O Cruzeiro tem uma missão para 2019: não ser rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Não parecia uma missão tão complicada, mas depois do péssimo desempenho de Mano Menezes e de Rogério Ceni ter durado menos de dois meses no cargo, o problema começou a ficar sério, porque o problema foi com os jogadores. Eles ficaram. E quem chegou para colocar a casa em ordem foi um medalhão desta vez: o consagrado Abel Braga.

“A gente sempre acreditou que o Abel Braga um dia ia dirigir o Cruzeiro. É um treinador experiente, um treinador que soma com a gestão nossa do dia a dia, e eu espero que a gente possa ter momentos felizes com ele e sair da parte de baixo da tabela”, disse Itair Machado. Sim, aquele, que ganha premiações maiores que a dos jogadores em caso de títulos e acusado de muitas irregularidades.

O treinador é conhecido por ser um grande gestor de elencos. Em seus trabalhos, tem sempre por característica entender os jogadores e extrair o melhor deles a partir disso. Costuma ser muito querido pelos elencos que dirige. É um técnico com trabalhos de sucesso e que tem personalidade. Já montou times de várias maneiras, mas ultimamente seus times têm sido mais pragmáticos.

O que pesa contra Abel, porém, é que o seu último trabalho deixou uma impressão negativa em vários aspectos. Em um elenco cheio de estrelas como o Flamengo, Abel não conseguiu tirar o melhor do time, que sofreu em alguns momentos contra adversários tecnicamente mais fracos. A dificuldade do time em fazer o próprio jogo acontece desde a época de Fluminense.

Abel começou o ano de 2019 no Flamengo, com a responsabilidade de conduzir o time mais popular do Brasil com um elenco considerado dos melhores do país. Só que o rendimento do time ficou bem abaixo do esperado e a sensação que passava era que Abel era o principal responsável. Apesar das boas contratações, somadas aos jogadores que já estavam por lá, o time parecia apenas burocrático, que encontrava soluções apenas no jogo individual, não no coletivo.

Entre jogos com desempenho inferior ao que se esperava e cobranças de parte da torcida e também da imprensa, Abel pediu demissão em 29 de maio, depois de sentir-se sem respaldo interno e, pior, ver os rumores sobre Jorge Jesus ser cotado para assumir o time, como de fato aconteceu pouco depois, no dia 1º de junho. Abel saiu dizendo que não suportava traição, acusando a diretoria rubro-negra de já ter negociado com outro treinador enquanto ele estava no cargo, em vez de respaldá-lo.

A segunda passagem de Abel pelo Flamengo terminou depois de 28 jogos, 18 vitórias, seis empates e quatro derrotas. Foram 54 gols marcados e 24 sofridos. O aproveitamento terminou sendo de 64%. Mais que os números, a impressão que ficou foi que Abel fez um trabalho muito abaixo do que era esperado um time que montou elenco para estar seriamente na disputa por todos os títulos do ano. O Flamengo não jogava bem e, com o time que tem, se esperava mais do que vitórias: se esperava jogar mais. Especialmente no clube em que a torcida cobra por isso.

Seu carisma e capacidade de mobilização não foram suficientes para manter o time rendendo bem e a sua saída foi benéfica para o Flamengo, que, com Jorge Jesus, engatou uma série de vitórias, assumiu a liderança do Campeonato Brasileiro e está na semifinal da Libertadores, com um futebol muito mais envolvente.

O português recebeu reforços de peso – Rafinha, Filipe Luís e Gérson -, mas acima de tudo conseguiu dar ao time um padrão de jogo ofensivo e eficiente. Jogadores como Gabriel Barbosa, Bruno Henrique e principalmente Arrascaeta fizeram com que os questionamentos sobre por que Abel o colocava pouco para jogar.

No Cruzeiro, o desafio será enorme. Primeiro, porque pega um vestiário complicado, com muitos jogadores de peso, de qualidade, mas que mostraram força contra dois treinadores diante de uma diretoria fragilizada por escândalos jogados para baixo do tapete. Tanto Mano Menezes quanto Rogério Ceni tinham suas ideias e convicções. O primeiro, por um desgaste do estilo de jogo, pareceu não conseguir mais fazer os jogadores renderem. O segundo encarou o vestiário e os contrariou, o que o levou a uma saída muito rápida do clube celeste.

O episódio que tornou a permanência de Rogério Ceni insustentável no Cruzeiro é preocupante, do ponto de vista de gestão de vestiário. Depois do empate por 0 a 0 com o Ceará, em Fortaleza, o zagueiro Dedé falou no vestiário defendendo jogadores que o técnico tinha deixado no banco. “Falei que o Thiago Neves, o Sassá e o Edilson, que são jogadores importantes para a gente, não fossem deixados de lado, pois são jogadores decisivos, tiveram uma história importante no clube”, disse o zagueiro, em coletiva na Toca da Raposa nesta sexta. É por isso que o Cruzeiro passa a ser um desafio grande mesmo para alguém conhecido por gerir bem grupos difíceis.

Há vários problemas no Cruzeiro. O administrativo é um deles, dos mais importantes. Há o problema tático também. Mano Menezes deixou o cargo com um futebol considerado muito defensivo e que rendia mal, inclusive porque os jogadores estavam insatisfeitos. Rogério Ceni propunha um futebol diferente, mais ofensivo, mas os jogadores não gostaram das escolhas do treinador.

Abel chega para fazer que tipo de abordagem? A sua no Flamengo sugere um time um pouco mais calcado na velocidade, na transição rápida, e não na posse de bola que Rogério parecia tentar. Além disso, há o baixo rendimento dos jogadores. Muitos dos excelentes jogadores que o Cruzeiro tem rendem mal, como Thiago Neves, um dos mais falados por toda confusão com Ceni. Não só ele: como usar melhor Fred, que com Abel no Fluminense já teve momentos muito melhores? Será um desafio.

Também porque o Cruzeiro está muito mal no Campeonato Brasileiro e em uma posição delicada na tabela. O time é 17º, com 19 pontos, dentro da zona do rebaixamento. É a mesma pontuação do Fluminense, primeiro time fora, e três pontos atrás do Fortaleza, 15º. O CSA, que está uma posição abaixo do Cruzeiro, tem os mesmos 19 pontos.

Escapar do rebaixamento é essencial para qualquer medição de sucesso. Há jogadores para isso, mas está claro que isso não é o suficiente – e o Internacional já mostrou isso quando foi rebaixado. Será preciso Abel Braga mostrar o seu lado gestor de grupo, mas também fazer um pouco mais para conseguir que o Cruzeiro consiga atravessar um mar turbulento e chegar a águas mais tranquilas para enfrentar o que deve ser uma nova tormenta em 2020.

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