Em tempos nos quais as crises de refugiados são tão discutidas na Alemanha e em outros países da Europa, a história de Bakery Jatta virou um exemplo. Nascido em Gâmbia, ele se tornou o primeiro refugiado a atuar na Bundesliga. Meses depois de chegar ao novo país, com 18 anos de idade, o garoto já fazia sua estreia na primeira divisão do Campeonato Alemão. O que deveria ser um exemplo de superação, entretanto, se transformou nas últimas semanas em uma discussão bem mais ampla – inclusive de xenofobia.

Publicada no início de agosto, uma reportagem do jornal Sport Bild colocava em xeque a origem de Jatta e até mesmo sua idade. Afirmava que o jovem de 21 anos não era quem dizia ser e apontava que sua inscrição na segunda divisão não possuía validade. Depois disso, diferentes clubes ameaçaram entrar na justiça desportiva contra o Hamburgo e, pior, o atacante também foi alvo de ataques. A prefeitura de Hamburgo precisou intervir na situação e, após uma apuração de documentos, indicou que o material do Sport Bild não passava de alarme falso. Já nesta quinta, uma semana depois do esclarecimento, o gambiano escreveu uma carta para agradecer o apoio de quem não lhe virou as costas.

“Há quatro anos, fugi de Gâmbia para a Alemanha, sem minha família. Hoje, posso dizer que tenho a maior e mais carinhosa família que poderia ter sonhado. Você, Hamburgo, se tornou a minha família! É desta forma que gostaria de expressar minha gratidão. Eu nunca me esquecerei disso”, declarou Jatta, em seu Instagram.

Jatta deixou Gâmbia quando tinha 17 anos, em 2015, fugindo da miséria e das instabilidades de seu país. Atravessou o Saara e o Mediterrâneo, antes de entrar na Europa através da Itália. Na Alemanha, ganhou uma nova oportunidade de vida em uma instituição educacional, onde começou a demonstrar o seu talento. Após atrair o interesse do Werder Bremen, o adolescente recebeu a chance de participar de um teste no Hamburgo em janeiro de 2016. Juntou-se inicialmente ao quadro amador do clube e, assim que completou 18 anos, pôde assinar seu primeiro contrato profissional. Sua estreia na equipe principal aconteceu em abril de 2017, ao sair do banco justamente no fim do clássico contra o Bremen.

Até a temporada passada, Jatta continuou integrando o Hamburgo II na quarta divisão alemã. Exibia ótimos números com a equipe. Além disso, disputou partidas esporádicas com o time de cima. Sua consolidação no elenco principal aconteceu a partir de outubro de 2018. Entrando principalmente como ponta, disputou 25 jogos e anotou quatro gols na segundona. Também balançou as redes na semifinal da Copa da Alemanha, durante a derrota para o RB Leipzig. Já a atual temporada se prometia ainda melhor ao jovem de 21 anos, apesar da permanência do Hamburgo na segunda divisão. Foi então que o caso veio à tona.

A reportagem do Sport Bild foi publicada na primeira semana de agosto, após as duas primeiras rodadas da segunda divisão. O tabloide dizia que o gambiano mentiu a idade e que modificou seus documentos, em busca dos benefícios que são concedidos aos refugiados menores de idade. Seu nome verdadeiro seria Bakary Daffeh e seu nascimento teria acontecido em 6 de novembro de 1995, não em 6 de junho de 1998, como nos registros atuais. Conforme a publicação, o atacante atuara em clubes de Nigéria e Senegal, além de ter sido convocado pela seleção sub-20 de Gâmbia em 2014. Depois de fazer testes no Piacenza, da Itália, seu paradeiro seria desconhecido. Naquele momento, o Hamburgo e o empresário do atleta se negaram a responder as indagações da reportagem.

A revista Der Spiegel publicou, dias depois, que o Hamburgo manifestara suas dúvidas sobre a idade de Jatta na época da contratação – conforme documentos obtidos pelo Football Leaks. Um funcionário do clube soube da história de Bakary Daffeh, mas não encontrou evidências de que seriam a mesma pessoa. Além do mais, o passaporte de Jatta indicava que ele havia atuado no Brikama United, clube por onde Daffeh também passara, com vínculo encerrado apenas meses antes do registro de Jatta.

Derrotado pelo Hamburgo na segunda rodada, o Nuremberg ameaçou buscar os pontos do jogo nos tribunais. O mesmo fizeram Bochum e Karlsruher, batidos pelos hamburgueses nas rodadas seguintes à publicação da história. O técnico Dieter Hecking manteve Jatta como titular, apesar de todo o imbróglio. A situação mais grave aconteceu contra o Karlsruher, no único jogo fora de casa que Jatta disputou desde o início das acusações. O atacante foi vítima de ataques xenofóbicos, vaiado e xingado pelos torcedores nas arquibancadas. Os presentes chegaram mesmo a imitar sirenes, para provocá-lo.

