depois, como uma prova dos nove, ia lá perguntar para o meu pai. “Verdade que o Pelé era isso tudo?”

E meu pai me contou uma das histórias mais deliciosas do futebol. E história boa é assim. Cada um conta de um jeito, inventa ou carrega um pouco mais. Contou que o Vasco ganhava do Santos de Pelé de 2 ou 3 a 0. Que dois zagueiros do Vasco ficavam no cangote do Rei e diziam: “Você viu o Rei por aí?”. “Rei, que Rei?”. E lá foi o negão, só de raiva, meter dois ou três gols, empatar o jogo, pegar a bola e oferecer aos beques (bons tempos quando chamávamos zagueiros de beques também): “Aqui, ó. Leva para sua mãe. Diz que foi o Rei quem mandou”.

O outro porteiro do meu prédio era tricolor. Foi a primeira pessoa que me contou do Fla-Flu que tinha mais de 180 mil pessoas. A final de 1963. Ele falava muito do Gersón e se parecia muito com ele. Não lembro também o nome dele, mas na minha memória era Gersón. Era magrinho, de bigodinho ralo e lembrava mais o tricolor das vacas magras do que o de hoje.

O último porteiro era flamenguista. O nome era Zé Carlos. E o melhor de tudo é que ele era a cara do Zé Carlos goleiro do Flamengo. E, adivinha, também era goleiro no campeonato “da última rua” que rolava. Encarnava em mim, no meu pai e no meu irmão por causa de Vasco x Flamengo. Mas ele irritava mesmo era o Gargamel, que sempre caiu na pilha.

Futebol se aprende no campo, no estádio, nos livros, nas TVs, nas rádios. Convivi com todas essas formas de conhecimento, mas aprendi mesmo a amar na portaria. Cada minuto que passei sentado, escutando histórias, imaginando a jogada, o jogador, o Didi, o Pelé, o Garrincha, o Zico, o Dinamite, o Reinaldo, o Tostão… Foi tudo documentado. Nesses 30 anos de vida, essa era a crônica da formação desse escritor. Um escritor orgulhoso. E de portaria.

*Se você não sabe, explico: Copacabana é uma merda, mas é bom. E o Leblon é bom, mas é uma merda.