Por mais críticas que receba por momentos pontuais em que deixou a desejar, Gonzalo Higuaín foi um dos melhores centroavantes da última década. Faz apenas quatro anos anotou o recorde de gols em uma única edição da Serie A, mas, nos últimos dois, sua carreira saiu dos trilhos. Fez várias tentativas diferentes de encontrar um clube em que se sentisse confortável para mostrar o seu futebol. Não conseguiu, pelo menos não plenamente, e agora tomou uma direção diferente. Será a grande estrela do Inter Miami, time de David Beckham na Major League Soccer.

Depois dos 36 gols que marcou pelo Napoli em 2015/16, Higuaín foi protagonista da polêmica transferência para a Juventus. Passo natural na sua carreira, mas que o transformou em traidor no sul da Itália, pela rivalidade com a gigante do norte, e que exigiu um enorme esforço financeiro. A Velha Senhora pagou quase € 100 milhões que sabia que não conseguiria recuperar. Higuaín estava prestes a completar 29 anos e não seria revendido facilmente – como ficou provado; seu contrato foi rescindido antes do acerto com os americanos.

Era uma aposta cara em um jogador pronto para tentar elevar o patamar da equipe para disputar imediatamente o título europeu. Até que funcionou: Higuaín fez 32 gols em sua primeira temporada em Turim, cinco na Champions League, e contribuiu com a caminhada até a final. Foi titular novamente em 2017/18, mas seu rendimento caiu, especialmente na Serie A, na qual o total de tentos foi de 24 para 16. Ao fim daquela campanha, começou a sua peregrinação em busca de recuperar a felicidade. Foi trocado, ao lado de Mattia Caldara, por Leonardo Bonucci com o Milan.

A transferência fazia todo sentido para a Juventus. Higuaín havia dado sinais, mesmo que leves, de uma queda de rendimento e Cristiano Ronaldo estava chegando. Era necessário abrir espaço na folha salarial, o argentino tinha um dos maiores vencimentos do elenco e ainda possuía bom valor de mercado. O empréstimo rendeu € 18 milhões, com opção de compra para uma venda definitiva em € 36 milhões. Ninguém quis exercê-la. Nem o Milan, que ficou seis meses com Higuaín, nem o Chelsea.

Foram duas boas tentativas de encontrar uma nova casa. A primeira, no Milan, com ambições menores do que as da Juventus, foi apagada. Fez oito gols em 22 jogos, não teve boas atuações e ainda foi expulso no reencontro com a Velha Senhora. No meio da temporada, o Milan abortou a experiência. Contratou Piatek para substitui-lo e o enviou ao Chelsea, com quem dividiu o valor do empréstimo. Era a chance de Higuaín se testar na Premier League e trabalhar novamente com Maurizio Sarri, com quem havia tido aquela temporada de 36 gols. Um centroavante goleador era o que o time do italiano mais precisava. Parecia também um casamento interessante.

Contudo, entrou em campo menos vezes (18) e marcou apenas cinco gols. Com a saída de Sarri, as chances de continuar no Chelsea baixaram de poucas para nenhuma. Para sua sorte, Sarri foi contratado pelo clube que ainda o mantinha sob contrato. Higuaín ganhou mais algum tempo na Juventus, como apoio a Ronaldo e Dybala, de vez em quando como titular. Fez seus golzinhos, sem nunca brilhar, e a situação era a mesma: tinha um salário alto demais para o que entregava, e a Juventus seguia precisando cortar custos.

Seu destino foi selado com a promoção de Pirlo ao cargo principal. De cara, anunciou que Higuaín seria negociado, apesar de ainda ter um ano de contrato. Segundo o Tuttosport, a Juventus fechou um acordo com o jogador para pagar menos de 50% do que lhe devia – € 7,5 milhões – em troca da rescisão.  No Inter Miami, será um dos três jogadores designados, ao lado de Rodolfo Pizarro e Matias Pellegrini, e se reunirá com Blaise Matuidi.

“Primeiro de tudo, quero agradecer ao Inter Miami pelo esforço para me contratar. Eu acho que será uma experiência bonita na minha vida. É o que eu estava buscando: uma nova experiência, uma nova liga e uma bonita cidade. Estou realmente feliz por estar aqui. Meu objetivo é tentar transmitir toda a experiência que adquiri na Europa para ajudar meu time a crescer”, afirmou Higuaín, ao site oficial do Inter Miami, estreando nesta temporada.

A MLS sempre esteve no radar de Higuaín por causa do irmão, Federico, jogador do DC United. “Eu assisto à MLS há anos por causa dele. Eu acho que é um bom momento para vir para cá. Eu me sinto bem, me sinto completo como jogador. Estou motivado para tentar uma nova liga e ajudar o time a crescer. Individualmente, meu objetivo é demonstrar que posso contribuir e continuar jogando um grande futebol aqui. Espero conseguir isso porque eu tenho as ferramentas necessárias para ter sucesso”, completou.

Que Higuaín tem as ferramentas ninguém dúvida. O problema é que, em três diferentes ambientes, teve dificuldades para utilizá-las semana após semana no mais alto nível do futebol europeu. E parece ter desistido de tentar. Pelo menos durante os próximos 15 meses, aproximadamente a duração de seu contrato com o Inter Miami – e depois será bem mais difícil. Agora, tentará aproveitar os últimos anos de sua carreira em uma liga de dificuldade técnica bem menor e, como disse, em uma cidade bonita. E para a MLS, Higuaín tem ferramentas mais do que suficientes para se dar bem.

.