Somente três dias depois do jogo em Karlsruhe, o jornal Hamburger Abendblatt publicou uma nova reportagem sobre o caso. Uma testemunha citada pelo Sport Bild negou que Bakery Jatta e Bakary Daffeh sejam a mesma pessoa. Logo depois, o Hamburgo conseguiu a certidão de nascimento de Jatta, assim como um documento emitido pelo Ministério das Relações Exteriores de Gâmbia quanto ao seu passaporte. No início da última semana, a prefeitura de Hamburgo aprovou os documentos e garantiu que não existiam evidências o suficiente de uma fraude para que as investigações continuassem. Nuremberg, Bochum e Karlsruher retiraram suas ações na justiça desportiva após o posicionamento das autoridades.

Antes mesmo do encerramento do caso, Jatta voltou a campo e marcou o seu primeiro gol na segundona da Bundesliga. Em 1° de setembro, concluiu a vitória por 3 a 0 sobre o Hannover 96 no Volksparkstadion. O atacante foi abraçado por todos os seus companheiros durante a comemoração, além de ter seu nome cantado nas arquibancadas. Substituído no final do segundo tempo, terminou ovacionado. O Hannover, em contraposição aos demais clubes da liga, manifestou que a derrota só aconteceu porque “foram inferiores dentro de campo” e que a “identidade não teve papel decisivo”. Uma clara mensagem sobre o caso.

Com a realização da Data Fifa, Jatta ganhou duas semanas de folga após o posicionamento das autoridades em Hamburgo. Sua manifestação nesta quinta acontece às vésperas do clássico contra o St. Pauli, marcado para a próxima segunda-feira, no Estádio Millerntor. Será interessante notar a reação dos rivais diante do episódio, já que o próprio presidente dos Piratas apoiou Jatta. Por mais que a desconfiança de alguns prevaleça, Jatta está livre para seguir sua carreira e construir sua vida no novo país. O acolhimento do Hamburgo também nestes momentos de provação foi essencial ao gambiano.

Abaixo, a tradução completa da mensagem postada por Jatta:

Meu nome é Bakery Jatta! Há quatro anos, fugi de Gâmbia para a Alemanha, sem minha família. Hoje, posso dizer que tenho a maior e mais carinhosa família que poderia ter sonhado.

Você, Hamburgo, se tornou a minha família! É desta forma que gostaria de expressar minha gratidão a toda a presidência, meus companheiros, a comissão técnica, os meus guarda-costas Miro e Jürgen, os torcedores fantásticos, meu advogado e a todos que me mostraram um amor incondicional. Também gostaria de agradecer a todos os atletas, treinadores, colegas e amigos, bem como a toda a família da Adidas pelo encorajamento que me deram desde o primeiro dia. Eu nunca me esquecerei disso!

Também há duas pessoas a quem gostaria de mencionar especialmente: Jonas Boldt [diretor esportivo do Hamburgo] e Dieter Hecking [atual treinador]. Eles me ofereceram nada além de apoio e confiança. Eles estava lá por mim, durante o período mais difícil da minha carreira!

Muitas pessoas me perguntavam se eu ia dizer algo ou reagir contra todas as notícias, contra as pessoas que faziam uma caça às bruxas comigo. Minha simples resposta sobre não contra-atacar: eu não sou como essas pessoas! Nós não somos como essas pessoas!

Sou abençoado por ter recebido a oportunidade de estar aqui. Estou vivendo uma vida melhor que eu tinha antes. Com todas as suas reações gentis, os seus comentários e o seu apoio incondicional, vocês deram a melhor resposta contra uma campanha de difamação. Se houvesse uma coisa que poderia desejar a todas essas pessoas, que queriam me prejudicar, era a de que pudessem sentir a dor que me causaram. Apenas uma vez, que eles pudessem experimentar o sofrimento que precisei atravessar. As coisas que vivenciei em Karlsruhe, por exemplo: posso dizer que foi, de longe, o pior sentimento que já tive.

Eu sei que não sou tão bom jogador quanto Aaron [Hunt] ou Sonny [Kittel]. E sei que há jogadores muito mais talentosos do que eu no futebol. Mas eu prometo a vocês: enquanto minhas pernas continuarem me carregando nesta vida, eu estarei aqui para vocês. Enquanto eu viver, nunca esquecerei de como o Hamburgo e todos vocês me deram apoio durante o tempo inteiro.